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  O calor da fogueira era intenso contra o ar frio da noite. Trish estava sentada em um tronco derrubado, sentindo o calor das chamas no rosto, enquanto o vento úmido trazia o cheiro de sal e pinho. O momento que a fez enclausurar-se em si mesma não foi quando Billy Black começou a narrar, mas sim quando ele descreveu os "homens de pele de lobo" e, em seguida, os "frios", os parasitas pálidos. A fogueira não parecia mais uma festa; parecia um círculo de aviso.

— Que lance foi esse? — questionou, embasbacada, o sussurro quase inaudível. — Lobisomens, frios...

Jacob, sentado ao lado, atirou um pedaço de galho seco na fogueira.

 — Histórias de nossos antepassados. São apenas lendas que contamos para manter a tradição. Ou seja, lendas.

— Lendas. — ela repetiu, ensimesmada, o som da palavra vazio de convicção. A tensão em seus ombros era palpável.

Jacob percebeu a mudança em seu humor.

 — Quer ir para casa?

— Sam disse que eu posso ficar mais um pouco. — respondeu, mas já estava se levantando. O burburinho e o calor súbito a estavam sufocando.

Jacob assentiu, a deixou sozinha por alguns instantes, mas a seguiu com os olhos enquanto ela se afastava da multidão.

Trish convenceu o Black de que retornaria para casa sozinha, mesmo ele duvidando de que seria uma boa ideia deixá-la ir.

Ela decidiu voltar andando e sozinha porque queria ficar um momento consigo mesma, com seus demônios internos. A escuridão da trilha a abraçava, e ela ouvia o farfalhar das folhas ao vento, o canto noturno dos pássaros e os galhos secos serem quebrados por seus pés.

Até que um calafrio ao ouvir um uivo gutural a poucos quilômetros de onde estava percorreu sua espinha numa frequência alarmante.

É só um coiote. Ela tentou se convencer, forçando os passos. Ela não era mais uma garotinha amedrontada que corria para se esconder debaixo da cama.

Mas então, rosnados rasgantes ecoaram a seu redor, graves e metálicos, semelhantes a animais se enfrentando. O cheiro de animal selvagem e terra se intensificou no ar frio.

Eles não iriam atacá-la. Ela estava segura. Seus pais não a mandariam para um lugar perigoso, não é? — O último pensamento a atingiu com a força de um soco. Mas se for pelo fato da preocupação de seus pais ser a nível zero, ela não tinha garantias de nada.

O som de galhos enormes quebrando e os rosnados cada vez mais perto a fizeram soltar um grito. Suas pernas bambearam, mas o pânico as impulsionou. Seus batimentos aceleraram. 

 Não era hora de morrer.

O vulto de um animal de pelagem escura, maior que um cavalo, passou a seu redor com passadas bruscas e violentas, fazendo o chão tremer e jogando terra para o lado. Ela estremeceu, virou-se e começou a correr na direção oposta, o ar cortando seus pulmões.

Maldita a hora que se desfez da companhia de Jacob. Se ele estava tão disposto a levá-la, era justamente para evitar transtornos como aquele.

Trish entrou em casa, desesperada, batendo a porta e trancando-a atrás de si com um baque surdo.

— Sam! — gritou, ofegante, as costas pressionadas contra a madeira fria. — Sam!

Ela ouviu Sam descer a escada, alarmado, o rosto tenso. 

 — O quê foi?

Trish se endireitou, a respiração pesada.

 — O que aconteceu com aquele "não existem segredos por aqui"?! — inqueriu num rompante.

PERPÉTUA - JACOB BLACKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora