a m i g o s

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Se estamos queimando hoje é porque alguém provocou o fogo.

Agora não podemos voltar atrás. Nem eu, e nem tampouco Pierre.

Somos passado.

Somos .

Somos nada.

Aconteceu alguns dias após a noite em que eu me encontrei com Pierre Montgomery.

Era como se eu tivesse aguardado a minha vida inteira apenas para viver aquele momento.

Tinha acabado de ter a minha última aula do dia. Estava exausta. Cursar psicologia sempre foi meu sonho, porém a realidade se tornou um constante pesadelo. Não que eu não gostasse do que estava fazendo, mas é que estudar a mente das pessoas enlouquecia a minha.

Cruzei o campus com as minhas pernas compridas. Minha cabeça estava baixa e havia um cigarro entre meus dedos.

Eu sabia que para chegar até o meu maldito dormitório eu teria que antes passar pelo grupinho de jovens mimados que eu mais odiava até então. Mas eu não tentaria outro caminho e nem sairia correndo. Eu iria continuar porque eu não sentia medo e sim nojo.

Eu estava passando por um corredor de pedra. Nos dois sentidos para onde eu olhasse havia árvores plantadas em fileiras, o que fazia o céu cinza parecer com um telhado vivo de folhas e galhos. Era realmente muito bonito, porém visto a noite se tornava assustador.

Dei um trago no meu cigarro quando estava à apenas alguns passos de onde a turma de amigos estavam sentados, entre eles, Pierre.

— Uh, olha só quem vem aí! — Yago disse rindo para Pierre.

Eles eram melhores amigos. Eu conhecia Yago, sabia de sua má reputação, mas não tinha nada contra ele e nem ele contra mim. Mas o fato dele estar sempre tão perto de Pierre começou a me irritar profundamente. A verdade, é que depois de amar Pierre, eu passei a odiar tudo aquilo que o cercava e qualquer lembrança ou detalhe que me fizesse lembrar dele me deixava furiosa.

— Como você está, garota? Você sumiu, porra. — Yago puxou assunto. Se levantou e entrando no meio do caminho, o que me forçou a parar abruptamente.

Eu levantei o olhar sombrio até o seu tão brilhante, e não disse nada.

Yago franziu o cenho e seu sorriso desapareceu aos poucos. Ele olhava para mim, mas podia enxergar além. Embora não fôssemos íntimos, ele conhecia o meu jeito silencioso e sabia que eu estava diferente de qualquer maneira — embora continuasse na minha sem dizer nada.

Talvez Pierre não tivesse contado sobre a noite no farol. Aliás, ele não ganharia nada fazendo isso.

— Você está bem? — Yago questionou mais baixo, desta vez sem apresentar demasiada empolgação.

— Não é da sua conta. — Respondi rispidamente e passei por ele, mas novamente algo impediu a minha passagem. Agora a risadinha estúpida da terceira e última meliante do grupo de amigos, uma garota loira que eu jamais tinha visto no campus da faculdade. Eu deveria apenas seguir e ignorar aquela merda, não valeria a pena ficar para descurtir. Lutei contra a minha própria mente, mas ela venceu. — Qual é a graça?

Ela deixou os olhos correrem pelo meu corpo rapidamente e depois tornou a me encarar ainda com aquele maldito sorrisinho em seus lábios carnudos. Ela realmente não parecia ser da faculdade. Ela era diferente.

Usava preto desde os coturnos até a gargantilha de couro. Tinha um corpo de se impressionar que gritava naquela calça apertada de cintura alta.

Ela estava ao lado de Pierre que tinha a cabeça baixa e o rosto escondido pelo capuz do moletom preto desbotado pelo o uso frequente.

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