É difícil compreender o silêncio, pois às vezes ele simplesmente não quer dizer nada e em outras, tente a dizer mais que mil palavras. O silêncio é uma melodia, mas nem todo mundo sabe dançar. E em um suspiro profundo, olhamos para o horizonte e observamos a vida passar lentamente sem que possamos fazer nada, como quem tenta encher uma peneira com areia. É chegado um momento que não nos resta escolhas, se não seguir sem dizer sequer uma palavra. E em cada passo que damos, uma pequena parte de nós deixa de existir.
Eu me sentia exatamente assim e não haviam palavras para definir o tamanho da minha tristeza. Talvez a imensidão do vazio juntamente com o silêncio dissesse tudo por mim.
Pisquei algumas vezes e desviei o olhar da janela do carro. Olhei para Pierre pelo retrovisor e depois para Yago. Ele estava pálido e com o olhar fixo na paisagem lá fora. Pierre dirigia seu carro em velocidade baixa e o garoto de cabelo rosa sentado ao seu lado sequer se importava com o destino daquela viagem.
Era o dia seguinte após a noite em que Pierre e eu havíamos dormido juntos em sua antiga casa. Tínhamos ido buscar Yago do hospital logo que amanhecera sem ao menos esperar o resultado dos exames. Não queríamos mais dor.
Eu estava sentada no banco de trás com o cinto de segurança apertando minha cintura. Me sentia sufocada e ansiosa. Minhas mãos soavam.
Yago, por sua vez, não demonstrava qualquer emoção. Ele estava inexpressivo e seus olhos da cor do oceano não refletiam nada.
Relaxei os ombros, fechei os olhos brevemente e suspirei ao me voltar para o diário em meu colo. Bati a ponta da caneta esferográfica azul algumas vezes antes de finalmente transcrever meus sentimentos em palavras, e em cada letra uma parte do meu coração era estilhaçado.
"Socorro!
Preciso de ajuda.
Você consegue me ouvir ou simplesmente imaginar o tamanho da minha dor? E por onde eu caminho, será que você também já passou?
Será que você me ama tanto quanto eu te odeio agora? Será que você sente minha falta tanto quanto eu sinto a sua?
Estou em luto há tantos anos... Aprisionada em meu próprio corpo como se não existisse calabouço pior. Vivendo o certo e morrendo pelo errado. Eu perdi a mim mesma e não sei mais por onde devo começar a procurar.
Não conheço ninguém além do meu eu, e não conheço nada pior do que a dor de ser quem eu sou. Gostaria de ter você e a mamãe para abraçar em noites chuvosas ou simplesmente em todas as noites que chove dentro de mim. Gostaria de conhecer alguém que acreditasse em mim, que dissesse que sou capaz e que posso voar. Mas por onde eu ando tudo o que encontro é morte ou pessoas tão fodidas quanto eu.
Se dói amar, dói odiar também. Mas prefiro passar a vida inteira te odiando do que amando a ideia de que você irá voltar, porque a verdade, papai, é que você morreu para todo e sempre dentro de mim.
Estou me libertando. Estou abrindo minhas asas. Vou arriscar, vou voar, vou queimar. E se eu cair eu terei ao menos conhecido o mais perto do paraíso onde eu nunca estarei.
Estou farta de perder quem eu amo. E estou farta de procurar por você.
Não tenho nada além do maço de cigarros que carrego no bolso do meu jeans rasgado, não tenho nem ao menos lembranças da mamãe. Ela morreu no parto por mim. Também não tenho muitas recordações de você.
Órfã. Alcoólatra. Eu.
Quem sou eu?
Eu nunca irei descobrir se não tentar, se não me libertar do que os outros querem que eu seja. Por isso estou saindo de dentro desse maldito luto e despertando para um novo e importante momento da minha vida. Essa é a hora.
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FLY
Lãng mạnHazel Jenner assinou a sua própria sentença de morte ao se apaixonar por Pierre. Ele era problemático. Tudo naquele homem brilhava e queimava. Hazel acreditou que poderia salvá-lo, mas cada passo que dava em sua direção, mais próxima ficava do fim...
