36. May

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DIA DOS CRIMES

21/02/17 – terça-feira, 19h09

May estava ficando boa em bater portas. O som da porta do carro ecoou por todo o estacionamento do prédio. Deu partida no motor, o carro disparou, porém, nem o carro nem May sabiam aonde estavam indo.

Perdida, ela ainda chorava. Seu coração batia descompassadamente. Acho que vou infartar!

Subindo a Avenida Barão de Tatuí, observou-se no espelho retrovisor e percebeu a mancha de sangue pisado dentro do olho. A vermelhidão em torno dele pareceu mais acentuada e provavelmente aquilo ia inchar mais. Num ato desesperado, ela acionou um pequeno compartimento acima do espelho retrovisor e pegou seus óculos escuros. Precisava disfarçar o hematoma. Não poderia viver sem tirar os óculos, é claro, logo todo mundo perceberia; porém, serviu naquele instante.

May dirigia sem rumo; estava entre parar na delegacia mais próxima e dar queixa do marido ou se jogar do próximo viaduto... Preciso da minha mãe. Os pneus cantaram. Ela entrou numa rota que a levaria à casa de sua mãe, feito uma adolescente de coração partido por ter brigado com o namoradinho. Ia direto para os braços da mamãe em busca de amparo e afagos maternais.

Sua cabeça: turbilhão de pensamentos (ruins). O raciocínio não conseguia vencer as palavras: traição e violência. Ah, como eu quero que ele morra! — Não se tratava de apenas uma raivinha ou um acesso nervoso de raiva, ela fora acometida por um desejo assassino real. Ela própria queria torcer pescoço dele e o sufocar. Como seria ver as pupilas dos olhos dele dilatadas e sem brilho nenhum? A vingança se tornou mais forte quando sentiu uma fisgada de dor no olho agredido. Os nós dos dedos grudados ao volante estavam brancos.

Suspirou. Deu-se conta da imaturidade: Não posso ceder ao desejo assassino... Não sou uma assassina! Para afastar o pensamento, pensou na mãe, que não tinha nada a ver com aquilo e estava lá quietinha no canto dela, curtindo a sua companheira de cinquenta polegadas, tendo como maior preocupação do dia: lembrar-se de tomar os remédios para controle da hipertensão. Todo mundo precisava dos pais, entretanto, refletindo melhor, May concluiu que já era grandinha o bastante e não tinha o porquê de envolver a sua pobre mãezinha naquela merda toda. Imaginou a carinha enrugada dela ao deparar-se com seu rosto inchado e olhos chorosos e com veias de sangue colorindo o branco.

Não, não posso fazer isso... Lutando contra si para manter o autocontrole, May respirou profundamente. Oxigenou o cérebro. Precisava pensar com mais clareza e dirigir com atenção, já que um carro também era uma arma fatal.

O que fazer numa hora dessas?

Ela aproveitou o semáforo "fechado" para tentar organizar as ideias na cabeça e arrumar a cabeleira desgrenhada. O sinal abriu, interrompendo-a, porém, ela só precisava de apenas mais uma luz vermelha para colocá-los em ordem; os cabelos, pelo menos. Já seria uma evolução.

Como já estava indo sentido Zona Norte, pois sua mãe morava quase no final da Avenida Ipanema, ela obrigou-se a encontrar um lugar por ali para poder se acalmar e decidir melhor o que fazer. A sinapse ocorreu como um relâmpago no céu chuvoso. Micael! KABUUUM, estrondou na cabeça dela. Iria até onde tudo aquilo havia começado.

Ela subia feito uma doida desvairada, a visualmente poluída, esburacada, tortuosa, e mal projetada: Rua Comendador Hermelino Matarazzo. Seu novo destino era o Carrefour, o marco zero, ponto de partida, o local no qual havia firmado o maldito contrato de publicação com o oportunista de merda. Ao menos, ali no supermercado, poderia estacionar e permanecer dentro do carro até às 22h00, até que lhe surgisse ideia melhor. Teria tempo para pensar. Poderia parecer besta a atitude, porém, não incomodaria ninguém — principalmente sua mãe. Disse a si mesma que era melhor ficar na dela até saber realmente o que fazer.

