m u l a t o

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Hazel

A abstinência não estava sendo fácil para mim. A falta do cigarro me deixava neurótica e a dor de cabeça era tamanha a ponto de me fazer pensar em arrancar os cabelos. A falta de álcool tornava minhas noites horríveis e durante o dia eu sentia que iria explodir a qualquer momento. Haviam se passado apenas três semanas desde o dia em que vi Damon pela última vez e eu poderia jurar que aqueles estavam sendo os piores dias da minha vida.

A inflamação no fígado estava diminuindo e os remédios também. Isso era bom e ruim, bom porque assim meu filho poderia crescer saudável e ruim porque sem qualquer substância química em meu sangue eu era uma bomba atômica prestes a explodir.

Era uma quarta a tarde, Yago estava sentado na cama enquanto me observava curiosamente pentear os cabelos vermelhos em frente o espelho. Joguei todos os fios úmidos para trás, deixando assim meu rosto exposto de forma que há tempos eu não o fazia e me virei para ele.

_A abstinência está me matando. - soltei repentinamente. - Preciso muito de um cigarro!

_Se você fumar ou beber qualquer merda alcoólica eu juro que te mato. - Yago falou seriamente olhando para mim.

Eu sorri sarcástica.

_Você não me faria um favor tão grande assim.

_Vai se ferrar, Hazel! Não fale isso nem brincando, ok? - seus olhos azuis ganharam uma tonalidade escura. - Não está sendo fácil para mim.

_O quê? - murmurei arrancando aquele emaranhado de fios vermelhos da escova de pentear.

_Suportar a ideia de que em mais ou menos um mês eu irei morrer.

_Você não vai morrer, Yago. - parei e firmei o olhar nele.

_Quem garante? - sorriu amargo e se jogou na minha cama de braços abertos. Ele encarou o teto silenciosamente por alguns instantes e então disse: - Terminei com Melinda.

_Por que fez isso? - bufei, deixando a escova de lado e indo me sentar ao lado dele. - Ela gosta de você.

_Eu sei disso e é disso que eu tenho medo, Hazel.

_Você não tem que ter medo algum. - falei convictamente.

_Eu não posso prender ela em um luto mais tarde.

_Puta merda, Yago. Eu já te disse: você não vai morrer! - eu quis gritar com ele como nunca fazia, porque ele não tinha ideia do quanto aquilo me magoava.

Yago se sentou na cama e se virou para mim.

_Não tenho medo da minha morte, Hazel, mas temo destruir vocês como a mim mesmo. E também quero ver essa criança crescer dentro e fora de ti mesmo que isso pareça ser um sonho impossível. - seus olhos eram tão tristes que chegava a cortar meu coração.

_Você não vai nos destruir, querido. Nós todos amamos muito você e nada é impossível para ti. Você é forte, Yago - segurei em seu cabelo loiro e o puxei para um abraço, ele por sua vez não dispersou nem mais um segundo e se agarrou a mim como uma criança o faria. Sorri sentindo-o em meus braços. - Você vai sobrevier e quando essa tempestade passar irá para uma clínica de reabilitação.

Então ele se afastou imediatamente e me encarou inexpressivo.

_Não sei se eu quero ir.

_Por quê? - perguntei mais a mim mesma do que a ele enquanto vasculhava seus olhos atrás de respostas.

_Sinto que são as drogas que me mantém vivo. - Yago respondeu em um murmúrio baixo olhando para todos os lugares excerto para mim.

_Elas estão sugando sua vida.

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