O som da raiva e do desapontamento de Jacob se esvaindo na multidão fez Trish sentir um frio que nada tinha a ver com a temperatura do clube. Ela precisava ir atrás dele.
— Ei, gata, deixa ele ir. Que clima é esse? — o hálito etílico de Brandon, misturado a vodca e menta, pairou perto demais de seu rosto, tentando envolvê-la novamente, o toque possessivo a desnorteando completamente.
Trish não viu a hora exata em que seu corpo reagiu por conta própria. Ela girou o corpo e deu um soco limpo e forte na lateral do rosto de Brandon, na altura da mandíbula. O som do golpe foi abafado pela música, mas o loiro cambaleou, soltando-a, a expressão de surpresa misturada à dor.
— Nunca mais faça isso, Brandon. Não sou sua. — sibilou ela, ignorando a ardência em seus próprios nós dos dedos.
Jacob não parava. O idiota era rápido o bastante para ela não mais conseguir alcançá-lo. Ele já estava perto da saída, movendo-se com a velocidade da matilha.
Trish não queria se sentir culpada, mas sua mente não fazia outra coisa a não ser culpá-la. Culpá-la pelo timing péssimo, pela imprudência de beijar Brandon, pela fraqueza de ter cedido ao conforto familiar dele. Ela fez um esforço para controlar a respiração e a raiva de si mesma, indo até o bar, onde Allexya estava. Ela pegou seu drink esquecido e o bebeu de uma só vez, o líquido doce e forte queimando sua garganta.
— Pandinha, o quê houve? Você está vermelha. — a preocupação imediata irradiou dos olhos de Allexya. — Cadê o Jake? Por que ele saiu daquele jeito?
— Ele foi embora. E não volta mais.
— Embora?! — Allexya inquiriu, confusa, o grito quase inaudível. — Por quê? Ele estava estranho a noite toda, mas por quê ir embora?
Trish arfou, passando a mão na testa.
— Ele viu o idiota do Brandon me beijando.
— Ah, merda. — a loira chiou, enciumada pelo Brandon e frustrada pela situação. — Merda tripla. Ele deve ter pensado...
— Eu sei o que ele pensou! E eu preciso achá-lo, Alex. Ele está sozinho e chateado, e eu não posso deixá-lo vagando por Stanford.
— Claro que não. — Allexya pegou no bolso do casaco três notas de cinquenta dólares amassadas e as atirou sobre o balcão. — Eu dirijo.
— O quê rolou com o bonitinho? Por que ele está com a mão no rosto? — perguntou Nikki, que se aproximou, com o olhar ligeiramente desfocado.
Trish se perguntou se a amiga estava enxergando alguma coisa de fato, mas chegou à conclusão de que ela estava quase impossibilitada de ter uma visão nítida.
— Ele me viu beijando o Brandon. — a Uley respondeu, chateada com a situação, não com o ato em si.
— Trish, sua danada! Finalmente agindo como uma solteira! — o teor alcoólico de Nikki estava tão alterado quanto a mesma, e ela tentou dar um abraço de urso em Trish.
— Não começa, Nikki! Agora não é hora. — reclamou Allexya, puxando-a pelo pulso. — Vamos, eu tô de carro. A gente resolve a fada bêbada no caminho.
As três seguiram para fora da boate. A chuva forte as impediu de enxergar um palmo diante de seus narizes, uma tempestade súbita e violenta. Elas apenas correram para a vaga onde o carro estava e se abrigaram no mesmo, frustradas.
Já se passavam da meia-noite e Jacob ainda não havia dado as caras na casa. Nikki acabou dormindo profundamente no sofá de couro da sala, e Allexya optou por levá-la para casa, voltando logo em seguida, mas sob a condição de Trish lhe dar notícias sobre o paradeiro do Black. A loira sabia que se algo acontecesse com ele, Sam a mataria.
Trish andava de um lado para o outro na sala gigantesca, o coração batendo descompassado. Maldita hora em que Brandon escolheu para beijá-la. Bendita hora que Jacob escolheu para fazer cena e correr para longe.
E se ele houvesse voltado para Forks transformado, sob a chuva, sem ela? O quê diria a Sam? Seu peito apertou. Se bem que Jacob não tinha nenhuma responsabilidade sobre ela, legalmente falando. O imprinting não era um contrato. Ela parou, repreendendo-se.
