Carioca narrando
Depois da conversa, fui para o quarto e fechei a porta, fiquei alguns segundos parado no meio do silêncio.
A Cléo não estava, tinha ido fazer compras, como sempre.
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo, tentando organizar a cabeça depois daquela conversa na cozinha. Nada do que a gente falou saiu da minha mente.
A forma como ela me olhou... sem gritar, sem fazer escândalo, mas também sem acreditar em mim de verdade, aquilo pesa mais do que qualquer briga.
Eu me sentei na beira da cama e acendi um.
A verdade é que eu passei anos tomando decisão difícil sem pensar duas vezes. No morro, quem hesita perde. Quem tenta ser bonzinho demais acaba passando por cima de si mesmo ou sendo passado por cima pelos outros. Eu aprendi cedo que sentimento não paga dívida, mas quando o pai dela apareceu na minha frente, aquele homem acabado, fedendo a droga e desesperado... aquilo não era novidade pra mim. Eu já tinha visto dezenas iguais. Gente que vende o que tiver pra continuar respirando mais um dia.
Só que naquele dia ele não trouxe relógio, carro, terreno... ele me trouxe a própria filha e o pior é que ele não parecia nem sentir vergonha disso.
Eu lembro de olhar pra ele e sentir uma mistura de nojo e raiva. Não pela dívida... mas pela facilidade com que ele falava dela como se fosse qualquer coisa. E naquele momento eu podia ter mandado ele embora. Podia ter cobrado a dívida de outro jeito. Podia simplesmente deixar aquele homem afundar nas próprias escolhas, mas eu não fiz isso.
Eu aceitei.
Na hora eu disse pra mim mesmo que estava resolvendo um problema. Que estava garantindo que a dívida fosse paga sem precisar destruir a vida de mais gente no meio disso, mas essa não é a verdade inteira. A verdade é que quando eu vi ela pela primeira vez... eu soube que aquilo ia dar problema. Ela não parecia pertencer a lugar nenhum daquele mundo. Nem ao do pai dela, nem ao meu. E eu fui ruim com ela também. Não consegui dar tudo de bom pra ela.
Dentro do meu território. Dentro da minha vida.
E desde aquele dia eu venho fingindo que isso foi só um acordo. Só que hoje, olhando nos olhos dela na cozinha, ficou impossível continuar mentindo pra mim mesmo, porque ela não me olha como alguém que deve alguma coisa, ela olha como alguém que foi arrancada da própria vida.
E talvez ela esteja certa... eu pensei na Liz na mesma hora. Minha irmã sempre foi diferente de mim, sempre teve um coração que eu nunca consegui entender direito. Se alguém tentasse fazer com ela o que aquele pai fez com a Renata... eu provavelmente teria colocado fogo no morro inteiro antes de permitir.
A Cléo... a Cléo sempre foi outra história.
Ela entende esse mundo porque ela é feita dele. Nunca teve medo da violência, das decisões erradas, do caos que vem junto com tudo isso. Muitas vezes ela até parece se sentir viva no meio disso. Talvez por isso sempre tenha sido fácil lidar com ela.
Ela não espera nada melhor de mim. A Renata espera.
Mesmo quando ela tenta fingir que não.
Mesmo quando ela me olha cheia de raiva.
Ela ainda espera que eu seja diferente.
E talvez seja exatamente isso que está me quebrando por dentro.
Agora tem essa história da gravidez da Cléo... as coisas vão mudar de um jeito que talvez eu não consiga controlar, mas uma coisa eu sei, pela primeira vez desde que tudo começou, eu falei a verdade pra Renatinha.
Eu vou libertar ela.
Mesmo que isso signifique ver ela sair daquela casa... e da minha vida.
(...)
Eu ainda estava sentado quando ouvi a porta abrir sem bater, nem precisei levantar a cabeça para saber quem era. O som do salto dela no chão já denunciava.
Cléo entrou no quarto devagar, e eu levantei os olhos, percebendo que ela segurava uma sacola pequena na mão.
Ela me observou por alguns segundos antes de falar.
Cléo: Você sumiu.
Carioca: Só queria ficar um pouco sozinho.
Cléo: Eu passei em algumas lojas hoje.
Franzi a testa.
Carioca: Pra quê?
Ela abriu a sacola com calma, quase saboreando o momento.
Cléo: Porque quando a gente descobre que vai ter um filho... algumas coisas mudam.
De dentro da sacola ela tirou um conjuntinho minúsculo, com um body escrito "do papai do ano". Ela segurou a roupinha entre os dedos e mostrou para mim.
Cléo: Olha isso.
Eu fiquei olhando para aquilo sem saber o que dizer.
Cléo: É pequeno, né? Eu fiquei imaginando como vai ser... um pedacinho seu correndo pela casa.
Meu maxilar travou um pouco. Cléo percebeu.
Cléo: Eu ouvi aquela conversa da cozinha!
Eu não respondi. Ela deu um passo mais perto.
Cléo: Eu vi a cara dela quando falei da gravidez.
Aquilo me fez levantar os olhos. Cléo continuou falando com a voz mais suave, mas carregada.
Cléo: Engraçado... parecia que o mundo tinha acabado pra ela.
Ela virou a roupinha entre os dedos, como se estivesse distraída.
Cléo: Será que ela achou que era especial?
Carioca: Cuidado com o que tu fala.
Cléo: Eu só estou sendo sincera.
Ela colocou a roupinha na cama.
Cléo: A verdade é que agora tem um bebê no meio disso.
Ela colocou a mão na própria barriga, olhando para mim.
Cléo: E você sabe muito bem o que isso significa.
O quarto ficou em silêncio.
(...)
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VENDIDA AO DONO DO MORRO
Roman pour AdolescentsRenatinha tem 16 anos e veio de São Paulo pra o Rio de Janeiro faz pouco tempo. Seu pai conheceu Ana, uma viciada, nos bailes do morro, e a levou para morar com ele. Ela é literalmente a versão má de madrasta. Os dois batem e forçam Renatinha a trab...
