19 DIAS ANTES DOS CRIMES
02/02/17 - quinta-feira, 08h35
Micael saiu da loja de acessórios fotográficos no Centro e partiu para uma gráfica ali perto. Seus atos desencadearia uma série de pequenas catástrofes feito um vírus que atinge os mais vulneráveis, e só dali três semanas é que a "doença" se manifestaria.
No caminho seus pensamentos vagavam intensos: fama; fãs; leitores amando e/ou odiando seus personagens; Facebook bombando notificações e explodindo compartilhamentos; elogios piscantes na caixa de e-mails; "tweets" de vários quotes autorais; fotos com leitores felizes segurando um exemplar d'O Cúmplice e o Assassino no Instagram.
Micael já tinha até falas prontas na cabeça para distribuir nas entrevistas frouxas dos blogueiros-metidos-a-repórteres em lives no Youtube; Nas "Bienais do Livro": aquela fila! Todos conheceriam e se lembrariam dele, o fodão: Micael Duarte!
— Desculpa, moço, esqueci seu nome.
— É Micael. — Ele brincava com a caixinha de clips metálicos no balcão da gráfica.
— Ah, é. Aqui, está pronto.
— Certo. — Esfregou suas mãos suadas no bolso da calça.
— É um livro? — quis saber a garota.
— Olha só, como adivinhou? — disse com a voz mais aguda. — Este é meu original. Sou escritor.
— Ah... — resmungou a moça. — Saem quentinhas. — Bateu as extremidades do maço no balcão marcado por pequenos cortes de estilete e aprumou as trezentas folhas. — Deu 45 reais. Vou grampear, tem um grampeador grandão lá dentro...
— Nem pensar. — Fracassou em ser simpático. — Sem grampo!
— Desse jeito, solto? — Ela pescou da boca o chiclete mascado e jogou no lixo.
Vai para lá com esses dedos babados!
O rapaz puxou o original, escondendo-o debaixo do colete escolhido a dedo para a ocasião importante do dia.
— As páginas soltas facilitam na hora do manuseio. Fica mais fácil para o editor passar para a próxima... — Já leu algum livro inteiro na vida? Desistiu da explicação. Arrancou da carteira duas notas de vinte e uma de cinco.
— Dava para imprimir nos dois lados, frente-e-costas... Livros são assim, né?
Frente-e-VERSO, querida!
— Trabalha aqui há muito tempo?
— Acho que mais de um ano já. Por quê?
— Nada não... Bom, eu optei por... como posso dizer para você?
— Já sei. O editor prefere.
— É, minha futura editora, May Anne, prefere dessa forma. É melhor para fazer comentários longos.
— Ah, saquei. Legal! E você pulou linha para ficar melhor de ver?
— Chama-se espaçamento duplo.
— Ah, entendi. Nossa, "mó" montão de detalhes, né?
— "Mó" montão — ironizou ele. — É complexo também, enfim. E envelope grande, daqueles pardos, tem aqui?
— Do marrom?
— Aham. — O sorrisinho arrogante despontou. — Do marrom, esse mesmo.
Ela foi buscar numa prateleira.
— Por conta da casa — disse ela, infantilizada. — Boa sorte lá, com o livro...
— Deixa a sorte para lá. Dessa vez tenho uma carta-na-manga. — Bateu no bolso traseiro da calça. Agradeceu pelo envelope, auspicioso.
— De nada — disse a mocinha.
A mente dele a corrigiu: É "por" nada.
Passou pela porta e saiu da gráfica de qualidade questionável negando com a cabeça em sinal de menosprezo. O original já estava dentro do envelope, retirou do bolso da calça o elemento primordial — pois, sem aquilo, May jamais o publicaria — colocou junto, lacrou e seguiu para seu destino.
Se May o encurralasse a fim de saber como a coisa toda fora descoberta, seria bom, porque fazia parte do plano instigá-la.
Agora com tudo em mãos, a palavra "Traidor" passou a martelar suas costas. A hesitação durou pouco. Decidido, rasgou os lábios num sorriso malicioso. O egocentrismo de Micael estava além da sua própria humanidade, não ligava se a vida de May fosse oferecida à vala dos infelizes. Autopublicação? Seu ego e seu orgulho doíam só de pensar. Ele ansiava por mais que isso. Apesar de que seria desnecessário pensar em trabalho solo possuindo com a "arma" que tinha em mãos. Desistir da ideia? Jamais! Seria burrice abrir mão da grande e única oportunidade de verdade. Se desistisse estaria jogando seu livro na fossa.
Apertou o envelope no peito com cuidado; dentro dele: dois mistérios. Um para seus futuros leitores: "Quem matou a jovem milionária?"; e outro para May: "Quais os crimes que seu marido vem cometendo?"
Chegou sorridente à Editora Hora de Ler. Ninguém o impediria de falar com ela. E precisava ser cara a cara.
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Como escrever, matar e publicar [Vencedor do Wattys2020]
Mystery / Thriller(LIVRO COMPLETO) | VENCEDOR DO PRÊMIO WATTYS2020 | Categoria: Mistério & Suspense Do que você seria capaz para publicar seu livro? O jovem escritor, Micael - consumido pela ambição de ter seu livro aceito pela editora-chefe da Hora de Ler -, aparece...
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