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 Aquela seria a primeira fogueira depois de tanto tempo. Havia deveras rostos novos ao redor dela, enquanto as chamas bailavam, lançando sombras longas e fantásticas sobre a areia escura e úmida. O ar estava saturado com o cheiro de pinho queimado e sal marinho. O vento noturno soprava suavemente, cantando sobre as copas das árvores em sintonia com o canto melancólico dos pássaros. Era possível ouvir os trovões ecoarem pela imensidão escura e densa da floresta rumo à cidade, mas ali, no círculo de calor, a sensação era de isolamento e segurança ancestral.

O velho Quil Ateara seria quem comandaria as histórias a serem contadas por aquela noite, pois Billy se ausentaria pois não se sentia bem o suficiente para tanto falatório. Quil não era tão bom quanto Billy para contar as lendas de uma maneira que os fizessem ficar compenetrados e sentirem o medo arrepiar suas espinhas — ele carecia da gravidade e da voz de trovão do chefe —, mas ainda assim era empolgante ouvi-lo. Ele misturava a solenidade da lenda Quileute com um humor travesso.

Trish observou as mínimas reações que as histórias estavam causando em seus amigos: Brandon parecia cético, mas hipnotizado pelo fogo e pelo medo de ser chamado a atenção; Allexya estava tensa, olhando ao redor a cada menção a "demônios frios", agarrando o casaco para se proteger do vento gélido.

Os olhos de Trish se firmaram em algo convidativamente curioso. Sentadas à sua frente, do outro lado da fogueira, estava Leah Clearwater sussurrando algo para Nikki, que a fez sorrir calorosamente. Elas pareciam bem próximas, os joelhos quase se tocando, e a luz das chamas dançava nos cabelos escuros de ambas.

Talvez Nikki tivesse obtido sucesso em suas investidas mais rápido do que Paul havia previsto. Trish nunca havia visto aquele sorriso nos lábios da quileute. Ele não era um sorriso de escárnio ou aborrecimento; era relaxado, quase jovial, e acendia uma beleza reservada em Leah. Em tão pouco tempo, a Uley nunca havia visto tantas palavras saírem dos lábios da Clearwater e tampouco ela parecia se importar com a proximidade da forasteira, parecendo absorver a atenção de Nikki como um bálsamo.

Leah estava visivelmente mais feliz e relaxada, e não era só Trish que havia percebido aquilo.

Sue Clearwater, sentada um pouco mais atrás, os olhava de relance, como se nitidamente se sentisse ofendida. A repulsa se contorcia em seu rosto, uma expressão de julgamento maternal. Trish nunca entendeu Sue. Parecia que a mulher estava o tempo todo torcendo contra a própria felicidade da filha, incapaz de aceitar que Leah pudesse encontrar paz fora das expectativas da reserva. Talvez ainda fosse pelo fator Samuel Uley, era nítido que para a senhora Clearwater ninguém seria bom o suficiente para Leah.

— Pandinha? — Trish se virou para a loira ao seu lado, Allexya, que estava roendo a unha. — Essas histórias são mesmo reais? Os lobos e os frios?

— O quê você acha? — intrometeu-se Paul, sentado próximo a elas, a voz grave e provocadora. Ele estava visivelmente entediado com a história e ansioso por um confronto.

A loira fuzilou Paul com os olhos, antes de dar-lhe uma resposta.

— Eu não te perguntei nada. — O quileute sorriu diante de seu rompante. Ele adorava desafiá-la, sabia o quão desconfortável e nervosa a deixava, e ele podia sentir o aumento sutil da adrenalina dela.

— Mas eu te perguntei — debateu, piscando lentamente.

Allexya revirou os olhos.

— Por que você não fica na tua, cara? — interveio Brandon, percebendo que a loira estava ficando vermelha. Ele, ao menos, defendia a prima.

Paul o encarou a tempo de não virar-lhe um soco na cara, a paciência quase esgotada.

— E por que você não dá no pé, playba? 

Brandon encarou Paul com os olhos e punhos apertados, sentindo o nó maldito fechar sua garganta. Sua vontade era poder quebrar aquela cara de cafajeste sem culpa alguma, mas o senso de autopreservação era maior. O Lahote tinha dez vezes seu tamanho, era uma muralha de músculos quileute.

— Vá se ferrar! — foi tudo que conseguiu responder. O fracasso na defesa da amiga o deixou ainda mais envergonhado.

Trish não pôde deixar de notar a ausência de Rachel naquela roda, um fato que a aliviava e a perturbava na mesma medida. Enquanto isso, Rebecca se fazia presente, sentada entre Emily e Jacob, conversando animadamente com a Uley mais velha.

No meio da fogueira, vendo Quil Ateara gaguejar uma lenda sobre uma batalha quileute ancestral, Trish sentiu uma onda de cansaço. A adrenalina do dia, as dúvidas, o estresse familiar. Dane-se se tudo estivesse indo rápido demais; casar com Jacob era a única coisa que ainda estava fazendo sentido desde a morte de sua mãe.

— Está tudo bem, Green? — Jacob perguntou, a voz baixa e rouca, o calor de sua mão procurando a dela. Ele sentia a frequência de sua ansiedade.

Trish se questionava o porquê das pessoas ainda se aterem àquela pergunta, se sabiam perfeitamente sua resposta. Porém, era Jacob quem estava ali lhe perguntando. E a forma com a qual ele a olhava, com aquela ansiedade silenciosa, a fez repensar suas dúvidas.

— Rachel não veio — ela disse, como se a ausência fosse um presságio, uma confirmação silenciosa de desaprovação.

Ele soltou o ar e segurou sua mão, acariciando os nós de seus dedos.

— Isso é drama de Rachel, não ligue. Ela só está com ciúmes. Olha só o Paul, até ele não se importa.

Todavia, Paul era uma exceção. Jacob, como irmão, deveria se preocupar mais. E se Rachel estivesse certa? E se fosse um sinal dos deuses que o Black não estivesse vendo? Ela já havia causado tanto estrago na vida de quem a cercavam. Não seria diferente por ser Jacob... seria? Pensar em tudo aquilo a deixava nostálgica e ansiosa.

— Quer voltar para casa? — O sussurro de Jacob contra seu pescoço lhe causou um longo calafrio. Ele sentiu a tensão em seus ombros.

Seu suspiro profundo mostrou que de fato estava cansada. Além de um merecido banho para tirar o cheiro de fumaça, ela precisava de uma cama e da certeza de que ele estava ali, inabalável.

— Sim, podemos ir — respondeu.

Os dois se levantaram de mansinho, acenando discretamente para Emily e Rebeca. No momento em que Jacob passou pela luz bruxuleante da fogueira, ele olhou para Leah e Nikki, elas estavam agora em silêncio, mas os olhares estavam conectados, e Leah sorria discretamente para algo que Nikki havia dito.

 Jacob balançou a cabeça com um sorriso de escárnio.

— Aposto cinquenta dólares que a Nikki sai vitoriosa — ele murmurou no ouvido de Trish.

Trish riu, sentindo o peso do mundo se aliviar quando ele a abraçou de lado.

— Aposte o dobro, meu amor. Aquela mulher é implacável.

E assim, eles se afastaram da fogueira, deixando o calor das histórias e das novas conquistas para trás, e seguiram para a casa de Sam.

PERPÉTUA - JACOB BLACKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora