As lembranças ainda tragavam o interior da casa. O mármore frio do hall refletia a pouca luz da tarde, parecendo engolir qualquer calor que eles trouxessem.
— Eu ficava ali naquele canto escondida, esperando pela hora dela entrar e eu poder correr até ela e perdurar-me em seu corpo, chamando sua atenção. — disse Trish, apontando para uma das colunas enormes que ficava próximo à porta de entrada. A coluna era revestida em madeira escura, imponente e solitária. — Ela sempre chegava falando ao telefone, beijava minha cabeça sem muito se importar e seguia para o quarto.
Trish ficou paralisada por um tempo, admirando o cômodo que se destacava no alto da escadaria: o quarto principal. Suas imensas paredes de vidros eram revestidas internamente por cortinas de seda pesada, mantendo a privacidade. Pelo tamanho e pelo deslumbre, aquele deveria ter sido o quarto do casal pelo tempo em que viveram ali, um santuário de vaidade e conflito.
Ela saiu do transe e andou pela vasta sala de estar, parando diante da lareira, que Jacob achou moderna demais. Era um design limpo e minimalista, muito diferente das rústicas lareiras que ele só havia visto em filmes e séries.
— Ela adorava se sentar naquela poltrona — Trish apontou para um móvel de couro que parecia intocado — e beber vinho. Mesmo em casa, estava sempre linda, cheirosa... Eu adorava vê-la se emperiquitando em frente ao espelho, vestindo aquelas calças caqui, fossem elas quais cores fossem, uma blusa social, salto alto... Uma corretora de mão cheia...
Apesar de todas as turbulências vividas, Green, mesmo que superficialmente, sentia orgulho da mãe. Era um orgulho por aquela força, por aquela fachada inabalável.
— Eu deveria ter percebido que era uma despedida pra valer. Ela não estava a mesma mulher vaidosa de antes quando veio me ver, ela estava... apagada. Eu deveria ter notado que era a doença a levando. Eu deveria ter notado...
— A culpa não foi sua, Green. Ninguém te deu as informações. — murmurou Jacob, aproximando-se por trás e envolvendo-a completamente em um abraço protetor. O cheiro de grama e floresta dele era um contraste bem-vindo ao ar empoeirado da casa vazia.
— Tem razão, não foi.
— A casa é bem grande... — observou Jacob, com ela ainda presa em seus braços. Ele olhava ao redor, avaliando o custo e a solidão do espaço. — Pretende vir morar aqui algum dia?
— Talvez. É muita casa para uma pessoa só. — respondeu ela, a palavra solidão ecoando nas paredes.
A garota se soltou e seguiu para outro cômodo, uma copa enorme que se abria para a área externa. Jacob a acompanhou, sentindo a diferença na atmosfera daquele espaço mais funcional.
A geladeira de inox espelhada era gigante e brilhava, e Jacob a namorou por alguns segundos. Por um momento, ele se imaginou instalando ali um suprimento digno para um lobisomem.
Trish permaneceu encarando o reflexo dançante da água da piscina através da porta de vidro. Flashes das festas que seu pai dava com os sócios de seu escritório, as mulheres com roupas curtas, as risadas altas e as brigas feias que vinham logo em seguida, vieram em sua mente. Era tudo fachada.
— Temos que ir agora, Green. Está ficando tarde.
Ela assentiu, finalmente. Eles seguiram para fora da casa. A garota parou mais uma vez para uma última olhada na fachada, respirando fundo, como se quisesse memorizar o cheiro de abandono misturado a jasmim.
Em breve, elas se veriam novamente.
O trajeto de volta foi silencioso, exceto pelo atrito da chuva fina que havia começado a cair contra a lataria do carro.
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PERPÉTUA - JACOB BLACK
Loup-garouA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
