Carioca narrando...
Anoiteceu mas o morro continua... som alto ao longe, moto subindo e descendo, gente rindo, gente discutindo... tudo acontecendo como sempre.
E ainda assim... nada parecia normal.
Eu tava sentado na laje, olhando, mas sem realmente ver nada.
O cigarro queimando entre os dedos.
Mais um.
Nem lembrava qual número já era. A cabeça não parava:
Renata.
Porra...
Carioca: Aquilo não era pra ter acontecido. Não daquele jeito!
Ela pode tá grávida.
Traguei o cigarro com força e soltei a fumaça devagar. Eu já tô com um filho vindo, me fez ver a imagem da Cléo veio na cabeça.
A cobrança. A responsabilidade.
Eu não sei lidar com isso, porque no morro eu sei lidar com tudo: Conflito, arma, cobrança, morte...
Mas sentimento? Sentimento enfraquece.
Pude ouvir passos se aproximando e nem foi preciso olhar pra saber.
Cléo: Tá aqui em cima escondido de novo?
Carioca: Tô suave.
Ela se aproximou, encostando a cabeça no meu ombro.
Cléo: Suave nada. Tá tudo estranho desde ontem.
Carioca: Impressão sua!
Cléo: Tem haver com ela, né?
O silêncio entregou e ela riu de leve, sem humor.
Cléo: Eu sabia.
Carioca: Não começa.
Cléo: Eu nem comecei.
Ela se aproximou mais...
Cléo: Tu acha que eu sou burra?
Carioca: Ninguém falou isso.
Cléo: Então não me trata como se fosse. Aquela garotinha tá mexendo contigo.
Carioca: Caô!
Cléo: Isso é um problema.
Carioca: Já resolvi.
Cléo: Resolveu?
Carioca: Mandei ela embora.
Ela ficou em silêncio por um segundo... e depois deu um sorriso de canto.
Cléo: Fez certo! Mas não resolveu tudo, né? O que tá acontecendo?
Carioca: Nada, Cléo.
Cléo: Não mente pra mim. — se aproximou — Eu te conheço, meu amor.
Carioca: Tá tudo tranquilo. Só coisa da boca.
Cléo riu, desacreditada.
Cléo: Coisa da boca? — balançou a cabeça — Tu nem tá indo pra boca direito.
Carioca: Minha cabeça tá cheia, só isso.
Cléo ficou em silêncio por um segundo... observando.
Analisando.
Até que o olhar dela mudou.
Cléo: Isso não é só estresse... tem haver com ela. Tu mandou ela embora... — parou e me encarou — mas não resolveu.
O meu coração pareceu travar. Cléo franziu a testa.
Cléo: Por quê?
E foi aí que caiu a ficha.
Devagar.
Cléo: ...não.
Ela riu, sem humor nenhum.
Cléo: Não, não, não...
Passou a mão no cabelo e me olhou com os olhos cheios de lágrimas.
Cléo: Não me diz que tu foi burro nesse nível.
Carioca: Cléo!?
Cléo: ELA TÁ GRÁVIDA? - gritou - Caralho...
Levou a mão à boca por um segundo, incrédula... e então a expressão virou outra coisa: raiva.
Cléo: Tu só pode tá de sacanagem comigo!
Carioca: Fala baixo.
Cléo: BAIXO?! Tu me engravida... e engravida essa ai?!
Carioca: Eu não sei se...
Cléo: MAS PODE TÁ!
Aquilo ecoou. Cléo respirava rápido agora, completamente alterada.
Cléo: Eu aqui, com filho teu... — apontou pra própria barriga — e tu fazendo filho em qualquer uma do morro?!
Carioca: Não fala assim. Ela não é qualquer uma!
Erro.
Grave.
Cléo arregalou os olhos, sem acreditar.
Cléo: Ah, tu ainda defende?! Inacreditável.
Passou a mão no rosto, tentando se controlar... mas não conseguindo.
Cléo: Tu tem noção da merda que tu fez? Isso aqui não vai acontecer.
Carioca: Cléo?
Cléo: NÃO VAI!
Ela apontou o dedo na minha cara.
Cléo: Eu não vou dividir isso. Não vou dividir homem, não vou dividir filho, não vou dividir porra nenhuma! Ou tu resolve isso... ou isso vai explodir na tua mão.
Carioca: Calma...
Cléo: Faz ela fazer um teste. E se tiver...
Ela deu um passo pra trás. O olhar duro.
Cléo: Tu já sabe o que tem que fazer. Porque eu não vou aceitar isso, tá me ouvindo?
Carioca: Cléo!?
Cléo: Tu quer virar piada no morro?
Aquilo bateu.
Carioca: Ninguém vai saber de nada.
Cléo: Vai sim.
Cléo: Aqui tudo se sabe.
Ela se aproximou de novo, agora mais fria.
Cléo: Tu já tem uma responsabilidade comigo. Resolve isso amanhã.
E saiu, me deixando ali, sozinho de novo.
Com a decisão já tomada... mesmo que não quisesse admitir.
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VENDIDA AO DONO DO MORRO
Fiksi RemajaRenatinha tem 16 anos e veio de São Paulo pra o Rio de Janeiro faz pouco tempo. Seu pai conheceu Ana, uma viciada, nos bailes do morro, e a levou para morar com ele. Ela é literalmente a versão má de madrasta. Os dois batem e forçam Renatinha a trab...
