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 Ele esperou Trish abrir a porta e sair da sua frente, relutante, para que entrasse na casa.

Ela resmungou alguma coisa sobre o peso das bolsas, que ele não se deu ao trabalho de ouvir, absorvido pela atmosfera do lugar. A imensidão e o vazio daquela casa o incomodavam de uma forma insana, contrastando brutalmente com o calor e a confusão familiar da reserva. O piso de mármore refletia a luz do sol poente, e o silêncio parecia amplificar a própria solidão do ambiente.

— Pode ligar a TV, se quiser. Tem internet e um monte de canais a cabo. — informou ela, a voz ecoando levemente no hall.

Jacob encarou a tela plana fixada na parede, que era dez vezes maior que a que tinha em casa, se é que a dele podia ser chamada de tela plana. Ele olhou para aquilo com absoluto desgosto, um desprezo cultural instintivo. Se ele ao menos soubesse onde ligava aquela porcaria ou quisesse aprender. Era exatamente por isso que ele odiava o estilo de vida dos ricaços, sempre optando por coisas anormais e desnecessariamente complicadas.

— Estou legal. Prefiro ficar aqui. — ele respondeu brevemente, sem se mover do lugar onde estava.

Ele pôde ouvir o bufar exasperado da garota e teve certeza de que ela havia revirado os olhos, antes de subir a imensa escada em espiral, os degraus de madeira escura rangendo levemente sob seus pés.

Para quê tanto luxo? Para quê tanto espaço? Para quê tantos móveis?

Ele se perguntava se toda aquela ostentação servia apenas para mascarar o fato de que o essencial nunca coube de fato ali. A desunião, a infelicidade, a injustiça e a infidelidade gritavam em cada canto daquela casa, como fantasmas silenciosos. Era absurda a forma como aquela casa era solitária, fria. Jacob não conseguia imaginá-la vivendo ali sozinha depois de tudo.

O lobo dentro dele tentou buscar no fundo de sua mente argumentos necessários para estar se afastando de Green e mantendo o silêncio — não havia nenhum que resistisse ao beijo. Era uma injustiça sem igual a que eles estavam fazendo um com o outro, prolongando aquela agonia. Parar de se falar por causa de um beijo? Tudo bem, mas... foi um beijo cheio de eletricidade, de sinceridade, que quebrou todas as regras não ditas.

Ele ouviu o barulho de água no andar de cima. Um banho rápido.

Quando ela voltou, descendo os degraus, sua fragrância de sabonete floral e shampoo inundou todo o primeiro andar da casa. Jacob sequer limitou-se a virar-se para trás para vê-la. Ele não precisava olhar, sabia que ela estaria perfeita de todas as formas, provavelmente vestindo algo apertado e elegante, pronta para a noite.

— O táxi chegou. — sua voz sedosa e um pouco mais animada chegou aos ouvidos do lobo, que se afastou da sacada e andou na direção da porta.

Ele não fazia ideia de para onde iriam, sabia apenas que era um encontro com seus velhos amigos de Stanford. Ele não queria estar naquele carro e muito menos se envolvendo na agitação da cidade grande, mas por respeito à matilha e a Sam, o fez. Ele estava ali como um guarda-costas involuntário.

 O táxi os deixou em frente a um clube ou bar que parecia ter transbordado para a rua. O som grave e pulsante da música eletrônica fazia seu tímpano zunir numa frequência enlouquecedora, forçando-o a se concentrar em não se irritar.

Então era disso que ela gostava? Som alto, abafado? Drogas? Pessoas se pegando nos cantos escuros? Bebidas alcoólicas sendo distribuídas para pessoas que na certa estavam ali usufruindo de identidades falsas? A fumaça, densa e doce, que inundava todo aquele ambiente irritava suas retinas e o fazia querer rosnar.

Para Jacob, aquilo não passava de uma rave desorganizada, organizada por uma subespécie de gente rica e entediada no cio.

Ele a seguia, desviando das pessoas que dançavam descontroladamente. Trish, ao contrário, parecia à vontade. Ela era cumprimentada de minuto a minuto por pessoas que sequer o notavam, recebendo acenos e abraços enquanto guiava Jacob para o meio da multidão. Ele se sentia como um gigante fora d'água, um erro de cálculo genético naquele lugar.

Foi questão de segundos para Jacob sentir o impacto do corpo de Trish no seu, empurrada por um abraço abrupto. A garota havia sido agarrada por uma morena de cachos volumosos e cheia de energia, garota essa que o Black detectou imediatamente como sendo Nikki.

— Jake! — gritou ela, a voz fina e alta, assim que seus olhos caíram sobre ele, ultrapassando o volume da música.

— Oi, Nikki. — Jacob sorriu timidamente, um sorriso raro, enquanto era abraçado calorosamente pela garota que cheirava a perfume forte e cereja.

— Uau! Você é mais gato pessoalmente do que nas fotos que Trish nos mostrava. — vibrou, sorridente, examinando-o com uma intensidade que o fez querer se afastar educadamente.

Quando Jacob conseguiu se livrar da doideira de Nikki, pôde ver Allexya aos risos com Trish, a loira parecendo um raio de sol em meio à escuridão do bar. A cena, Trish relaxada, sorrindo de forma genuína, fez seu coração pulsar mais rápido, ignorando o barulho ao redor.

— Jake! — a loira enfim o notou, um brilho de entusiasmo em seus olhos. Ela saiu de perto de Trish, vindo em sua direção para abraçá-lo com a mesma efusão da amiga.

— Oi, Alex. É bom finalmente conhecer você.

A simpatia sincera e o calor de Allexya o atiçavam a ponto de ele não conseguir conter o sorriso. Pela primeira vez desde que pisara em Stanford, Jacob sentiu que talvez aquela noite não fosse um completo desastre.

PERPÉTUA - JACOB BLACKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora