Ele parou no batente da porta do quarto, um bloco de músculos e hesitação. A luz filtrada da lua tornava o cômodo de Rachel acolhedor, contrastando com a tempestade que se formava em seu peito. Paul a admirava escovar o cabelo escuro e grosso, os movimentos ritmados e calmos. Fatalmente, ele pensou em como falar sobre Trish. Talvez fosse melhor se virar e dar no pé antes que fosse tarde demais para isso.
Estudando-a bem de longe, numa distância segura, Rachel parecia bem-humorada. Mas Paul sabia que esse humor era uma camada fina, pronta para quebrar. Só bastaria ele começar a falar.
— Oi, gato.
Como ele era refém daquele sorriso.
O quileute respirou fundo, enfiou as mãos nos bolsos da bermuda e sentiu a areia da praia no forro.
— Oi, linda — murmurou, avançando um passo relutante.
Rachel parou para olhá-lo de cenho franzido, a escova suspensa no ar. Ele não estava bem. Era notório seu incômodo.
— O quê foi, Paul? — a quileute semicerrava os olhos ao notar sua postura descrente. — Está com essa cara por quê? Parece que vai enfrentar um exército de sanguessugas.
— Não, nada — o lobo negou em desconversa, tentando ganhar tempo. — Por que não me falou que Rebeca estava de volta?
Rachel deu de ombros, o tom instantaneamente glacial.
— E isso é significante? Ela mal pisa aqui e já faz Jacob largar tudo que aconteceu para trás.
— É a sua irmã, Rachel. Ela só está animada com o casamento.
A garota paralisou, o sorriso desaparecendo. Ela desfez-se da escova que possuía em mãos, largando-a sobre a penteadeira, e cruzou os braços na cintura.
— Antes de tudo, ela é uma traidora. — o recordou, a voz baixa, mas carregada de veneno. — Mal chegou e já se bandeou para o lado dos forasteiros, defendendo aquela Uley com unhas e dentes.
Paul riu, um som seco e nervoso.
— Linda, talvez você não devesse destilar todo esse ódio contra a...
A quileute de imediato explodiu, dando um passo em sua direção.
— O que está dizendo, Lahote? — confrontou-o — Por acaso está defendendo aqueles engomadinhos? Ou pior, defendendo ela?
— Não. Eu não estou defendendo ninguém.
— Olha, Paul... É melhor você se calar e não ferrar sua vida — disse antes de dar-lhe as costas, voltando-se à penteadeira, incapaz de manter o contato visual. A ameaça era real, e ele sabia disso.
O quileute suspirou pesarosamente. Ele sentia o quarto esquentar com o aumento da temperatura corporal dela.
— Olha como você age só de cogitar ouvir o nome deles, Rachel. Por quê? Qual é o medo?
— Você seria incapaz de entender meus motivos — ela respondeu, olhando o reflexo da própria raiva no espelho.
Ele a fitou por tempo demais, o silêncio sendo seu único aliado.
— Me acha tão idiota assim?
— Eu não disse isso.
— Mas às vezes me faz pensar que sim — insistiu, avançando para o centro do quarto, diminuindo a distância de segurança. — Pare de me afastar.
— Pare com isso, Paul.
— Então vamos, me diga um motivo que te faz odiar tanto a sobrinha do Sam. A única razão de tanto ódio é que você está projetando o seu próprio passado nela.
Rachel cruzou os braços e se virou para encará-lo de cenho franzido.
— Para que quer tanto saber?
— Ela é minha amiga. Eu não quero que fique um clima chato entre a gente sempre. — Paul respondeu minuciosamente, escolhendo as palavras como se fossem minas terrestres.
— Ela não é confiável. Já causou problemas. O Brandon beijou ela, o Jake viu. O melhor de tudo, ainda o trouxeram para cá, como se nada tivesse acontecido. É claro que ela vai trazer problemas.
— Você está julgando um livro pela capa, Rachel. Ela é só uma garota confusa, de luto.
Da sala, no andar de baixo, Billy, embora assistisse desatento a uma partida de beisebol na TV, podia ouvir a tudo que era dito no andar de cima. A alteração do tom de voz da filha fazia o Black sentir pena do pobre Lahote. Ele não sairia vivo daquele quarto.
Billy refletia amargamente. Rachel, por seu gênio forte e seu coração dolorido, estaria fadada a perder aquele garoto, que, embora tivesse um passado questionável, a amava de verdade e, mais importante, era o único que a enfrentava. Billy sentia uma enorme necessidade de chamar Paul e salvá-lo, mas ele não se envolveria. Sentia-se velho e cansado demais para se meter nos assuntos dos filhos. Rachel precisava ser confrontada por alguém que ela temesse perder, e o garoto Lahote era esse alguém.
— Se veio aqui defender aquela garota, pode ir embora — ditou Rachel, apontando a porta.
— Eu só quero te entender. E te proteger de se arrepender depois.
— Você só tem que me apoiar, Paul. Incondicionalmente.
— Estou aqui pra não deixar você fazer merda, Rachel! — ele retrucou, finalmente elevando a voz. — Não sou mais aquele adolescente estúpido que te deixava me manipular.
— Não sou mais aquela adolescente estúpida do passado — ela replicou, mas agia da mesma maneira odiosa, o que fazia Paul querer sair às pressas dali e nunca mais voltar.
— Mas está agindo igualzinho a ela! — replicou. — Desculpe, Rachel, mas não faz sentido você criar um monstro onde não há. Não a culpe por um erro que qualquer um de nós cometemos em algum momento da vida. O que aconteceu no passado entre você e eu, não vai acontecer com eles. Eu sei que é disso que você tem medo. Você tem medo que a Trish machuque o Jake, e que você não consiga protegê-lo.
Paul tinha toda razão, mas ela não renderia àquele papinho furado.
— Quem garante que não? O destino se repete.
— Olha só de quem estamos falando... — o desdém de Paul era agora contra a própria Rachel. — Já se esqueceu que Jacob é o garoto perfeito, o cara certinho de toda matilha? Acha que ele esteve todo esse tempo solteiro por quê?
— Ele só escolhe pessoas erradas — ela rebateu, sentindo a pontada.
— Sim, mas Trish pode ser a certa. Você a viu hoje, ela está feliz. Eles estão.
— Ela não...
— Não, linda — cortou-a, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o calor de seu corpo. — Isso é o que você acha. Esqueça essa bobagem de odiar alguém sem motivos específicos, isso destrói mais você do que a atinge. Deixa o Jacob seguir sozinho, deixa o garoto andar com as próprias pernas. Ele decidiu pular de cabeça nisso, e bom... só temos que apoiar e estarmos preparados para quando algo sair dos trilhos.
Um silêncio incômodo gritou por um breve momento. Rachel absorvia a verdade, mas tentava encontrar uma brecha.
— Você passou o dia treinando com Jared para me dizer isso?
Paul respirou aliviado. Era a chance de fechar o acordo.
— Eu só não quero perder ninguém. E caso... só na hipótese de eu estar enganado sobre minha defesa sobre a réu Uley, eu deixarei você fazer o que bem entender com ela, tá bom? Se ela machucar ele, o território é seu.
Rachel escancarou seu sorriso, um sorriso predador. A promessa de vingança era um bálsamo para o seu ciúme. Ela correu para seus braços.
— Parece perfeito. Você vai ver, amor.
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PERPÉTUA - JACOB BLACK
WerewolfA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
