Seu olhar de espanto não meu permitia respirar. E sem respirar eu caminhei em sua direção. E em cada passo, um pedaço de mim se desfazia. Porque já não existia nada além de ódio, vergonha e dor dentro de mim.
Seus olhos castanhos estavam fixos nos meus e seus lábios entreabertos. Seu rosto era uma escultura angelical que tinha traços fortes e marcantes de um pólo a outro. E em cada centímetro, um poço de simetria e perfeição.
Procurei em todas as palavras do dicionário apenas uma que descrevesse exatamente sua expressão ao me ver. Mas nada chegava perto, ele era a lua iluminando a escuridão dentro de mim.
Um buraco negro se abriu dentro da minha alma quando eu cheguei de frente para ele e em meio a todas as outras pessoas nos encontramos secretamente como dois amantes.
Ninguém nos ouviu, ninguém nos viu, ninguém presenciou a explosão de nossos corpos ao se tocar. Porque éramos seres de outro mundo, deuses gregos da antiguidade ao mesmo tempo que meros mortais da realidade. Dois pecadores recém chegados no inferno. Um estrondoso trovão seguido de uma melodia sentimental. Éramos o fim daquele universo ao mesmo tempo que éramos onde tudo começava.
Pierre tocou a minha bochecha e eu travei o maxilar sóbria pela primeira vez em anos de toda a minha vida.
Ele parecia fascinado ao mesmo tempo que assustado enquanto analisava todos os meus hematomas.
Ele não tinha palavras. Não tinha paz. Ele era guerra e vazio.
A música alta não nos atingia, as drogas não entravam em nossos corações porque estávamos blindados e totalmente expostos ao perigo. Nada descrevia. Nada se encaixava. Estávamos perdidos no silêncio dentro de um poço de caos e escuridão.
_O que aconteceu com você? - a voz de Pierre saiu com dificuldade, após aqueles longos segundos de silêncio. - Quem fez isso com você?
Seus olhos estavam transbordando emoção. Talvez dor, arrependimento, tristeza, ódio... Não sabia ao certo. Mas as lágrimas molhavam suas retinas dilatadas e manchava seu ego.
Eu não disse nada. Apenas apertei mais o maxilar e mantive meus olhos em Pierre.
Eu não conseguia falar. Eu estava simplesmente petrificada.
Pierre então se aproximou mais de mim, segurou em minha nuca e me abraçou fortemente. Me prendeu no meio de seus braços e afundou minha cabeça em seu ombro. Fechei meus olhos sentindo seu calor me envolver. Ele tinha cheiro de cigarro e pecado. O meu pecado.
Aquilo era aterrorizante. A cena em que eu era protagonista.
No centro da boate de Damon abraçada com um vagabundo qualquer sem que as pessoas conseguissem nos enxergar.
Eu estava abrigada na casa de Damon havia exatamente 2 dias e eu conseguia, mesmo que superficialmente, me sentir segura naquele lugar. Mas o fato de Pierre ter me encontrado despertava novamente os fantasmas da minha alma. E aquilo era tão desesperador porque ele não deveria me encontrar jamais.
Eu não retribui o abraço. Apenas me mantive sólida no lugar vivenciando aquela experiência docemente assustadora.
Pierre então se afastou e me encarou perplexo cheio de maldade nos olhos.
_Por que você fugiu? - agora seu tom era amargo e acusativo. - Você nos deixou preocupados. Yago não sabia o que fazer e muito menos eu. Então lembrei que talvez alguém pudesse me informar, e descobri que você estava aqui. E por que aqui? O que você tem com ele para confiar tanto assim?
Ele não parava de disparar palavras. Eu juro que tentava, mas não absorvia nada. Nada fazia sentido. Eu estava em transe hipnótico.
_Estou atrapalhando alguma coisa? - Damon chegou por trás com um sorriso perverso ao segurar meu braço.
VOCÊ ESTÁ LENDO
FLY
RomanceHazel Jenner assinou a sua própria sentença de morte ao se apaixonar por Pierre. Ele era problemático. Tudo naquele homem brilhava e queimava. Hazel acreditou que poderia salvá-lo, mas cada passo que dava em sua direção, mais próxima ficava do fim...
