02. May

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6 ANOS ANTES DOS CRIMES

Frustração era a palavra. Depois da demissão ela vendeu por um ano produtos e acessórios eróticos numa sex shop do Centro. E entre vibradores e fantasias malucas — Alguém usa mesmo isso para fazer sexo? — ela pegava seu bloquinho dedicado às anotações e abria o Microsoft Word com objetivo de digitar o maior número de palavras possíveis. Havia pouca clientela, então sobrava tempo para a escrita.

Depois de abdicar dos pintos borrachudos e vibrantes — carro-chefe da loja —, trabalhou como "oferecedora-insistente-de-cartões-de-crédito" em Itu; ao menos sabia manobrar os aparelhos de telemarketing. Foi também garçonete nos diversos bares da cidade; cuidadora de "ranhentinhos" nos bufes infantis; operadora de caixa no hipermercado Extra; atendente numa loja de materiais de construção; e fez diversos outros bicos que surgiram. Apenas um estágio na área das Letras daria brilho no seu caminho e poderia salvá-la daquela vida de macaca, saltando de galho em galho sem nada certo. Contudo, o estágio não deu as caras e ela voltou a exercer o cargo de recepcionista.

— Olá, amigão, o que foi desta vez?

— Sangue nas fezes — disse o dono do cãozinho amuado. — Precisamos de um tratamento. O Azeitona nem está comendo direito.

Existiam os dias tristes lá na clínica veterinária. Ver aqueles animaizinhos doentes cortava o coração dela. Mas então era isso: recepcionar animais doentinhos durante o dia, e estudar a alta literatura à noite.

Conformação era a outra palavra. Por fim, não havia carinha animalesca adoentada capaz de fazer Mariane perder o pique. Ela se desafiava cada vez mais: escrevia contos bem mais extensos agora, e estava imersa numa nova ideia: um romance policial. O gênero detetivesco tinha que ganhar forças por aqui para ser discutido e valorizado como era nas terras gringas. Pois, para ela, o enredo policial era o suprassumo da literatura de gênero. Seu passatempo consistia em ler um bom suspense policial amarrado à uma trama densa, intrincada, recheada de mistérios. Era uma leitora apaixonada pelos livros de crimes e os lia com olhos de escritora, porque por mais que a vida sempre desviasse Mariane de seu rumo ela se mantinha engajada em conquistar seu lugar ao sol neste país doente e carente (como o Azeitona) de romancistas policiais.

Resolveu meter a cara. Havia finalizado dois livros da série A Hora do Crime quando estava no terceiro ano da faculdade. Ela tinha contratado sua colega de classe como revisora, e foi assim entrou no maravilhoso mundo da Leitura Crítica e Preparação de Original e notou o quanto o aqueles trabalhos minuciosos eram essenciais no desenvolvimento dos livros. Constatou que autor que trabalhava sozinho, possivelmente, não era capaz de notar os erros cometidos. Os livros dela eram isentos de crateras, mas alguns buracos precisavam ser pavimentados. Por este e por outros motivos, Mariane confiava seus textos à Sara.

— Você poderia ganhar dinheiro com isso também, Mari — disse Sara. — Você escreve muito bem e vejo o quanto é autocrítica. Está perdendo tempo e dinheiro, boba. Se quiser praticar, eu te passo alguns trabalhos. Estou afogada com tantos textos!

— Hum, acho que vale a pena tentar.

Habituou-se rapidamente ao seu novo trabalho. Parecia que estava no caminho certo, pois adorava o que fazia. Seu jeito crítico e perfeccionista melhorava, e muito, a qualidade dos textos que caíam em suas mãos. Havia perdido alguns autores por ser exigente e/ou muito sincera. Certa vez disse a um rapaz lunático e aspirante a romancista: "Não é só porque você escreve fantasia que todo leitor é obrigado a engolir todas as suas criações mirabolantes. Já ouviu falar de verossimilhança? Quer ser publicado? Pois então aja como um profissional, e aceite críticas".

Mariane estava longe de ser arrogante, era apenas segura de si. Garantia-se como revisora e preparadora... Mas, e como escritora?

Sara havia acabado a revisão dos seus dois primeiros livros, enquanto Mariane escrevia as ideias do terceiro da série. Havia chegado a hora de enviar seus livros às editoras e passar pelas angústias que só o mercado literário poderia oferecer aos autores de primeira viagem.

O resultado? Os NÃOs haviam acumulado. Enfrentar as respostas negativas estava sendo desanimador. Mariane fraquejou. Sabia do seu potencial, trabalhou duro, lapidou seus livros, pareciam perfeitos! E mesmo assim, eles haviam sido rejeitados pelos corações mercenários dos editores.

Numa noite regada a melancolia: Segurava seu bloco de notas contendo as escaletas do terceiro volume da série A Hora do Crime, enquanto bebia vodka — o terceiro copo: um drink à cada livro para brindar seus fracassos. A garganta embargada, queimada pelo álcool. Sorveu o último gole empurrando o choro contido e desabou. Chorou "copiosamente". Pior que não enxergar a vitória no final da corrida era ver a faixa já cruzada por corredores bem melhores e mais competentes que ela. Aos prantos, deitou-se no chão frio e duro da sala minúscula e solitária. As lágrimas lhe conferiram um rosto fantasmagórico. Depois, contemplou as tímidas labaredas de fogo que lambiam as bordas da panela colocada sobre a mesinha de centro.

As ideias do volume 3 renderam menos de dois minutos de chamas.

Do sonho, sobrou apenas o cheiro de papel queimado.

O fogo já não refletia mais o brilho dos olhos lacrimosos dela.

Devagar, Mariane se pôs de pé. A amargura e a tristeza profunda sentaram-se junto a ela diante o computador. Seu rosto brilhava sem brilho.

— Eu desisto.

Arquivos editáveis d'A Hora do Crime: DELETADOS.

Apagou tudo, até mesmo da lixeira, extinguido qualquer chance de recuperar os arquivos, caso se arrependesse.

Como escrever, matar e publicar [Vencedor do Wattys2020]Onde histórias criam vida. Descubra agora