Capitulo 55 ✨

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Assim que eu pisei pra fora da casa, minhas pernas ficaram estranhas... meio bambas, meio sem força. Era tudo que mais queria mas não do jeito que eu queria, era como se meu corpo ainda não tivesse entendido que eu tava indo embora de verdade.

Eu desci devagar, sentindo cada passo como se fosse definitivo demais. E talvez fosse mesmo.

Quando virei o rosto, vi eles.

O Alemão encostado na moto, sério como sempre. O Vitinho do lado, inquieto, me olhando como se quisesse falar mil coisas e não soubesse por onde começar.

Quando me viram, os dois ficaram em silêncio.

E aquilo já disse tudo.

Alemão: Bora, Renata...

Eu assenti, tentando parecer forte... mas quando cheguei mais perto, o Vitinho veio primeiro.

Vitinho: Tu vai mesmo?

Ele falou baixo, como se ainda tivesse esperando que eu dissesse que não.

Renata: Vou...

Minha voz saiu falha, quase sumindo no final. Ele me puxou pra um abraço rápido... mas apertado. De verdade.

Vitinho: Se cuida, tá? Qualquer coisa... qualquer coisa mesmo...

Eu fechei os olhos por um segundo dentro do abraço.

Renata: Eu sei...

Quando me afastei, o Alemão já tava com a moto ligada. Eu coloquei a mala de qualquer jeito, subi atrás dele e segurei firme, mesmo sem querer encostar demais.

Antes da gente sair, eu olhei uma última vez pro morro. E foi aí que ele apareceu:

PH.

Parado no meio do caminho, meio sem saber se chegava perto ou não. Os olhos dele foram direto em mim... depois desviaram rápido, como se só de estar ali já fosse errado.

Eu senti um aperto estranho no peito.

Não era amor. Não era saudade.

Era... passado.

Ele deu dois passos na minha direção, hesitante.

PH: Tu vai embora mesmo?

A voz dele saiu baixa. Cautelosa. Com medo.

Não de mim.

Dele.

Eu respirei fundo antes de responder.

Renata: Tô indo...

Ele passou a mão na nuca, claramente desconfortável, olhando pros lados como se o Carioca pudesse aparecer a qualquer momento.

PH: Se... se precisar de alguma coisa...

Ele não terminou a frase.

Não precisava.

Eu dei um meio sorriso, triste.

Renata: Fica tranquilo...

A gente se encarou por um segundo... e ali eu tive certeza, aquilo não era mais nada. Nunca mais ia ser.

O Alemão acelerou levemente a moto, meio impaciente com a cena.

Alemão: Já deu...

Eu nem discuti, só virei pra frente. Vitinho ainda ficou parado ali, olhando... com uma expressão que eu não vou esquecer tão cedo.

Vitinho: Vai com Deus, Renatinha!

Eu levantei a mão, sem coragem de olhar de novo. E então a moto começou a andar, devagar no começo... depois mais rápido.

O vento batendo no meu rosto, bagunçando meu cabelo, secando as lágrimas que eu nem percebi que já estavam caindo. E enquanto o morro ia ficando pra trás... pequeno... distante... eu senti, dessa vez não tinha volta.

Eu tava indo embora dele.

Mesmo que... uma parte minha ainda tivesse ficado lá.

(...)

O caminho pareceu mais longo do que realmente era. Eu não falava nada e o Alemão também não. Só o barulho da moto cortando a rua e o vento batendo no meu rosto. E aos poucos... o cenário foi mudando.

As ruas começaram a ficar mais largas, mais iluminadas... mais organizadas. Prédios altos, portaria, gente andando tranquila, como se a vida fosse... leve.

Aquilo era outro mundo e eu não sabia se pertencia ali, nunca pertenci. Quando a moto parou, eu demorei alguns segundos pra descer. Como se meu corpo tivesse ficado preso no caminho.

Alemão: Chegamos.

Eu olhei pra frente e congelei. O prédio era bonito, muito bonito. Portaria de vidro, iluminação clara, tudo limpo... silencioso. Nada a ver com o barulho constante que eu tava acostumada.

Renata: É aqui...?
Alemão: É.

Simples. Direto. Como sempre.

O Vitinho apareceu logo atrás, descendo da outra moto.

Vitinho: Cara... que lugar, hein...

Eu nem consegui responder. A gente entrou.

O chão brilhava. Tinha cheiro de limpeza, de coisa nova... de vida nova. O porteiro só deu uma olhada rápida pra gente, como se já soubesse.

Claro que sabia, ele tinha organizado tudo.

O elevador foi outra coisa que me travou. Espelho, silêncio... aquele "plim" baixo a cada andar.

Eu me olhei ali por um segundo.

Não parecia eu.

Quando a porta abriu, meu coração começou a bater mais rápido. Não de ansiedade... mas de medo.

Alemão abriu a porta do apartamento sem cerimônia e eu entrei.

Devagar.

E parei.

O apartamento era... lindo.

Grande. Espaçoso. Tudo claro. Sofá novo, cozinha equipada, luz entrando pela janela grande... cortina leve balançando com o vento.

Parecia coisa de filme.

Parecia caro demais.

Parecia... que não era pra mim.

Eu andei mais um pouco, olhando tudo como se tivesse medo de tocar.

Renata: Ele... fez isso tudo?

Minha voz saiu quase em sussurro.

Alemão: Fez.

Só isso.

Mas aquilo disse muita coisa.

Eu fui até a janela.

A vista era absurda. Prédio, rua tranquila, carro passando devagar... nada de grito, nada de tiro, nada de correria.

Silêncio.

Paz.

Eu deveria me sentir bem mas não sentia.

Vitinho: Tu gostou?
Renata: É... lindo.

E era mesmo, mas não era casa. Eu encostei na janela, cruzando os braços, tentando segurar aquela sensação estranha crescendo dentro de mim. Ele não me mandou embora, ele me tirou de lá.

Me protegeu, do jeito dele, mas... sem ficar. E isso doía mais do que qualquer coisa.

Eu fechei os olhos por um segundo respirei fundo e quando abri... eu entendi.

Aquilo ali era um recomeço.

Mesmo que meu coração ainda estivesse... no lugar que eu acabei de deixar.

VENDIDA AO DONO DO MORROHistórias para pegar e não largar. Descubra agora