CINQUENTA E DOIS

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A energia danosa de Raziel parecia mil vezes mais forte ali. Ele agora não tinha só ódio da irmã por tudo o que julgava ter perdido por causa dela, mas também por sua morte, pelo o que Hassel lhe havia feito.

Raziel fora destruído de todas as maneiras e nem mesmo morto, deixava de sentir a dor e a agonia.
Estava completamente fadado a passar a eternidade chafurdado na desgraça. Nunca mais seria feliz, nunca mais experimentaria qualquer tipo de alegria, por mais breve que fosse.

E mesmo enquanto encarava Karol com um sorriso profano nos lábios, ainda sim sentia a dor de ter sido mutilado.
No lugar de suas asas; dois buracos profundos e fétidos; e dele jorrava o mais podre dos sangues, cheio de lavas que se rastejavam por sua carne podre.

Atrás dele, não muito diferente, estava Muriel.

Ainda se sentia confuso, perdido, contudo, não podia negar que a dor que lastimava todo o seu corpo não era quase insuportável.
Também estava sem suas asas; e também apodrecia rapidamente o lugar onde ela estivera antes. E sempre que ele achava que a agonia ia amenizar, ela aumentava. Aumentava em dobro.

Em face disso, o ex-anjo do amor quis atacar o irmão, vingar-se.

Mas quando estava prestes a fazê-lo, ambos viram Karol e Ruggero; e o ódio em comum que sentiam venceu as próprias desavenças.

Se eles iam sofrer – pensaram – ela e ele também tinham que sofrer igual.

Uma eternidade de inferno coletivo.

Muriel constatou que teria muito tempo para se vingar de Raziel; mas contra Karol, as coisas eram diferentes. Ele não sabia até onde iam os planos de Lúcifer para ela. A única coisa que o anjo sabia era que se não fosse pelas escolhas dela, nada disso teria acontecido. Tudo estaria bem.

─ No final do jogo o rei e os peões voltam para a mesma caixa. ─ Raziel murmurou, arrastando-se. ─ No nosso caso, no final de tudo o anjo pecador e traidor e o anjo favorito acabaram no mesmo inferno. Iguais. Isso chega a ser até engraçado.

Karol se colocou ainda mais na frente de Ruggero e deu um passo para frente.

Apesar do estado deplorável em que se encontrava, Raziel ainda parecia determinado o suficiente para atacá-la.

─ O que quer, Raziel? Não foi o suficiente? O seu plano deu certo. Olhe para mim, cá estou eu. Vim para o inferno, fui condenada.

Ele mexeu o dedo na frente do rosto, negando.

Sua mão estava queimada – uma lembrança da espada que manuseou.

─ É diferente. Olhe como eu estou e olhe para você... ─ Tossiu, expulsando dos lábios um montante de pequenas lavas brancas que escorriam por seu queixo. No entanto, ele não parecia se preocupar; prosseguiu: ─ A sua maldita figura celestial parece intacta... Não deveria ser assim! Não deveria parecer tão viva na morte.

─ Isso é ridículo. Estou igual a você.

─ Não! ─ Vociferou inconformado. ─ Até nisso Ele te privilegiou! Como Ele pôde?! Como? ISSO NÃO É JUSTO! ─ E atirou-se contra ela sem pensar, mas Karol foi mais rápida, agarrando-o pela cintura, jogando-o a uma segura distância de Ruggero.

Ela não sentia vontade alguma de machucá-lo ainda mais. Independente de tudo que Raziel tivesse feito, Karol ainda conseguia sentir compaixão por ele. Não sabia explicar o motivo disso, mas sentia.

─ Razi, já basta! Pense com clareza. Veja aonde chegamos. Não merecíamos isso.

Raziel esfregou o rosto imundo e se arrastou, movendo-se debilmente até ficar de pé.

A Marca dos AnjosOnde histórias criam vida. Descubra agora