As duas seguiam pela praça, os passos ritmados no cimento gasto. Estar ali novamente trazia uma paz reconfortante, mas ao mesmo tempo um vazio incurável que residia em Trish. O ar da cidade, denso com cheiros de café e escape de carros, era o mesmo de anos atrás.
— Então me diz, Pandinha... — prosseguiu Allexya, sem rodeios, o braço firmemente ligado ao de Trish, o tecido do casaco roçando. — Como estão as coisas com Jake? Você o trouxe até aqui, isso deve ser sério.
Trish forçou um sorriso, um gesto tenso. Ela precisava ganhar tempo.
— Estão bem. Resolvemos as pendências. — respondeu, simplista.
— Bem quanto? Ele quase rasgou o Brandon em dois ali dentro. O olhar dele sobre você... é de dar medo e inveja ao mesmo tempo. — insistiu a loira, virando-se para medir a expressão da amiga.
— Lexy, não vamos falar sobre isso. É complicado. — pediu a Uley, apertando o braço da amiga.
— Tem algo errado?
"Tudo!" — Trish quis responder.
— Nada. Só o de sempre. — contentou-se ela, o peso da mentira evidente em seus ombros.
— Não mente pra mim, Pandinha. Sabemos que você sente algo por ele, e a forma que ele te olha... Não é normal. É possessivo. Eu só queria que alguém olhasse para mim daquele jeito.
— Até parece, Lexy. Você tem o mundo a seus pés, qualquer um faria qualquer coisa por você. — resmungou Trish.
— Não começa com aquela história de que...
— É a verdade. E você sabe.
— Não estávamos falando disso. — desconversou Allexya, o tom endurecendo ligeiramente.
— Não sei porquê você sempre foge desse assunto.
— Porque não tem razão para falar sobre. E eu não fujo, apenas evito o óbvio.
— Tudo bem. — Trish suspirou.
As duas se sentaram em um dos bacos vagos, a madeira fria sob elas.
— No que está pensando? — Allexya pincelou o nariz dela com o indicador, forçando contato.
— Em tudo. Na minha mãe. No Sam. Em Jake.
— Especificamente?
— No "e agora?". No que vai acontecer quando eu tiver que voltar para Forks. Ou se eu não voltar.
— Você está com medo? — perguntou Allexya.
— Não é medo, é receio. Eu não tenho certeza do que quero. Se quero a segurança ou a liberdade.
— Independência. Não era isso que queria? Estar livre do drama?
— Sim, era. Mas não nessas condições. Não à custa de deixar Jake.
— Trish, eu sei que a morte da sua mãe te afetou bastante, você se fechou, e isso é normal. Mas você precisa tomar as rédeas da sua vida. Você tem escolhas agora, e se você precisar de ajuda, estou aqui para isso.
— Sim, eu sei.
De repente, Allexya calou-se, o olhar fixo. Seu semblante mudou, de leveza para surpresa e depois cautela.
Trish seguiu seu olhar e seu semblante de decepção foi inevitável: seu pai, Bruce O'Brien, vinha em sua direção.
Ele parecia mais velho, mais abatido. As rugas de preocupação ao redor dos olhos estavam mais profundas, e ele usava um terno de corte caro, mas amassado. Havia algo estranhamente frágil na postura de seu pai.
Entretanto, seu orgulho, a mágoa e os anos de ausência eram como um muro de tijolos que a impediam de correr até aquele homem.
— Vocês precisam conversar. Ele parece... diferente. — Allexya sussurrou, apertando a mão dela em apoio silencioso.
— Olá, meninas. — o timbre da voz dele estava irreconhecível, mais cansado e rouco do que ela se lembrava.
— Oi, senhor O'Brien. — Allexya respondeu com a cordialidade perfeita de sempre.
— Oi. — respondeu Trish, tão baixo que duvidou se alguém além dela havia ouvido.
— Allexya, você poderia nos dar licença? Eu preciso conversar um pouco a sós com minha filha. — pediu Bruce, a voz carregada de súplica.
— Lexy, por favor. — Trish segurou seu pulso com força, o pânico evidente.
A loira sorriu, compreendendo o pânico nos olhos de Trish, e beijou sua cabeça.
— Pandinha, vai ficar tudo bem. Ele só quer conversar. Eu estarei por perto. — sussurrou.
Trish aos poucos a soltou, a relutância visível. Bruce se sentou do seu lado. Ela prendeu a respiração, sentindo o peso da presença dele.
— Eu só queria que tudo fosse diferente, filha. — ele começou, a voz baixa.
— Mas não fez nada a respeito por anos. — respondeu ela, o tom frio e seco, a mágoa a protegendo.
— Eu entendo o seu rancor, porém, apesar de você querer me expulsar de sua vida agora, saiba que eu vou continuar existindo. Eu não vou desistir de você.
Ela soltou um riso de escárnio, encarando as pessoas que passavam.
— Não começa com esse assunto. Você e ela nunca se importaram. Por que eu tenho que fazer isso agora?
— Querida, eu não tive culpa do que...
Trish riu, enxugando uma lágrima traiçoeira no canto do olho.
— Bruce, eu não tenho nada para falar com você. O assunto está encerrado.
— Me perdoe, filha. — ele implorou.
— Perdão?! — inquiru, angustiada.
— Eu quero mudar as coisas entre a gente.
— É um pouco tarde, não acha? Eu fiz 18 anos hoje. — retrucou ela.
Bruce suspirou pesadamente.
— Talvez tenha sido um erro ter vindo aqui. — disse ela, pronta para se levantar.
— Feliz aniversário! — ele engajou, se levantando abruptamente.
Trish parou, mas não se virou para olhá-lo.
— É sempre bom te ver, filha. Saber que você está bem. Que Sam está...
Ela virou-se para encará-lo, a fúria pulsando.
— Que Sam está fazendo por mim aquilo que você não se importou em fazer?! — bradou ela num rompante, a voz embargada. — Não abra sua boca para falar de Sam. Você não tem moral algum para falar dele.
Bruce reprimiu o que sentia, franziu os lábios e deixou um objeto sobre o banco.
— Comprei isto para você. — ele disse, apontando para a pequena caixa quadrada de veludo, escura e pesada. — Mas talvez não queira.
E assim, seu pai lhe deu as costas, como todas as outras vezes, e foi embora.
Ela o encarou se afastar, o corpo tenso. "Boa covarde, Trish. Você acabou de afastá-lo para sempre." — resmungou consigo mesma.
A caixa preta de veludo encantava seus olhos e atiçava sua curiosidade. Aos poucos ela se aproximou do objeto, sentou-se, passou os dedos por suas extremidades e abriu.
Diante de seus olhos, uma gargantilha de prata, fina e delicada, reluziu.
As lágrimas brotaram em seus olhos e ela não as proibiu de caírem. Havia um bilhete manuscrito, dobrado perfeitamente sob o veludo.
"Amplie seus horizontes, enfrente seus medos e os desafie. Você tem tudo para conquistar a vida que merece. Perdoe-me por nunca ter lhe dado aquilo que sempre quis, o que era minha obrigação lhe dar. Falhei como pai, falhei como amigo, falhei como qualquer ser humano... simplesmente falhei."
"Feliz aniversário, filha. Seja feliz."
VOCÊ ESTÁ LENDO
PERPÉTUA - JACOB BLACK
WerewolfA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
