O Desafio

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Pov Camila

Acordei assustada com Harry me sacudindo como se o mundo estivesse acabando. Ela adorava pular na minha cama de manhã cedo, feito uma criança animada em dia de Natal. Hoje, claro, ela tinha um bom motivo — era o tão esperado show do Twenty One Pilots, que eu aguardava havia três longos meses. Meu Deus, como eu amo esses caras.

Me levantei ainda meio zonza com os gritos de Harry e fui direto para o banho. Depois de me arrumar, coloquei uma saia preta e uma blusa branca decotada. Queria me sentir bonita hoje. Chegando ao local do evento, Harry logo se juntou a Demi, uma garota mais velha, já na faculdade — assim como a maioria dos amigos dela.

Okay, Harry é só três anos mais velho que eu, mas sempre me dei melhor com gente mais velha. São mais maduros que os idiotas do meu colégio. Harry é filho do melhor amigo do meu pai. A gente cresceu juntos. Dizem que quando eu era recém-nascida, ele me pegou no colo e me deixou cair. Ele vive dizendo que esse é o motivo de eu ser "doida". Que respeito, né?

Logo os amigos da Demi chegaram. Ela começou a apresentar um por um. Eu sorria educadamente, mas parei quando percebi que uma garota — Lauren, era esse o nome dela — me encarava de um jeito direto demais. Corei e sorri mais largo, sem saber exatamente por quê.

Ela me olhou de cima a baixo antes de puxar assunto. Tivemos uma breve conversa, daquelas que acendem o sangue nas veias. Ela era arrogante, com aquele ar superior de quem acha que é mais esperta do que realmente é. Me lembrou metade dos garotos da minha escola. E ainda teve a ousadia de comentar que eu não estava bebendo.

Como se isso fosse problema dela. Ela é quem? Minha mãe? Me afastei irritada, ignorando as risadas ao redor. Fui para perto do palco quando o show começou. Comecei a dançar sozinha, me perdendo na música. Mesmo assim, sentia o olhar dela em mim. Eu não gostava de garotas. Nunca tinha gostado. Mas havia algo estranho ali. Algo que me fazia querer procurar por Lauren entre a multidão.

Ela mexia comigo. Me tirava do eixo. E mesmo irritada, eu continuava prestando atenção nela  e odiava quando pegava ela olhando de volta. Harry apareceu do nada, me abraçando, cheiro de bebida e com um sorrisão bêbado no rosto.

Mila, tá pegando fogo hoje, hein? Isso tudo é por causa da Lauren? Tô sentindo um clima... — Harry falou, malicioso.Quis matá-lo. Mas só balancei a cabeça.

Harry, não viaja. Eu gosto de HOMEM, com H maiúsculo. Assim como você, — retruquei, tentando parecer óbvia. Ele riu.

Então a Lauren Jauregui é um homem charmoso, porque, olha... Ouvi dizer que ela namora o Justin, mas vive dando umas escapadinhas com as garotas do campus. Dizem por aí... Aproveita, Mila. — E saiu rindo, me deixando sozinha.

O show acabou. Não vi mais Lauren. Não sei se fiquei aliviada ou decepcionada.

(...)

Era manhã. Terminei de arrumar as malas para a viagem. O estranho era que eu tinha passado a noite inteira pensando nela. E ainda sonhei com aquele sorriso debochado.

Deitei na cama, confusa com o que sentia. Meu celular tocou, me assustando. Claro, era Harry, sempre querendo me matar do coração.

Bom dia, minha macaquinha! — disse ele, rindo. Sempre inventava apelidos ridículos.

Já tô com saudades e você nem foi ainda, — disse, fazendo um biquinho.

Não fala assim, ou eu fico. Aí minha mãe me mata. Sabe como ela é com essa história de família perfeita pra mostrar pros parentes do Carlos, né? — resmunguei.

Depois de mais algumas trocas de palavras e promessas de reencontro, minha mãe me chamou. Já era hora de ir. O aniversário da mãe do meu padrasto, numa cidadezinha onde passaríamos o feriado. Eu não queria ir, mas nem tive chance de opinar.

(...)


 Acordei assustada com o celular vibrando em baixo de mim, quando olhei era uma mensagem de Harry: 

"Mila, volta bem arrumada. Vou te buscar no aeroporto. Vamos dar um passeio."

Conhecendo o Harry como eu conheço... Tinha certeza de que ele estava aprontando alguma coisa. Respondi, fui pro banho e depois do almoço segui pro aeroporto. Como sempre, quase perdi o voo. Quatro horas depois, lá estava Harry no saguão, sorrindo feito bobo.

Pra onde vamos? — perguntei, desconfiada. — Shopping. Quero te apresentar alguém.

Achei que era mais um dos encontros dele, onde eu servia de conselheira amorosa. Mas assim que entramos, dei de cara com Lauren. Parei no mesmo instante. Virei para Harry, que estava com aquele sorrisinho safado. Ele tinha armado tudo. Conversamos um pouco, até que Harry — o traidor pilantra — nos deixou sozinhas.

Lauren não demorou muito a falar. E, de repente, estava... "se declarando". Meu cérebro entrou em colapso no mesmo segundo, não sabia o que falar. Não consegui nem reagir direito.

Eu gosto de homens. E você... não é um, — respondi, sem pensar muito. Ela me olhou com aquele mesmo ar irônico de sempre. E eu, incomodada, continuei: — Mesmo se fosse, não ficaria com você. Você não serve pra mim não tem nada que possa me interessar.

Ela apenas sorriu, confiante.

Em um mês, você vai estar apaixonada por mim, Camila — disse, antes de se virar e sair.

Confesso: aquela certeza dela me desestabilizou.

A única pessoa com quem já namorei foi o Austin. Fomos amigos por quatro anos antes de tentarmos algo. Terminamos quando ele admitiu que era gay e que nunca me amou de verdade. Eu não fiquei brava. A verdade é que nunca fomos um casal de verdade.

Talvez por isso agora tudo parecesse tão diferente.

Lauren mexia comigo. Me fazia pensar em coisas que eu evitava encarar até comigo mesma. Será que eu podia ser lésbica? Eu não queria assumir isso nem pra mim. Mas as palavras dela martelavam na minha cabeça: Em um mês você vai estar apaixonada por mim.

Se fosse qualquer outra garota, eu riria na cara dela. O problema é que não era qualquer uma. Era Lauren Jauregui. E ela estava bagunçando minha cabeça inteira.



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