A última vez

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Cinco dias se passaram desde que eu e Ghost conversamos. Eu não o via, afinal ele não me visitava; era muito doloroso passar por essa situação, e meu psicológico não ajudava.
E, bom seria se apenas esse problema que me afetasse.
Já estava me acostumando a andar sentindo o incômodo lateral, mas os banhos eram a parte mais complicada: eu deveria cuidar muito bem para que a ferida não ficasse molhada, e, ao mesmo tempo, lavá-la constantemente para não contrair uma infecção.
Todos ali me diziam que eu tinha sorte, ou, os mais religiosos apontavam que Deus havia me salvado. Sendo um ou outro, o projétil atravessou pois o terrorista que tentou me matar havia pego uma de nossas pistolas no chão, e não o seu próprio armamento com balas dum dum. Se ele não tivesse feito isso, eu não estaria viva. Foi uma sucessão de erros em ambos os lados.
E, ainda assim, não tive coragem para ligar aos meus pais ou minha irmã. Sei o quanto ficariam preocupados e essa é minha última intenção...é bem melhor assim.
***
Após colocar uma roupa casual, resolvi andar por toda a base. A tarde parecia linda e eu não perderia mais tempo estando deitada em uma cama.
Quando passava pelos locais, todos me olhavam e me perguntavam como estava sendo minha recuperação. Sentir esse tipo de afeto me fazia feliz e aceita em St Asaph, mesmo com as adversidades. Eu não deveria e nem poderia discordar de alguns que me chamavam de 'maluca com tendências suicidas', afinal, eu parecia flertar com a morte todos os dias.
Caminhando pela extensão da base, tive a notícia de minha equipe sairia em mais uma missão, mas desta vez em companhia da Shadow Company. Tentei acelerar o passo mesmo com dificuldade, e consegui alcançá-los no hangar, enquanto arrumavam suas armas e bagagem.
O tenente Ghost parecia distraído, contando as balas nos pentes.
-Oi, tenente. -me aproximei, e ele se levantou, um pouco assustado. Ghost ainda usava a máscara costurada de caveira.
-O que está fazendo aqui, recruta?
Gostava mais quando você me chamava de Megan e quando usava sua balaclava normal.
-Soube que vocês vão partir, então queria me despedir, pelo menos.
-Certo. Então até mais.
Meus olhos ficaram arregalados ao sentir a tamanha frieza do tenente. Não fazia sentido.
-Tenente, espere. -o chamei, fazendo ele se virar novamente-. Por que você está assim comigo? O-o que eu te fiz?
Seu olhar ficou sombrio e ele balançava a cabeça ao me escutar.
-O que você não deveria ter feito, na verdade. -ele deu alguns passos em minha direção.
-Eu sei que eu errei novamente, tenente, mas...
Seus olhos brilharam com certa fúria.
-Eu já percebi que lhe dar ordens não irá adiantar muito. -ele me interrompeu-. Você não entende qual é sua posição aqui?
-Sou sua subordinada. -respondi, um pouco assustada.
-Assim como eu sou do Price. Se você não está disposta a seguir regras, então temos um problema.
O que aconteceu com ele?...
-Tenente, me desculpe. Eu apenas queria te ajudar...não iria deixá-lo sozinho. -balancei a cabeça.
-Você tem problemas em obedecer ordens, recruta. E...você não sabe como é doloroso ver quem você mais gosta se arriscando toda hora. Se tivesse ciência do que eu sinto...
Tenente...
Percebi Ghost vacilar e ele sentiu que falou mais do que realmente deveria. Meus olhos relaxaram e ele continuava agoniado; suas palavras iam direto para o meu coração.
-Eu sinto isso todos os dias com você, tenente. -murmurei, envergonhada-. Prefiro perder minha própria vida do que ter a chance de te salvar e não fazê-lo.
-Pare de pensar assim! -ele tentou se acalmar-. Você não percebe, não é? Eu não tenho nada a perder, eu já vivi demais. Já você, tem uma família, e não quero correr o risco de ir até a casa de seus pais e avisá-los de que o pior aconteceu.
Eu já vivi demais...eu já vivi demais...
-Mas é exatamente isso que fazemos, tenente...-tentei argumentar-. E-eu...
-Você é uma ameaça, Megan.
Suas palavras foram como punhais em meu coração, me fazendo tremer.
-Você é uma ameaça para a equipe e para si mesma. -ele me olhava e então colocou sua mão em meu ombro-. É desequilibrada e às vezes acredito que não tem domínio sobre suas próprias ações. Você não é competente o suficiente para a Task Force 141.
Eu simplesmente não conseguia acreditar no que ouvia. Era como se o tenente Ghost por quem eu era companheira tivesse sido substituído por uma versão fria e cruel.
Meus punhos se fechavam com raiva enquanto ele caminhava para o avião.
-Eu não terminei, SIMON! E isso não tem relação só com o senhor, eu me esforcei muito para chegar até aqui e não posso simplesmente desistir.
Quando gritei, ele se virou e voltou para mim, me encarando. As pessoas que ali estavam nos olhavam com curiosidade; Ghost olhou ao redor como se ameaçasse cada um mentalmente, fazendo-os voltar aos seus trabalhos.
