Cléo narrando
Saí da casa ainda com o gosto da discussão no ar.
O sol já estava descendo atrás dos barracos do morro, pintando tudo de um laranja sujo. O tipo de fim de tarde que deixa o lugar inteiro com cara de filme antigo... bonito de longe, mas cheio de coisa feia de perto.
Caminhei devagar pela viela, ouvindo o som das caixas de som espalhadas pelas lajes, o cheiro de fritura vindo de algum bar e as crianças correndo no meio do caminho como se o mundo fosse só aquilo.
Eu precisava respirar.
E, principalmente, precisava pensar no próximo movimento.
A briga com a Liz tinha sido perfeita.
Eu já sabia que ela ia perder a cabeça. Sabia da fama da Liz. Gente assim é fácil de provocar.
E o melhor de tudo foi ver o Carioca mandando ela sair. Aquilo foi importante.
Muito importante.
Porque quando um homem começa a escolher um lado... o jogo começa a ficar interessante.
Desci mais duas vielas até chegar na vendinha do seu Antônio. Um lugar pequeno, cheio de prateleiras apertadas e cheiro de café velho misturado com pão quente.
Empurrei a porta de ferro que rangia sempre do mesmo jeito. E foi aí que eu vi:
Ellen.
Ela estava encostada no balcão, conversando com o dono da vendinha enquanto segurava uma garrafa de refrigerante. O cabelo preso num rabo alto.
Já tinha ouvido pelo morro que era a antiga marmita do Carioca. Por um segundo eu quase ri!
Que coincidência deliciosa.
Ela virou o rosto na minha direção e nossos olhos se encontraram, demorou menos de dois segundos para ela reconhecer.
Ellen arqueou uma sobrancelha, soltando um meio sorriso.
Ellen: Olha só... a dançarina que fisgou o coração do dono do morro.
Ela deu um gole no refrigerante antes de continuar.
Ellen: A patroa do morro resolveu descer do castelo? - riu.
Eu me aproximei do balcão com calma.
Cléo: Ainda chamam isso de castelo?
Ellen: Depende de quem está morando lá dentro.
Pedi um maço de cigarro para o seu Antônio e me encostei no balcão ao lado dela. O clima entre nós duas era curioso. Ellen já tinha dividido a cama com o Carioca mais de uma vez e todo mundo no morro sabia disso mas todo mundo também sabia que aquilo nunca tinha durado muito.
Ela me observou de cima a baixo, os olhos parando rapidamente na minha barriga.
Ellen: Então é verdade.
Acendi o cigarro antes de responder.
Cléo: O quê?
Ellen: A história do bebê.
Soltei a fumaça devagar.
Cléo: O morro já sabe?
Ellen: Amor... no morro a notícia corre mais rápido que mototáxi.
Ela se virou um pouco mais para mim.
Ellen: Então me conta.
Dei mais uma tragada no cigarro.
Cléo: Contar o quê?
Ellen: Se o Carioca está feliz!
Cléo: Ele está... processando.
Ellen: Aposto que a novinha adorou a novidade.
Ela nem precisou falar o nome e eu sabia exatamente de quem ela estava falando. Soltei mais fumaça.
Cléo: Algumas pessoas ainda não entenderam qual é o lugar delas na casa.
Ellen: Cuidado.
Cléo: Com o quê?
Ellen: O Carioca tem mania de se cansar rápido das coisas.
Eu virei o rosto para ela.
Cléo: Eu não sou "coisa".
Ellen: Todas nós já fomos em algum momento.
Cléo: Mas eu sou a mãe do filho dele!
O silêncio que ficou entre nós não era confortável. Ela colocou a garrafa no balcão e deu dois passos na direção da porta e antes de sair, parou e falou sem olhar para trás.
Ellen: Só um conselho, Cléo.
Eu esperei.
Ellen: Nesse morro, quem acha que já ganhou... normalmente é quem está prestes a perder.
Ela saiu. Fiquei olhando a porta balançando por alguns segundos e então sorri sozinha, pois a Ellen estava errada sobre uma coisa, eu não achava que já tinha ganhado, eu sabia que o jogo ainda estava começando.
E, sinceramente...
Eu adoro jogos difíceis.
Depois que eu saí daquela boate, ninguém mais me segura.
(...)
Fiquei alguns segundos olhando para a porta da vendinha depois que a Ellen saiu. A garrafa que ela tinha deixado no balcão ainda estava ali, suando no calor do fim de tarde.
Soltei mais uma tragada no cigarro e depois o apaguei no cinzeiro improvisado do balcão e peguei o maço.
Seu Antônio me olhava com aquele olhar curioso de quem sabe mais do que deveria.
Cléo: Quanto deu?
Ele falou o preço e eu deixei o dinheiro ali sem discutir.
Antes de sair, ouvi ele comentar baixo:
Antônio: Esse morro anda barulhento esses dias.
Eu sorri de lado.
Cléo: E vai ficar mais.
Empurrei a porta e voltei para a viela.
O céu já estava mais escuro agora. As primeiras luzes começavam a acender nas casas, e o som do morro mudava junto com a noite. Era nessa hora que as coisas realmente começavam a acontecer.
Caminhei devagar, pensando no que a Ellen tinha dito.
Subi mais uma viela e parei por um segundo para observar a vista lá de baixo. As luzes da cidade brilhavam longe, enquanto o morro continuava vivo atrás de mim.
Foi quando ouvi uma moto passando devagar.
Alemão... um dos homens do Carioca! Ele diminuiu a velocidade quando me viu.
Alemão: Cléo?.
Cléo: Alemão.
Ele olhou rapidamente para minha barriga antes de voltar os olhos para mim.
Alemão: Tá tudo bem?
Cléo: Tá sim.
Ele assentiu, mas parecia meio desconfortável.
Alemão: O chefe tava te procurando.
Cléo: Estava?
Alemão: Disse pra avisar se eu te visse.
Interessante! Porque isso podia significar duas coisas: Ou o Carioca estava preocupado comigo... ou a Renatinha tinha finalmente começado a mexer com a cabeça dele de um jeito que ele não sabia lidar.
Cléo: Então acho melhor eu voltar pra casa.
Alemão assentiu e acelerou a moto novamente. Fiquei olhando ele ir embora por um segundo e depois comecei a subir a última viela em direção à casa.
No fundo, eu já sabia de uma coisa, aquela conversa na cozinha... a briga com a Liz... e agora esse recado. Tudo estava começando a se mover.
E quanto mais as peças se mexiam...
Mais fácil ficava de empurrar cada uma exatamente para onde eu queria.
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VENDIDA AO DONO DO MORRO
Teen FictionRenatinha tem 16 anos e veio de São Paulo pra o Rio de Janeiro faz pouco tempo. Seu pai conheceu Ana, uma viciada, nos bailes do morro, e a levou para morar com ele. Ela é literalmente a versão má de madrasta. Os dois batem e forçam Renatinha a trab...
