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 Um minuto depois que Trish pronunciou a frase, a porta da frente se abriu com um estrondo desnecessário. O ruído fez todos na mesa sobressaltarem-se.

— Família reunida. Parece que cheguei a tempo do segundo ato. Espero que não seja uma tragédia. — gracejou Gordon O'Brien, o irmão mais velho, entrando na sala com a arrogância de quem é dono do lugar. Ele vestia um terno Armani cinza impecável, a gravata de seda azul marinho e um relógio que cintilava sob a luz da sala.

— Ei, engraçadinho. — Trish o interceptou com um abraço rápido e forçado, sentindo a rigidez do corpo dele.

— Que saudade eu estava de você, maninha. Está linda. — Gordon a segurou firmemente.

A garota encarou a esposa do irmão, Cynthia, uma mulher loira e esbelta, e forçou um sorriso esnobe.

— Olá, loi... — ela calou-se após o beliscão discreto e doloroso de Gordon em sua costela, um aviso para manter a compostura.

— Obrigada por me convidar, Trish. A casa está agradável e o cheiro é delicioso. — disse Cynthia, com um sorriso plastificado.

Trish revirou os olhos, mas controlou o impulso de responder.

— Se poupe. Entrem.

O clima parecia artificialmente leve enquanto Green e Jacob os guiavam para a sala de jantar. O cheiro de carne assada com ervas (cortesia de Jacob) pairava no ar, disfarçando a tensão que se acumulava como uma nuvem de tempestade.

Os risos e gracejos de Jacob, forçados e um pouco altos demais, tentavam manter a leveza. O assunto em pauta era sobre a formatura de Trish nos próximos dois dias e a razão pela qual ela não queria nada muito festivo, já que queria a presença de todos seus amigos da reserva.

Gordon contorceu o nariz, em um gesto de nojo. Selvagens. Não faziam nem oito meses que ela estava na reserva, e aqueles nativos eram, de repente, sua "família".

— É inadmissível que você queira celebrar seu diploma de prestígio com... com nativos, Trish. É a sua formatura. — Gordon comentou, a voz baixa, mas venenosa.

— Eles são minha família, Gordon. Mais que você ultimamente. — Trish rebateu, a faísca em seus olhos.

Bruce pigarreou, tentando intervir.

 — Gordon, pare.

Gordon se calou, mas sabia que havia algo mais. O jantar não era sobre formatura.

— Vem cá, alguém explica o que está rolando aqui? Por que esse clima de anúncio de Estado? — Gordon inquiriu, batendo o talher na mesa com força, cansado do teatro.

Todos se entreolharam. Jacob segurou a mão de seu imprinting sob a mesa, entrelaçando seus dedos, oferecendo um calor silencioso e força.

Trish fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo, tentando superar o nó sufocante em sua garganta. Ela olhou para Jacob, que assentiu com a cabeça.

— Eu estou grávida. — Ela abriu os olhos, observando a reação de cada um.

O silêncio foi absoluto e doloroso. Leila parou de mastigar. Bruce congelou com o copo na mão. Cynthia cobriu a boca com a mão.

Gordon soltou um riso curto, de escárnio puro e decepção. O som era seco.

Grávida... — ele exalou. O desgosto era palpável, pairando sobre a mesa como um miasma frio.

Ele esperou pela reação de seu pai, mas Bruce apenas encarava a filha, os olhos perdidos.

— Isso é bastante desagradável, Trish, porque vocês nem se casaram ainda. Você deveria entrar na Universidade no próximo ano. E agora? Acha que vai criar um filho no meio do lodo e da selva?

Bruce pigarreou, tentando encontrar a voz.

— Gordon, controle-se.

— Estou errado? — Gordon confrontou o pai, inclinando-se para a frente, o punho cerrado sobre o linho da toalha. — Você não está decepcionado também?

— Você também vai ter um filho, Gordon. — comparou Bruce.

