Capítulo 32 ✨

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Cléo sabia? Ou pelo menos desconfiava. Muitos pensamentos vinham ao mesmo tempo, não consigo raciocinar direito. Meu Deus.

Ela entrou no meu quarto, mexeu nas minhas coisas e agora estava jogando comigo.

Respirei fundo. Não! Eu não vou dar esse gostinho pra ela.

Ouvi o barulho da moto do Carioca chegando, que fez meu coração dar um pulo. Desci rápido, peguei as panelas para fazer a janta. Tentei parecer o mais natural possível.

O cheiro de alho e cebola já tinha tomado a cozinha inteira. Era a única coisa que me distraía naquela casa.

A porta fechou com força. Ele entrou na cozinha tirando o capacete.

Carioca: Que cheiro é esse?

Não olhei pra trás.

Renata: Comida.
Carioca: Engraçadinha hoje?

Pegou um pedaço de cenoura da tábua. Olhei de rabo de olho para ele.

Renata: Não mexe aí.
Carioca: Tô com fome. E tu não manda em mim!
Renata: Então espera ficar pronto.

Ele encostou na bancada, me observando. Aquele silêncio dele sempre me incomodava mais que qualquer pergunta.

Carioca: Tu tá estranha.

Fingi mexer na panela.

Renata: Tô normal.
Carioca: Não tá, não.
Renata: Agora tu virou especialista em mim?

Ele deu de ombros.

Carioca: Moro contigo faz tempo.

O silêncio caiu de novo. Mexi a comida, tentando ignorar o aperto no estômago.

Carioca se aproximou mais um pouco.

Carioca: Tu comeu hoje?
Renata: Claro que comi. - menti.
Carioca: Então por que tá com essa cara?
Renata: Que cara?

Ele ficou me encarando por alguns segundos. Como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça.

Carioca: Cara de quem tá escondendo coisa.

Soltei uma risada nervosa.

Renata: Você tá trabalhando demais na boca. Ta imaginando coisa!

Ele não riu, só continuou olhando. Depois pegou a colher da bancada e provou o caldo do feijão que tinha começado a preparar.

Carioca: Acho que foi a briga mais cedo com a Cléo, né?

Meu estômago virou mas continuei olhando para a panela.

Renata: Ela que começou.
Carioca: Vocês mulheres são difíceis demais. - disse cruzando os braços.
Renata: Sua culpa!
Carioca: Eu não quero guerra dentro da minha casa.

Virei pra ele. Olhei fixamente.

Renata: Então fala isso pra tua mulher.
Carioca: Tu também mora aqui.

Aquela frase ficou no ar. Moro aqui, mas não por escolha.
Virei de volta para o fogão.

Renata: A comida já vai ficar pronta.

Carioca ficou em silêncio atrás de mim, mas eu ainda sentia a presença dele. Pesada. Observando cada movimento meu.

Eu fingia prestar atenção na panela, mas sentia o olhar dele nas minhas costas.

Carioca: Tu tá mexendo nisso faz tempo demais.
Renata: Ainda não tá pronto.
Carioca: Tu sempre cozinha rápido.

Não respondi. Mexi a colher mais forte na panela.

Carioca: Renata.

Respirei fundo antes de virar.

Renata: O quê?

Ele me analisou da cabeça aos pés.

Carioca: Tu tá escondendo alguma coisa!
Renata: Tipo o que? Não tenho como esconder nada de você não! Seus vapores não ficam 100% do dia de olho aqui.
Carioca: Não muda de assunto, eu te conheço.
Renata: Então deve saber que eu não tenho paciência pra interrogatório.

Ele apoiou as mãos na bancada.

Carioca: Tá muito estranha! Não olha no meu olho.
Renata: E?
Carioca: E isso não tá normal.

Cruzei os braços.

Renata: Desde quando você presta tanta atenção no que eu faço?
Carioca: Desde quando tu é minha.
Renata: Então devia saber que eu só tô cansada.
Carioca: Ou tem outra coisa te cansando. - sussurrou.

Parei de mexer a panela.

Renata: Tipo o quê?
Carioca: Tu acha que eu não percebo quando alguém muda?

A raiva começou a subir no meu peito.

Renata: Talvez eu só esteja cansada de viver sendo observada e que me ordenem fazer as coisas.

Ele não gostou da resposta.

Carioca: Essa casa tem regra.
Renata: Eu sei. - revirei o olho.
Carioca: Então não me testa.
Renata: Eu não tô testando ninguém.
Carioca: Só não esquece de uma coisa.
Renata: O quê?
Carioca: Tudo que acontece nessa casa... eu acabo descobrindo.

Meu coração deu um salto.

Porque, naquele momento, eu não sabia se ele estava falando de mim... ou se alguém já tinha contado alguma coisa pra ele.

(...)

O silêncio na cozinha parecia pesado demais. A frase dele ainda ecoava na minha cabeça.

Vou continuar exatamente da tensão da cozinha, com Carioca analisando Renata, e então Cléo entra e ele muda a postura para mostrar poder.

Antes que eu respondesse qualquer coisa, ouvimos passos no corredor.

Cléo!

Ela apareceu na cozinha alguns segundos depois, encostando no batente como se estivesse assistindo uma cena.

Cléo: Interrompi alguma coisa?

Ninguém respondeu.

O olhar de Carioca mudou no mesmo instante. Ele se endireitou, como se tivesse lembrado que não estava sozinho.
Os olhos dele voltaram para mim, mais frios. Mais duros.

Carioca: Eu tava falando com a Renata.

Ela cruzou os braços.

Cléo: Percebi.

Eu voltei a mexer a panela, tentando ignorar os dois. Carioca deu um passo na minha direção. Perto demais.

Carioca: Eu também tava lembrando ela de uma coisa.
Cléo: Que coisa?

Ele não tirou os olhos de mim quando respondeu.

Carioca: Que aqui dentro tem regra.

Meu estômago apertou. Cléo soltou uma risada pequena.

Cléo: Achei que ela já soubesse.
Carioca: Às vezes precisa lembrar.

O recado era claro, porém não era só pra mim, era pra ela ver. Pra entender quem mandava ali.

Eu virei devagar para encará-lo.

Renata: Já entendi.

Ele me analisou por alguns segundos, como se estivesse esperando outra reação. Voltei para o fogão.
O silêncio voltou para a cozinha. Cléo continuava parada na porta, observando tudo, como se estivesse assistindo um jogo.
Naquele momento eu tive uma sensação estranha. Carioca achava que estava mostrando poder.
Mas ela... Cléo parecia estar aprendendo exatamente onde pressionar. Só que isso não ia ficar assim.

(...)

VENDIDA AO DONO DO MORROHistórias para pegar e não largar. Descubra agora