Liz tinha acabado de falar... e ninguém respondeu. Carioca ficou parado por alguns segundos, olhando pro chão. Parecia que alguma coisa dentro dele tinha finalmente tomado forma.
Carioca: Já deu.
A voz saiu baixa... mas firme.
Eu e Liz olhamos pra ele.
Ele passou a mão pelo rosto e então me encarou.
Carioca: Eu nunca quis estragar tua vida, Renatinha.
Aquilo me pegou desprevenida.
Renata: Estragar minha vida?
Ele desviou o olhar por um segundo, andando até a janela.
Carioca: Tu não é daqui. Nunca foi feita pra esse lugar... pra esse tipo de problema.
Liz já percebeu que vinha coisa ruim.
Liz: Carioca...
Mas ele continuou.
Carioca: Amanhã tu vai embora.
Meu coração falhou uma batida.
Renata: Como assim?
Ele virou pra mim.
Carioca: Vou mandar tu pro afasto!
Renata: Você tá mandando eu ir embora?
Carioca: Tô.
Liz arregalou os olhos.
Liz: Tá maluco?!
Ele ignorou.
Carioca: Tu vai voltar pra tua vida.
Renata: Você acha que simplesmente me mandar embora vai apagar tudo que aconteceu? Sou descartável?
Ele ficou em silêncio por um segundo... e então respondeu, seco:
Carioca: Vai evitar que piore.
Aquilo doeu mais do que um grito. Dei um passo pra frente, sentindo o peito apertar.
Renata: E você? Vai continuar aqui como se nada tivesse acontecido?
Ele sustentou meu olhar dessa vez. Frio. Decidido.
Carioca: Vou.
Liz soltou uma risada nervosa, sem acreditar.
Liz: Ah não... tu não tá metendo essa, não.
Ele nem olhou pra ela.
Carioca: Eu sou isso aqui, Liz. Sempre fui. Dono do morro, problema, confusão... — deu de ombros — não sei ser outra coisa.
Meu estômago virou.
Renata: Então você só... aceita?
Carioca: Aceito.
Ele deu um passo mais perto, a voz mais baixa.
Carioca: E tu não tem que pagar por isso.
Por um segundo... quase pareceu cuidado.
Quase.
Renata: Você não tá me protegendo. — minha voz falhou — Você tá me descartando.
Carioca: Não fala merda.
Renata: É exatamente isso!
Carioca: Se tu tiver grávida... não pode ter esse filho.
O mundo parou. Eu senti como se alguém tivesse puxado o chão.
Renata: ...o quê?
Liz: Tu tá de sacanagem.
Carioca: Eu já tô preso numa situação, Renata... já tem uma criança vindo aí.
Renata: E isso te dá o direito de escolher qual filho importa?
Carioca: Não distorce o que eu tô falando.
Renata: Então fala direito!
Ele passou a mão no rosto, visivelmente pressionado.
Carioca: Eu não vou conseguir segurar duas bombas dessas ao mesmo tempo!
Renata: Eu não sou uma bomba!
Carioca: Mas essa situação é — a voz subiu — Eu amo a Cléo, já tem uma criança vindo com ela... eu não posso jogar outra no meio desse caos!
Renata: Então a solução é simplesmente... apagar o meu?!
Carioca: Eu tô tentando evitar que todo mundo se afunde junto!
Renata: Abortar NÃO é evitar desgraça pra mim!
E foi ali que tudo desmoronou por dentro. Ele passou a mão no rosto, claramente irritado, mas ainda firme.
Carioca: Tu vai embora. Vai viver tua vida direito. E isso... — fez um gesto vago entre nós — isso acaba aqui.
Eu só conseguia olhar pra ele. Sem reconhecer. Depois de tudo que eu passei?!
Renata: Eu não acredito que você tá fazendo isso.
Ele não respondeu. E isso foi pior do que qualquer coisa.
(...)
——————
Eu tava sentada na beira da cama, abraçando as pernas, olhando pro nada. Liz entrou devagar, fechando a porta atrás de si. Ficou me observando por alguns segundos... até suspirar e sentar do meu lado.
Liz: Caralho...
Eu não respondi, e ela passou a mão no rosto.
Liz: Ele foi um escroto.
Renata: Ele mandou eu ir embora, Liz. Como se eu fosse... nada.
Liz virou pra mim na hora.
Liz: Tu não é nada, não. Para com isso!
Balancei a cabeça.
Renata: E ainda falou... — a voz falhou — que se eu tiver grávida...
Não consegui terminar. Ela fechou os olhos, já sabendo.
Liz: Eu ouvi.
Renata: Eu não sei o que fazer.
Aquilo saiu num sussurro. Pela primeira vez... sem força nenhuma. Liz ficou quieta por um momento e quando falou, a voz veio mais calma, mas firme:
Liz: Primeiro... tu vai respirar.
Olhei pra ela, perdida.
Liz: Depois tu vai fazer esse teste.
Ela segurou meu queixo de leve, me fazendo olhar pra ela.
Liz: E aí a decisão vai ser tua. Só tua.
Senti os olhos encherem.
Renata: Eu tenho medo.
Liz suavizou o olhar.
Liz: Eu sei.
Ela segurou minha mão.
Liz: Mas tu não tá sozinha, não. Tô contigo nessa.
E pela primeira vez desde que ele falou aquilo... Eu senti que talvez... eu não estivesse completamente perdida.
Ficamos conversando mais um mas ela precisou sair, me deixando novamente sozinha em meio aos meus pensamentos. Sentada na cama, abraçando as pernas, olhando pra um ponto fixo como se aquilo fosse me impedir de pensar.
Mas não adiantava.
A voz dele ainda martelava na minha cabeça.
"Eu amo a Cléo..."
(...)
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VENDIDA AO DONO DO MORRO
Teen FictionRenatinha tem 16 anos e veio de São Paulo pra o Rio de Janeiro faz pouco tempo. Seu pai conheceu Ana, uma viciada, nos bailes do morro, e a levou para morar com ele. Ela é literalmente a versão má de madrasta. Os dois batem e forçam Renatinha a trab...