— Somos diferentes, pai! Eu posso dar uma dignidade para minha filha. Eu tenho dinheiro e um sobrenome respeitável! Eu tenho um plano!

— Está dizendo que eu não... — interveio Trish, a voz embargada pela mágoa.

— Olha, Green, talvez tenha sido mesmo um erro tê-la mandado para aquela reserva cheia de... de primitivos. Que tipo de exemplo é esse? Você vai arrastar nossa família para a lama!

— Cuidado com a boca, Gordon. — Jacob rosnou. Sua cadeira rangeu, sinalizando o limite de sua paciência.

— Cuidado com o quê? — Gordon confrontou-o, virando-se para Jacob com o desprezo escorrendo de cada palavra. — Vai me dizer que você vai poder manter a vida que Trish está acostumada? O que você tem a oferecer a ela, a não ser viver como um selvagem em uma cabana de madeira? Vai trocar a vida dela por uma fogueira e caldo de marisco?

Jacob sentiu seus músculos do pescoço tensionarem, o calor do lobo subindo por sua pele. Ele estava prestes a explodir.

— Gordon! Chega! — alterou-se Bruce, a voz alta e autoritária, batendo o punho na mesa.

Gordon se levantou abruptamente, a cadeira caindo no chão.

— Esse jantar pra mim já deu! — grunhiu.

— Saiba que você está enganado, Gordon. — Jacob levantou-se também, parecendo um paredão, a voz baixa, mas profunda. — Eu posso não ter um diploma preso à parede, mas aquilo é só a merda de um papel. Eu sou mais homem que você. Green sequer te convidaria, mas eu insisti, porque achei que você se importaria.

— Você não sabe de nada, garoto! Você não é nada! Você vai arruinar a vida dela!

— E o muito que você sabe tem afetado seu raciocínio. Você só pensa em status. — rebateu Black, a voz vibrando de controle forçado.

— Acho melhor você calar essa boca!

Jacob deu um passo para a frente.

— Por quê não vem calar? Estou esperando!

Cynthia, pálida, segurou o braço de Gordon.

— Gordon, vamos embora!

— A voz da razão falando com você. — disse Jacob, com escárnio.

— Você já estragou a noite da sua irmã, quer mais o quê? — Leila, em um momento inesperado de apoio a Trish, interveio, os olhos fixos em Gordon. — Por quê não pega sua mulher, o pingo de dignidade que lhe resta e dá o fora?

— Bem que a mamãe dizia que vocês iam arruinar no... — Gordon sequer pôde terminar, sentindo o líquido gelado escorrer por seu rosto. Bruce havia atirado o copo de água, de cristal fino, na cara do filho.

— Suma desta casa! Agora! — determinou Bruce, o rosto vermelho de fúria e decepção. Ele foi contido por Trish, que segurava seu braço, e Leila, que verificava o punho do marido, após desferi-lhe um belo soco.

O bater violento da porta fez Trish pular. Jacob se aproximou com cautela e segurou seu rosto.

— Você está bem?

Ela assentiu, com as lágrimas escorrendo.

— Estou. Não se preocupe.

Jacob lhe deu um beijo na testa e a puxou para um abraço.

— Eu vou dar uma volta por aí. Preciso esfriar a cabeça. Volto logo.

— Tá legal. — disse ela, dando-lhe um beijo na bochecha.

Trish foi até a cozinha em busca de gelo para o punho do pai.

— Foi essa a educação que destes a seu filho? — Trish escutou Leila questionar Bruce.

— Desculpe, pai. — Trish sentou-se ao seu lado no sofá, estendendo-lhe a compressa. — Eu não sabia que ele iria reagir assim.

— Seu irmão passou dos limites. — disse Leila.

Bruce sorriu, estendeu a mão livre e afastou a mecha de cabelo do rosto da filha.

— Em todo caso, estou feliz por você estar esperando um bebê, querida. Isso não muda nada. Ter um neto é... uma chance.

PERPÉTUA - JACOB BLACKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora