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 Jacob hesitou por um segundo na porta da casa de Sam. Ele havia voltado após a conversa brutal com Rachel, o coração acelerado. Trish estava dormindo no sofá, encolhida sob um cobertor grosso, uma visão de paz que contrastava com o caos que a rodeava. Ele até pensou em desistir da ideia e deixá-la dormir.

Ela parecia tão cansada. Mas talvez, o cansaço fosse de estar o tempo todo esperando por ele, ou de estar sempre sozinha. O pensamento cortou Jacob como uma adaga.

Ele se aproximou e se sentou na beirada do sofá, ao lado dela. Estendeu a mão hesitante e acariciou seu cabelo ruivo, o toque era leve como uma pena. Aos poucos, seus olhos se abriram, sonolentos, mas com um brilho familiar.

— Oi. — ela sussurrou em meio ao sorriso fraco.

— Você está bem? — Jacob perguntou, a voz baixa, enquanto ela se sentava e se espreguiçava.

— Sim. E você?

Jacob contraiu a mandíbula, forçando o ar para fora.

— Preocupado com você.

— Eu estou bem, Jake. Relaxa. Eu prometo.

Jacob assentiu, incapaz de relaxar totalmente, e se levantou, estendendo a mão grande em sua direção.

— O quê? — ela o olhou, sem entender, o corpo ainda pesado pelo sono.

— Levanta, Green.

Com muito custo e preguiça, ela aceitou sua mão e se levantou. No momento em que ela estava de pé, Jacob a puxou e a envolveu em um abraço esmagador, o cheiro de floresta e calor reconfortante.

— Feliz aniversário, pequena. — ele sussurrou perto do ouvido dela.

Trish sorriu, mas logo Jacob sentiu algo molhar seu pescoço. Ela estava chorando. Soluços silenciosos de alívio, tensão e gratidão, tudo junto. Sem dizer absolutamente nada, ele apenas a apertou mais contra seu corpo e beijou sua cabeça, servindo de âncora para sua tempestade emocional.

O silêncio aplacou toda a sala da casa de Sam. Aos poucos, ele sentiu Trish se acalmando e seu coração bater ritmado com o seu.

— Obrigada, Jacob. De verdade. — disse ela, ao soltar-se dele, os olhos ligeiramente vermelhos, mas com um brilho renovado.

— Sobe e se arrume, porque vamos sair. — a instruiu, pegando-a pelas mãos.

— E onde vamos? Para Stanford?

— Dar uma volta. E te dar uma chance de me ouvir. — a falta de palavra e o mistério em Jacob a deixavam nervosa.

— O que devo vestir? Algo para um pedido de desculpas humilhante ou para fugir de um lobo?

— Algo decente. E não se preocupe, o lobo vai estar ocupado te olhando.

Trish revirou os olhos e sorriu frustrada com a informação vaga, entretanto, tratou logo de subir para o quarto.

Enquanto esperava por ela, Jacob perambulava pela sala, incapaz de ficar parado, envolto por pensamentos. A cada passo, ele sentia a pressão da madeira sob seus pés. Ele estava prestes a fazer um estrago no piso, abrindo sulcos no verniz. Caso esse incidente viesse a acontecer, ele sabia que não seria Sam, mas a própria Emily quem o mataria.

O burburinho das vozes de Quil, Embry e Seth ecoou em seus ouvidos, assim que ele conseguiu se acalmar e saiu na varanda, buscando distração.

— Caramba, Jake. Você tá suando, cara. A Ally disse que é o efeito colateral do imprinting quando está perto do ápice. — observou Seth, ingênuo.

— É a humilhação do imprinting. Ele está nervoso para um encontro. — balbuciou Embry, com um sorriso de escárnio. — Espero nunca ter que passar por isso.

— Espere deitado, garotão. — zombou Quil, dando algumas batidinhas no ombro de Embry. — Porque sentando sua bunda bonitinha vai doer quando acontecer.

Embry o olhou horrorizado.

— Cara, o quê você está insinuando?!

— Vocês me envergonham. São imaturos. — disse Jacob, revirando os olhos.

— Exceto eu, não é, Jake? — alegrou-se Seth, o único que se salvava do julgamento.

— Se eu fosse você pararia de andar com esses caras enquanto há tempo, Seth. Eles vão arruinar seu futuro imprinting. — alfinetou Jacob.

O assobio longo e baixo de Quil, enquanto olhava na direção da porta, alarmou os demais para a aproximação de Trish. Os três ficaram instantaneamente em silêncio e parados.

Quando Jacob se virou, sua mente toda embaralhou. Ela descia os degraus lentamente, a aura de perfeição irradiando dela. Ela vestia a calça jeans escura, mas o casaco de lã cinza tinha um corte impecável, e ela usava um par de botas de couro que alongavam suas pernas. Ela estava mais que linda; perfeita, maravilhosa. Trish era o sinônimo de elegância casual.

Ele não exercia mais o controle de seu corpo. O imprinting tomou o volante, e ele pôde sentir suas mãos e pernas congelando, a temperatura de seu corpo despencando em pânico. Seu coração estava prestes a sair pela boca. Jacob estava petrificado, paralisado, enquanto a admirava boquiaberto.

— Bom... — ela disse, parando na porta, com um sorriso envergonhado. — Talvez eu tenha exagerado um pouquinho na produção.

Embry deu um passo à frente e cutucou a costela do amigo disfarçadamente.

— N-não... você está... — o Black gaguejou, incapaz de completar a frase, o que a fez sorrir discretamente.

— Acho que os frios arrancaram a língua do nosso Jake. Ou o choque de ver a noiva do Sam tão produzida. — caçoou Quil, se aproximando e passando o braço em volta do ombro dele, apertando-o em um abraço de escárnio.

Passado então o efeito colateral que Trish havia jogado sobre Jacob, o quileute esquivou-se da folga de Quil e andou até ela, a expressão séria.

— Decepcionei você a ponto de não conseguir mais falar? — ela cochichou, com a intenção clara de provocá-lo.

— Sim. — ele respondeu, com honestidade brutal, a voz ainda um pouco rouca, mas sem a raiva de antes.

A Uley abriu a boca, absurdamente chocada com a franqueza dele, no entanto, Jacob não esperava por aquele sorriso sagaz e malicioso que surgiu em seus lábios.

— Tenho certeza de que não foi isso que seus amigos acharam. Eles parecem ter gostado muito.

Ela era absurda. Era melhor partirem antes que ele perdesse o pouco de juízo que ainda lhe restava e o imprinting o fizesse explodir de necessidade.

PERPÉTUA - JACOB BLACKOnde histórias criam vida. Descubra agora