53. Rodrigo

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DIA DOS CRIMES

21/02/17 – terça-feira, 21h15

Os saltinhos de Laura se distanciaram, e foi como música para os ouvidos de Rodrigo. Seu peito moveu-se num ritmo mais vagaroso até o ar chegar a seus pulmões de maneira mais dosada e controlada; o mesmo com os batimentos cardíacos.

Levou minutos tentando ouvir o que os dois estavam conversando "lá fora", mas não conseguiu distinguir todas as palavras. E quando o silêncio lhe sussurrou: "A barra está limpa; eles já foram", ele abriu a porta com a máxima cautela. O ruído dela ao abrir chegou a ferir sua audição já sensível pelo estouro, contudo, o som não se alastrou no mundo como Rodrigo temeu.

Recuperando o movimento de suas pernas dormentes, ele foi, passo a passo, ao encontro da cena do crime. Observou o serviço executado pela dupla: Laura e Cris, tampando a parte inferior do rosto como se sua mão fosse uma máscara cirúrgica.

E então, no meio daquele silêncio e perante a cena violenta, sua cabeça foi tomada por mais dilemas e a adrenalina começou a ser espalhar por todo seu corpo.

Precisava agir!

Titubeou; parecia um rato de laboratório perdido no labirinto de prateleiras, toners e materiais de impressão. Suas mãos tremiam enquanto fazia o vai-e-vem, encurralado pela hemorragia do corpo estirado no chão. Da boca do morto: muito sangue.

Rodrigo mordeu os nós dos dedos para controlar a tremedeira. Deu trégua ao sapateado repetitivo e respirou fundo. O relógio desautorizava hesitações longas. Precisava tomar decisões inteligentes e ajeitar aquilo o mais rápido possível.

O teto era tão elevado que as prateleiras chegavam apenas à metade da altura do ambiente, contudo, a amplitude era insuficiente, sem muito espaço para andar.

Rodrigo tinha abandonado a cena do crime nº 1 possuído pela urgência de encontrar Norberto e matá-lo.

Agora, como o homem já estava morto, o foco ali era arquitetar um plano. Era necessário relacionar o primeiro com o segundo crime, como se fosse um homicídio seguido de suicídio. Enganaria a polícia? Como criar a conexão entre os dois assassinatos e sair ileso?

Desastrado, ele esbarrou com o ombro num chumaço de folhas e quase derrubou-o sobre o corpo. Seu pensamento estava longe, na dúvida se havia feito mesmo um bom contrato vitalício de cumplicidade. Graças ao pesado furador de papel sobre as folhas, elas permaneceram onde estavam.

A tremedeira continuava e a palidez da pele anunciava um desmaio por conta do descontrole da situação. "Ajustar" a segunda cena do crime seria impossível sem sabotar.

Alguns minutos antes disso tudo acontecer, ele recebera um desabafo de May; estava claro: ela desejava um castigo dos bons ao marido.

E o que eu faço agora, porra!? Estou encrencado até o gargalo... Tem sangue pra caralho!

A conhecida arma — uma glamorosa RT-889, calibre .38, fabricação da Taurus, com acabamento fino e desenho clássico — descansava na mão da vítima, próximo da boca escancarada. Um breve flashback tomou conta do pensamento de Rodrigo: aquela arma já fora apontada à sua fuça sob ameaças mortais.

Com a cara toda enrugada ele se aproximou e observou Norberto jogado. O tiro fora um desastre; por algum motivo a bala ficara alojada no topo da cabeça.

— Só vai servir se a bala chegou ao crânio — sussurrou com seus lábios secos.

Depois de fazer uma careta, abandonou Norberto e subiu as escadas em busca de ar renovado. Deparou-se com a bagunça do escritório. Olhou tudo ao redor. Nada fazia sentido. Seus olhos perceberam a foto no chão. Como a situação exigia cautela ao extremo, surrupiou um bloquinho de Post-it numa das mesas, arrancou uma folhinha e valeu-se da parte grudenta dela para evitar de deixar suas digitais. Observou a imagem por alguns instantes com a testa franzida e, segurando a foto com cuidado, ele desceu pela segunda vez para o silêncio sufocante no almoxarifado da Editora Hora de Ler. Suava igual porco antes do abate. Desta vez: gravata ausente de seu vestuário, até porque, senão, ela poderia vir a ser uma forca: Adeus mundo cruel, porém, ele estava ali para forjar um suicídio em vez de cometer um.

Como escrever, matar e publicar [Vencedor do Wattys2020]Onde histórias criam vida. Descubra agora