Escrevendo#7- Mostre, não conte

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Com certeza, uma das técnicas mais faladas do roteiro a literatura é o mostre, não conte, originalmente conhecido como show, don't tell.

Decorou?. É melhor que faça. Isso é algo para ter em mente quando estiver escrevendo.

Expor×Dramatizar

Você acabou de criar uma personagem chamada Sara. Consegue imaginá-la, sabe de seus segredos e opiniões quase como se ela tivesse criado voz própria.

Trabalhando em suas qualidades, a definiu como introvertida. Não satisfeito, acabou descobrindo que ela é ansiosa e passa tempo demais na frente do computador. Suas notas acabaram caindo e seus pais, como castigo, a deixaram sem o eletrônico.

Eu acabei de contar o que a Sara é. Uma saída fácil e muito preguiçosa.

Para mostrar a Sara, desenvolva cenas em que ela apresente essas características.

Faça ela gaguejar de leve ao falar em público e manter sempre o olhar baixo. Crie manias, como estalar os dedos e roer as unhas. Escreva como ela sempre escapa para seu quarto depois do jantar e passa horas a fio em seu computador, tanto que acabou acordando em cima do teclado e também da hora para ir a escola.

E isso pode ser usado em todos os parâmetros da sua história.

Descrições: Se você quiser passar ao seu leitor as características físicas de sua personagem, pincele aqui ou ali pelo texto contextualizando-as em alguma ação.

Com o despertador a acusando, Sara vestiu-se, apanhou a mochila e um amarrador qualquer para tentar controlar a confusão castanha de todo dia.

Um tênue brilho surgiu naqueles olhos. Olhos azuis que agora se manchavam de lágrimas.

A garota tinha que olhar para cima para conversar com ele.

Cenários: Eu já citei isso no Destrinchando#2 ao falar das insinuações.

Quando se tratar de uma cidade, pense em algo forte relacionado a ela que já crie a imagem na mente do seu leitor.

Naquelas tardes, Sara peregrinava no Central Park e perseguia as pobres borboletas...

Quase arrancaram seu braço junto com a mochila. Nem mesmo aos pés do Cristo, os meliantes cariocas davam trégua.

Enviou várias fotos: comendo legítimas baguetes, experimentando perfumes e enquadrando com perfeição a Torre Eiffel.

A mesma coisa também pode ser feita quando você quiser estabelecer um ambiente específico.

Os aromas de pães recém assados enchiam a recepção. Bolos e guloseimas se postavam abaixo da bancada, mas ainda assim roubavam toda a atenção.

As enfermeiras cruzavam rápido o corredor, enquanto meu traseiro tentava se adaptar ao molde tosco daquela cadeira.

Algo que serve de escada para a dramatização, são os diálogos. Sara, por exemplo, não é muito adepta das gírias apesar de vez por outra soltar um palavrão. Laura, uma de suas poucas amigas, é  completamente desbocada e fala o que vier a cabeça.

Em uma conversa entre elas, ficaria claro quem está falando mesmo sem um indicativo.

Mas, atenção. Não utilize os diálogos para apresentar características de personagens.

— Sara, você é muito ansiosa e usa o computador sem parar.

Isso é conhecido como "orelha".

Em Hollywood, isso é chamado de on-the-nose-dialogue que é traduzido por diálogo na sua cara. Uma conversação direta, sem nenhum conflito e puramente expositiva. O autor te passa toda a informação já mastigada e ainda vem com guardanapo, caso você deixe cair um pouco. 

A exposição deve ser feita de forma indireta. Foi o diretor Billy Wilder que popularizou a teoria do Dois mais Dois( Two plus two unifying theory) com a seguinte frase:

" Dê a plateia dois mais dois e deixo-os chegar no quatro.

Isso quer dizer, não diga com todas as letras. Dê indícios. Deixe pistas. Permita o leitor chegar as suas próprias conclusões. Mostre, não conte.

Além disso, com a dramatização você vai conhecendo melhor suas personagens em toda a sua essência e tiques nervosos, preenchendo as lacunas que talvez ainda tenham ficado para trás.

DICA: Você não precisa dramatizar tudo na sua história. Coisas dispensáveis não precisam ser desenvolvidas a fundo.

Sei agora você deve estar entusiasmado com a ideia do show, don't tell, mas transforme esse entusiasmo em hábito. Pratique nos seus velhos textos, destrua-os se puder e comece a escrever outros ainda melhores.

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