(...)
Eu mantive a arma firme, mas o foco não era a Cléo... nunca foi, era a Renata, cada detalhe dela, o jeito que a mão apertava a barriga, o corpo levemente curvado tentando proteger o que tinha dentro, e isso foi me corroendo por dentro de um jeito que nem eu tava conseguindo segurar direito.
Carioca: Tu não vai sustentar isso até o final...
Eu conhecia a Cléo o suficiente pra saber que aquilo ali já tinha passado do ponto até pra ela. Cléo soltou um riso curto, mas dessa vez não veio com a mesma confiança de antes.
Cléo: Tu ainda acha que me conhece, né?
Eu dei um leve passo pro lado, abrindo mais o ângulo, sem tirar o olho dela, mas já calculando tudo ao redor, cada saída, cada espaço, cada segundo possível.
Carioca: Acho não... tenho certeza.
Renata soltou um gemido baixo, quase tentando segurar, mas não deu, e aquilo fez tudo travar dentro de mim por um segundo, porque não era só medo ali... era dor.
Renata: Eu... eu não tô bem...
Carioca: Calma, calma... respira, Renatinha... eu tô aqui.
Eu dei mais um passo, instintivo, e a arma da Cléo subiu na mesma hora.
Cléo: Eu falei pra parar.
Carioca: Tu quer resolver comigo, resolve comigo... deixa ela fora disso.
Cléo apertou o maxilar, os olhos indo da minha cara pra Renata, como se ainda tivesse decidindo até onde ia.
Cléo: Já passou dessa fase faz tempo.
Carioca: Não... ainda dá pra tu sair disso.
Cléo: E você acha que eu quero?
Aquilo veio carregado, mais do que raiva... tinha mágoa ali, profunda, antiga, e eu vi, mesmo que ela tentasse esconder.
Carioca: Isso aqui não é sobre poder, nem sobre território... é sobre escolha... e tu tá escolhendo errado.
Renata puxou o ar com mais força dessa vez, levando a mão mais pra baixo da barriga, e foi aí que eu senti de verdade... o tempo tinha acabado.
Carioca: Cléo... acabou a brincadeira. Ela tá em trabalho de parto.
O silêncio que veio depois foi diferente de tudo, até a Cléo travou por um segundo, o olhar descendo pra Renata, e ali... naquele pequeno vacilo... eu vi a chance.
Renata deixou escapar um choro baixo, segurando a dor, o corpo encolhendo.
Renata: Eu não tô aguentando...
Carioca: Tu vai ser responsável por isso também?
Cléo não respondeu na hora, mas o braço já não tava tão firme quanto antes.
Carioca: Isso aqui ainda dá pra parar... mas se tu continuar... não tem volta mais.
O rangido da porta atrás de mim não parou no vento, veio pesado, arrastado, e eu senti antes mesmo de olhar que não era só mais alguém entrando... era presença, daquelas que mudam o clima inteiro do lugar. O ar ficou mais denso, mais perigoso, e quando virei só o suficiente pra ver de canto, ele já tava ali, parado na entrada, cercado de dois caras, postura tranquila demais pra quem manda naquele pedaço.
Marreta: Bonito... cena de novela no meu morro.
A voz saiu arrastada, debochada, mas com aquele peso que não precisava aumentar pra virar ameaça. Eu virei o rosto devagar, sem baixar a arma, só ajustando o corpo, dividindo a atenção agora, mas sem perder o foco principal.
Carioca: Demorou pra aparecer.
Ele deu um sorriso de lado, olhando primeiro pra mim, depois pra Cléo, e por último pra Renata no chão, analisando tudo como se fosse um jogo montado pra ele.
Marreta: Eu gosto de assistir até onde vai... antes de entrar.
Cléo não falou nada, mas mexeu levemente de posição, e isso já dizia muito... até ela sentiu o peso da presença dele.
Carioca: Então tu que tá bancando isso agora?
Marreta: Eu banco o que acontece no meu território.
Carioca: Então olha direito... porque isso aqui não é guerra tua.
Marreta soltou um riso baixo.
Marreta: Agora é.
Carioca: Já acabou, Marreta... eu vou levar ela.
Ele inclinou a cabeça, analisando como se pesasse o quanto aquilo podia render pra ele.
Marreta: Tu entra no meu morro armado... invade minha área... e acha que vai sair assim?
Carioca: Hoje eu não tô aqui por território... nem por respeito... tô por ela.
Minha voz saiu mais baixa, mais perigosa.
Carioca: E por ela... eu passo por cima do que for.
Cléo respirou fundo, visivelmente pressionada agora entre os dois lados, e o braço dela já não tinha a mesma firmeza.
Marreta: Isso aqui tá ficando interessante...
Ele deu um passo pra dentro, e eu já reposicionei, pronto pra estourar aquilo tudo ali mesmo.
E foi aí que tudo virou de uma vez. Um barulho seco vindo do fundo.
Passos.
Corrida.
Vitinho: Agora!
Alemão surgiu pela lateral como um vulto, empurrando uma estrutura improvisada e abrindo passagem, enquanto Vitinho avançava direto, bagunçando o foco geral.
O caos explodiu.
Grito.
Movimento.
Desordem.
E eu fui direto nela.
Abaixei na frente da Renata, segurando o rosto dela por um segundo.
Carioca: Olha pra mim... vamo sair daqui agora.
Ela assentiu, sem força nem pra falar, e eu puxei ela com cuidado, protegendo a barriga, levantando ela comigo.
Carioca: Segura em mim... confia.
Ela agarrou minha camisa na hora.
Alemão: Bora, chefe!
Vitinho já cobria, abrindo caminho, enquanto Marreta gritava atrás mandando fechar tudo, mas já era tarde.
Eu não olhei pra trás.
Nem pra Cléo.
Nem pra ele.
Nada mais importava.
Carioca: Aguenta só mais um pouco... a gente tá saindo...
A gente atravessou a abertura, caiu na viela escura, as motos já ligando, e o mundo voltou a acelerar, mas agora do jeito certo.
Coloquei ela na garupa com cuidado, subi logo em seguida, sentindo ela se agarrar mais forte, já sem conseguir segurar a dor.
Carioca: Vamo embora!
As motos arrancaram juntas, rasgando a noite, só que agora não era ataque... era fuga. E com o vento batendo no rosto, eu só repetia na cabeça, como se isso fosse manter tudo de pé:
Carioca: Aguenta, Renatinha... só aguenta...
Porque agora... não era mais sobre sair vivo.
Era sobre fazer os dois sobreviverem.
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VENDIDA AO DONO DO MORRO
Teen FictionRenatinha tem 16 anos e veio de São Paulo pra o Rio de Janeiro faz pouco tempo. Seu pai conheceu Ana, uma viciada, nos bailes do morro, e a levou para morar com ele. Ela é literalmente a versão má de madrasta. Os dois batem e forçam Renatinha a trab...