Passou pelo primeiro radar de 50 km/h carregando a dúvida da multa. Lembrou-se que havia mais um à frente e torceu para que o olho ruim o visse a tempo. Depois que venceu o paredão do cemitério da Saudade, o viu. Reduziu a velocidade para menos de 50 km/h e passou, com a certeza de não ter sido multada pelo menos naquele trecho.

May ouviu o celular vibrar dentro da bolsa. Ela o ignorou. É Norberto, certeza! Não vou atender! Contudo, sem se aguentar por muito tempo, ela o pegou rapidamente com uma só mão a fim de checar, e viu o aviso na tela de bloqueio: Norberto havia ligado cinco (desesperadas) vezes, seguidamente.

Tremeu-se toda, mas ignorou.

Entrou no supermercado às 19h25 e, por ironia do destino, May fez exatamente o mesmo percurso do outro dia: entrou pela entrada lateral do Carrefour (que dava para a Avenida Ipanema), percorreu toda a extensão do estacionamento e parou na mesma vaga de duas semanas atrás. Pelo jeito, ninguém gostava muito do pátio A2, talvez por ficar mais distante da entrada principal da grande loja.

Ela não se importou. Preferiu refletir sobre todos os acontecimentos daqueles dias: um apanhado de pensamentos, correndo numa velocidade absurda na sua mente. Que briga foi essa? Percebeu que ela e Norberto nem ao menos haviam esclarecido as coisas. A sensação de vazio a invadiu, afinal, fora uma "briga vazia": os dois nem chegaram a comentar sobre como May tomara conhecimento da traição. Norberto sequer defendeu-se de verdade. Ela nem chegou a questionar sobre a sexualidade dele e nem perguntou o porquê de ele estar traindo-a justamente com Nicolas. Isso tudo era para ter sido discutido na hora. E não foi. Havia todo o ônus da discussão e nenhuma resolução. Um péssimo negócio.

Restava agora o divórcio? Desmanchar a sociedade da Editora Hora de Ler? Valia a pena perder tudo, se afundar em solidão e ainda ficar sem respostas? Precisava agir.

May conferiu se havia pessoas ali por perto e, quando percebeu que não, tirou os óculos escuros, revelando o inchaço do rosto e o hematoma feio no olho direito. Tirou uma selfie, conferiu a foto e enviou a duas pessoas pelo WhatsApp: Laura, sua ex-arqui-inimiga, e Cris, o mordedor de beiço. Ambos faziam hora extra naquela noite, organizando os últimos detalhes do lançamento mais recente da editora. Tenho que avisá-los. Embaixo da foto ela digitou um breve texto, explicando o que tinha acabado de acontecer com ela, aproveitando para se desculpar em não poder comparecer no evento da manhã seguinte.

Recebeu mensagens preocupadas dos dois funcionários, quase que instantaneamente, e respondeu-os dizendo: "Terminem as tarefas o mais rápido que puderem para voltarem logo para casa. Cuidem-se. E eu ficarei bem. Não precisam chamar a polícia, eu mesmo me encarregarei disso".

As respostas vieram carregadas de choque e indignação. Cris chegou até a mandar uma mensagem raivosa dizendo que se visse Norberto em sua frente, ele seria capaz de matá-lo na hora.

Ela sentiu a necessidade de dizer: "Não, Cris".

E agora?, pensou ela, recordando-se de que havia um plantão policial logo ali ao lado do Carrefour. Abro um B.O. contra Norberto ou fico aqui chorando até não aguentar mais?

Como escrever, matar e publicar [Vencedor do Wattys2020]Onde histórias criam vida. Descubra agora