Eu sempre arruinando tudo.
Sua chama para rupturas emocionais chegava a ser impressionante. O histórico falava por si.
Nem o calor da lareira, acesa timidamente no canto, conseguia mantê-la aquecida. Sua inquietude trazia diversos tipos de pensamentos sombrios, um deles era o estado em que Jacob poderia estar. Ela nunca se perdoaria se algo de ruim acontecesse com ele por causa de sua impulsividade. Tudo bem que ele se transformava em um maldito, enorme e lindo lobo marrom, que metia medo em qualquer outro animal selvagem, mas ele poderia ter se metido em roubada com a polícia ou com algum valentão humano.
Para piorar seu estado de preocupação, começou a chover absurdamente, o céu desabando sobre Stanford inteira, trovões ecoando pela cidade.
O bater da porta a orientou para a entrada de alguém. Trish nunca se considerou religiosa o bastante, mas nesse momento passou a ser, orando para que fosse ele.
Quando seus olhos recaíram sobre Jacob, parado na soleira da porta, completamente encharcado, o coração reprimiu em seu peito e depois disparou.
O garoto estava fora de si. Seus ombros estavam tensos, sua camisa branca grudada no corpo revelava a musculatura delineada, mas seus olhos não tinham o mesmo brilho quente de antes. Havia decepção, ressentimento e uma frieza cortante irradiando deles.
Os dois permaneceram se olhando por longos segundos, o som da chuva e da respiração pesada de Jacob preenchendo o ar, até o desconforto chegar e tomar conta, forçando Trish a quebrar o silêncio.
— Quer comer alguma coisa? Tem sanduíche ou posso preparar algo quente. Você está morrendo de frio. — ela preocupou-se em perguntar, dando um passo à frente, a voz suave, tentando quebrar a muralha que ele havia erguido.
Jacob sequer limitou-se a olhá-la para uma resposta crível, sua atenção estava fixada em um ponto vago na parede.
— Não, valeu. Não estou com fome. — respondeu, brevemente, a voz rouca, atirando-se no sofá de couro sem se importar em molhá-lo.
Trish bufou, a paciência se esgotando rapidamente, trocando a preocupação pela sua determinação habitual. Ela cruzou os braços sobre o peito. Ela não daria o braço a torcer e deixaria o assunto morrer em um silêncio hostil.
— Vai ficar sem falar comigo até quando, Jacob? Somos adultos. Se tem algo para dizer, diga agora.
Jacob riu com escárnio, um som amargo e seco que não chegou aos seus olhos. Ele se virou para ela, o corpo tenso, com a indiferença queimando em seus olhos.
— Por quê você faz isso, hein? Por que me puxa para algo que não está disposta a sustentar? — acusou ele, a voz ganhando volume.
— O quê exatamente eu fiz, além de te beijar e depois tentar te alcançar para explicar? Seja específico.
Ele se levantou e andou até ela, parando bem na sua frente, a proximidade arriscada, o cheiro de chuva e raiva tomando conta.
— Diz que sente o mesmo que eu, que me ama... mas noutro dia, antes que a gente possa respirar, já está atracada com o idiota do seu amigo, se beijando em um corredor escuro! O que você queria que eu pensasse? Que beijar o Brandon é só mais uma brincadeirinha entre amigos? — indagou incomodado, a fúria mal contida.
Trish sentiu seu rosto arder, como se de fato houvesse levado uma bifa na cara, não pelo que fez, mas pela forma injusta como ele a julgava.
— Me desculpe por ter te beijado ontem e não ter dito nada antes. Mas não foi... o que você está pensando. Eu nem pensei direito quando o Brandon...
— Quer saber, Trish? Não quero saber. Não estou a fim de ouvir suas desculpas sobre como "ele é só um amigo". Você tem mesmo é que ficar sozinha. É o que você consegue fazer de melhor. — chiou Jacob, o golpe atingindo o ponto mais sensível de Trish. Ele se virou, subindo as escadas apressadamente.
— Jacob! Não termine essa conversa virando as costas para mim! Você está agindo como uma criança! — ela bradou, correndo para o pé da escada, a raiva determinada superando a mágoa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
PERPÉTUA - JACOB BLACK
WerewolfA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
