... A porta abriu devagar e o mundo pareceu parar por um segundo.
Liz ficou parada na entrada, olhando pra gente. O olhar dela desceu rápido, reparou no lençol bagunçado, a minha cara, o Carioca nervoso andando de um lado pro outro.
Na hora ela entendeu tudo...
Liz: ...eu interrompi alguma coisa?
Ninguém respondeu. O silêncio entregou mais do que qualquer palavra. Ela fechou a porta atrás de si, devagar, mas o jeito que cruzou os braços mostrava que já tinha tirado as próprias conclusões.
Liz: Não. Não, não... vocês não fizeram isso.
Carioca passou a mão na cabeça, claramente sem saber por onde começar.
Carioca: Liz...
Liz: Cala a boca. — ela levantou a mão na direção dele — Só... fica quieto um segundo.
Ela me olhou.
E, diferente dele... não tinha confusão no olhar dela. Tinha decepção... e preocupação.
Liz: Renatinha... me diz que não é o que eu tô pensando.
Renata: Aconteceu.
Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como se estivesse tentando não explodir. Mas não conseguiu.
Liz: Vocês dois são malucos?! Ele vai ser pai! A outra lá tá grávida! E vocês aqui... — ela apontou em volta — fazendo isso?!
Carioca: Não foi assim
Liz: NÃO FOI ASSIM COMO?! — ela virou pra ele, agora realmente irritada — Você tropeçou e caiu nela por acaso?!
Ele ficou quieto. E isso só piorou tudo.
Liz: Impressionante. Sério! Impressionante o quanto tu consegue não saber o que quer da vida. Uma hora quer a todo custo a Renata, trata como propriedade e agora acha que pode descartar ela e recuperar a hora que quiser? Tudo isso porque não sabe se quer ou não a baranga da Cléo?
Aquilo bateu nele. Eu vi na cara dele.
Carioca: Não é isso...
Liz: Não é isso? Então me explica o que é, Carioca! — ela se aproximou dele — Porque até onde eu sei, tu engravidou uma, tá preso numa situação com ela... e mesmo assim tá aqui com outra! Que ficou do seu lado nos momentos difíceis, te aturou mesmo sem precisar, mas tu engravidou OUTRA.
Um silêncio pesado se instalou. Ela balançou a cabeça, desacreditada.
Liz: Você tá brincando com duas vidas. Na verdade... três.
Aquilo gelou o quarto. Ele travou e eu também. Liz olhou pra mim de novo, agora mais séria.
Liz: O que ela quis dizer com "eu nem sei ainda"?
Meu coração disparou. Carioca me olhou na mesma hora.
Droga.
Renata: Liz...
Liz: Renata.
O jeito que ela falou meu nome... não era um pedido. Era uma exigência.
Respirei fundo.
Renata: Eu posso... estar grávida... m-mas eu ainda não tenho certeza!
O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros.
Mais pesado, mais real.
Liz arregalou os olhos, completamente sem reação por um segundo. Depois passou a mão no rosto, tentando processar.
Liz: Não... não, não... isso não tá acontecendo. - riu de nervoso.
Ela começou a andar de um lado pro outro, igual o Carioca fazia antes.
Liz: Isso virou um desastre.
Parou e olhou direto pra ele.
Liz: E tudo por sua causa.
Carioca: Minha causa?! — ele reagiu, finalmente — Ela também tava aqui!
Liz: Mas quem não sabe o que quer é tu! — rebateu na hora — A Renatinha pelo menos tá sendo honesta agora. Tu? Tu tá só... empurrando tudo com a barriga!
Ele ficou sem resposta. Liz respirou fundo, tentando se acalmar, mas ainda claramente irritada.
Liz: Tu precisa decidir. Agora!
Carioca: Decidir o quê?
Ela riu, incrédula.
Liz: Tu tá falando sério?
Ela apontou pra mim.
Liz: Ela pode estar grávida.
Depois apontou pra fora, como se a Cléo estivesse ali.
Liz: A outra já está.
E então voltou a olhar pra ele, firme. Ela deu um passo mais perto dele, o olhar duro, sem desviar nem por um segundo.
Liz: Ou tu vira homem e assume a bagunça que você criou... ou para de machucar todo mundo ao mesmo tempo.
Ela fez uma pausa, rindo de leve, mas sem humor nenhum.
Liz: Porque é engraçado, né?
Ele franziu a testa, já irritado.
Carioca: Fala logo, Liz.
Ela cruzou os braços, inclinando a cabeça.
Liz: Tu é dono do morro. Sabe organizar a boca, controlar gente, manter tudo funcionando... — apontou pra ele — mas não sabe gerenciar a própria vida? Suas mulheres.
Aquilo acertou em cheio, ficou sério na hora. Liz continuou, sem aliviar:
Liz: Lá fora tu manda, resolve problema, dá ordem... mas aqui dentro? — ela apontou entre nós dois — tá perdido.
Ela deu mais um passo, agora mais próxima, mais firme.
Liz: E o pior... — ela riu de novo, desacreditada — tu realmente achou que ia dar conta de ter mais de uma mulher?
Ele abriu a boca pra responder, mas ela não deixou.
Liz: Achou que era fácil assim? Que era só dividir atenção, esconder coisa, e pronto? Vida resolvida?
Ela balançou a cabeça.
Liz: Isso aqui não é baile, não. Não é status. Não é ego.
Apontou pra mim.
Liz: É sentimento.
Depois, apontou pra porta.
Liz: É responsabilidade.
E então voltou pra ele, olhando direto nos olhos.
Liz: E você tá falhando nos dois.
O impacto ficou no ar. Ele desviou o olhar por um segundo, passando a mão no rosto, claramente sem argumento, mas ela não terminou.
Liz: Tu não tá só sendo confuso, Carioca... tu tá sendo covarde.
Aquilo fez ele olhar pra ela de novo, na hora.
Carioca: Covarde?
Liz: É. — firme — Porque é mais fácil ir levando assim, sem escolher, sem decidir... do que encarar as consequências.
Ela respirou fundo, mas dessa vez o tom veio um pouco mais baixo — ainda firme, mas mais sério do que explosivo.
Liz: Só que agora não tem mais como fugir.
Olhou pra mim.
Depois pra ele.
Liz: Agora tem vida envolvida nisso.
O quarto ficou em silêncio de novo.
Mas agora não tinha mais fuga.
Só verdade.
E decisão.
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VENDIDA AO DONO DO MORRO
Fiksi RemajaRenatinha tem 16 anos e veio de São Paulo pra o Rio de Janeiro faz pouco tempo. Seu pai conheceu Ana, uma viciada, nos bailes do morro, e a levou para morar com ele. Ela é literalmente a versão má de madrasta. Os dois batem e forçam Renatinha a trab...