Pela minha atitude, pude comprovar a fala do tenente.
-Teremos três dias de missão. -ele resmungou-. Quando eu voltar após esse período, espero que você já esteja no setor de tecnologias, longe daqui.
Sem poder responder nada e apenas o encarando ir embora, fiquei paralisada. Tive tantas emoções ao mesmo tempo que tive certeza que ia sucumbir.
***
Pelos próximos três dias, desabei completamente em minha cama. Eu já não me importava com a droga de perfuração por bala que eu havia sofrido. Parecia um problema fútil se comparado com o meu emocional quebrado e meu coração partido.
Você não é competente o suficiente para a Task Force 141.
Quando pude voltar para o meu quarto no dormitório, vi que tinha um envolpe pardo na escrivaninha. Fiquei surpresa quando li que o remetente era o setor de análises tecnológicas.
Fiquei tão alheia a tudo que esqueci a inspeção em meu drone...bem, isso não me serve de nada agora, não tenho a mínima vontade de abrir este envelope e ler "inconclusivo".
Deixei ele em uma de minhas mochilas, enquanto tocava o envelope branco dado pelo tenente.
Você não é competente para a Task Force 141.
Não conseguia entender como ele havia mudado tanto e como isso o danificou. Mas não parece mais existir qualquer tipo de proximidade entre nós, e não sei se consigo odiá-lo de alguma forma...
Eu amava o que fazia e me orgulhava do meu esforço, mas talvez o tenente tenha razão. Eu já havia prejudicado muito nós dois. Pensei muito sobre a minha solução, e detestava ficar com um problema por vários dias seguidos.
Você não é competente o suficiente para a Task Force 141.
Olhei o envelope branco uma última vez antes de pegar minha caneta, tendo certeza do que eu faria, com um sorriso fraco nos lábios.
Não serei mais um peso para você, tenente.
***
Minha equipe havia voltado na noite do terceiro dia prometido por Ghost, e na manhã seguida eu me preparava para enfim levar minha decisão.
Coloquei uma camisa xadrez vermelha e minha calça preta, com um all-star velho que eu tinha, e então me olhei no espelho do quarto.
Uma mochila nas costas, outra em uma das mãos, enquanto a mão livre segurava o envelope branco.
Soltei meus cabelos longos e castanhos, deixando-os cair em meus ombros enquanto eu respirava fundo e tomava meu caminho até a sala do capitão.
Pude ver pelo vidro da sala que todos estavam ali: Gaz, Soap, Price e Ghost, que conversavam sobre alguma coisa importante.
-Com licença, senhores. -bati na porta e entrei. Todos me olhavam com um sorriso, felizes pela minha recuperação. Bem, todos, menos o insondável Ghost.
-Sua transferência? -Soap falou com uma certa tristeza na voz enquanto apontava para o envolpe em cima da mesa.
-Não. -balancei a cabeça e então encarei Ghost-. É a minha carta de demissão.
Os três se olharam sem saber o que falar, enquanto Ghost pareceu perder o compasso da respiração. Seus olhos estavam visivelmente surpresos.
-De certa forma, você conseguiu o que queria, tenente. -o olhei.
Antes de sair, bati continência para os quatro. Quando fazia meu caminho para a saída, ouvi sons de passos atrás de mim, mas que foram silenciados no meio de um corredor.
***
Minha mente pensava em tudo, e ao mesmo tempo, em nada. Eu tinha vontade de chorar, e também gritar o mais alto que minha garganta aguentasse. Estar sentada no metrô silencioso, em partes me proporcionava tristeza e me trazia memórias que gostaria de esquecer para sempre. St Asaph se tornou meu cemitério pessoal.
Preciso ir até minha fortaleza pessoal.
Quando cheguei em Liverpool, caminhei até a casa de minha irmã, no sul da cidade.
Sua casa continuava a mesma: pintura vermelha e janelas brancas.
Suspirei e subi os degraus me levavam até a porta de madeira, apertando timidamente a campainha.
-Já vou!
Gritou imediatamente uma voz do outro lado. Ouvir minha irmã novamente depois de tanto tempo me fez sorrir sozinha.
Ao abrir a porta, Emily não conseguiu disfarçar a surpresa.
-Meg? -ela franziu as sobrancelhas-. O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse longe, e...essas malas? -apontou.
-Eu estava. -respondi sem jeito-. Mas aconteceram coisas...
Minha voz falhou e ela percebeu isso. Emily era ótima em saber quando as pessoas não estavam nada bem.
-Irmã...-ela me olhou preocupada-. O que aconteceu?
Não pude evitar de abraçá-la o mais forte possível e então cedi às lágrimas. Enquanto ela me levava para dentro de sua casa, eu engasgava com meu choro e tentava me concentrar em me acalmar, em vão.
-Deu tudo errado...-sussurrei em nosso abraço.
Emily me abraçou ainda mais forte. Não havia a necessidade de palavras no momento, e seu aperto traduziu tudo o que eu queria sentir: segurança, depois de tanto tempo.

Don't Let Me Down.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora