Capitulo 66 ✨

59 2 0
                                        

Minha realidade não é bonita nem é leve. E não é do tipo que alguém fala em voz alta. Mas é verdade.

Eu não fiz pré-natal.

Nenhum.

Nem uma consulta. Nem um exame. Nem aquele momento que toda grávida tem de ouvir o coração do bebê pela primeira vez.

Nada.

Eu tô com oito meses... e não sei nem se é menino ou menina. E não é porque eu não quis.

É porque eu não pude.

Porque eu passei esses meses inteira dentro de casa, com medo de sair e não voltar. Com medo de alguém me ver, de alguém reconhecer, de alguém ligar os pontos errados... ou certos demais.

Enquanto muita gente descobre o sexo com festa, com família, com balão... eu descobri o meu com silêncio.

Com incerteza.

Com ausência.

E isso pesa.

Pesa mais do que essa barriga às vezes.

Mas isso aqui... não começou agora.

Se você acha que a minha vida ficou difícil quando eu engravidei... você chegou atrasado na história.

Eu nasci no meio do caos.

Cresci vendo meu pai se perder nas drogas, dia após dia, como se fosse um processo lento que ninguém conseguia parar. Eu aprendi cedo que fome não espera, que conta não se paga sozinha, que carinho... nem sempre vem de quem deveria.

Eu cresci entendendo que o mundo não é justo. E que quem nasce pobre... já começa devendo. Teve um momento que eu deixei de ser filha... pra virar moeda.

Simples assim.

Fui passada pra frente como se fosse solução de problema. Como se eu fosse coisa e foi aí que eu caí nesse mundo.

Não por escolha.

Por falta dela.

E por muito tempo... eu odiei tudo isso.

Odiei quem me colocou nisso.

Odiei quem me comprou.

Odiei quem assistiu e não fez nada.

Odiei até quem tentou me ajudar... porque eu já não sabia mais confiar.

Mas sabe o que é mais estranho?

É que mesmo no meio disso tudo...

eu ainda tô aqui.

De pé.

Carregando uma vida dentro de mim. Uma vida que não pediu pra nascer nesse caos mas que, de alguma forma... me fez parar.

Pensar.

Sentir.

Coisa que eu evitei por anos. Às vezes eu fico olhando pra minha barriga... e tentando entender.

Qual é o propósito disso tudo? Porque não pode ser só dor. Não pode ser só erro.

Renata: Você não veio à toa...

Eu falo baixo, passando a mão devagar.

Renata: Não pode ter vindo...

Porque se tudo isso que eu vivi... tudo que eu perdi... tudo que me tiraram... for só isso...

então não valeu nada.

E eu me recuso a acreditar nisso. Então eu escolho pensar diferente.Escolho acreditar que você... é a chance de mudar o final.

(...)

Fim de tarde chegou. A casa tava quieta daquele jeito que eu já tinha me acostumado. Eu tava no sofá, uma mão na barriga, sentindo o bebê se mexer devagar, quando ouvi a batida.

Não era campainha. Era batida.

Seca.

Firme.

Meu corpo gelou na hora.

Renata: Quem é?

Aquilo já era estranho.

Eu levantei devagar, sentindo o peso do corpo, o desconforto, a respiração mais curta. Cada passo até a porta parecia mais longo do que devia.

Outra batida.

Mais forte.

Renata: Quem é?

Voz nenhuma. Só o som do meu próprio coração batendo alto. Eu não devia ter aberto.

Mas abri.

E no segundo que a porta destravou... já era tarde.

(...)

VENDIDA AO DONO DO MORROHistórias para pegar e não largar. Descubra agora