s a n g u e

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Era o vigésimo segundo aniversário de Pierre.

Essa tinha tudo para ser uma data comemorativa e feliz.

Mas ele sempre arranjava um jeito de estragar tudo.

Esse certamente fora um de seus maiores defeitos na juventude. Pierre tinha o dom de destruir as coisas. Eu levei algum tempo até ser forte o suficiente para admitir isso a mim mesma. Porque de certa forma eu me acostumei com a dor.

O problema é que ele realmente destruía tudo o que tocava, e eu, claramente, não sairia ilesa se permanecesse ao seu lado. Mas eu permaneci.

Eu permaneci nos seus melhores e piores momentos. Estava presente em todas as suas crises. Estava com ele, embora tivesse todos os motivos para ir embora.

Pierre não se dava bem com seus pais adotivos. Na verdade, ele não se dava bem com ninguém. Ele era o tipo de rapaz que é conhecido por atrair encrenca, mas todos sempre imploravam por sua atenção.

Os pais de Pierre eram donos de um pub que atraía um público alto depois do expediente de trabalho. Então foi aí que eles tiveram a ideia brilhante de fechar o estabelecimento para dar uma festa.

Todos os amigos da faculdade estavam lá e entre eles as garotas mais populares.

Victor e Carmen eram os pais mais porra louca que eu já conheci em toda a minha vida. Mesmo assim, Pierre não se dava bem com eles. Por mais que eu tentasse, jamais poderia entender a razão de tanto rancor por aqueles que lhe deram a vida, não biologicamente falando, mas tão importante quanto tal.

Eu tive que ameaçar Yago para que ele me ajudasse no plano de convencer o nosso melhor amigo que aquela festa seria boa. Foram incansáveis três semanas para que ele finalmente fosse capaz de resmungar um "sim".

Pierre quase nunca voltava atrás de suas decisões. Eu lembro bem.

Ele tinha uma ideia formada sobre tudo e não estava em sua lista de atividades prediletas escutar argumentações de terceiros. Porém daquela vez ele permitiu ser manobrado até que seu "não" se tornassem um "sim".

Acontece que se eu soubesse que naquela noite tudo daria errado, jamais teria feito tanta questão por aquela maldita festa.

"Vira! Vira! Vira!"

Os seus amigos gritavam em coro ao redor de uma mesa onde Yago se preparava para mais um shot de tequila.

— Oh, meu Deus! Eu preciso vomitar! — Foi o que eu ouvi ele dizer, antes de se levantar abruptamente da cadeira, ir cambaleando em direção ao banheiro e topar com uma garota siliconada da faculdade. Antes que pudéssemos imaginar, uma rajada de vômito voou nos seios da garota e a mesma deu dois passos para trás ao soltar um gritinho alto e agudo que por pouco não explodiu meus tímpanos.

— Filho da puta! — Ela esbravejou, furiosa e envergonhada.

Yago sequer se manteve ali para pedir desculpas, apenas colocou as mãos sobre a boca e saiu correndo em direção ao banheiro.

Houve alguns segundos em silêncio. Todos pareciam constrangidos e confusos, até a sala explodir em gargalhadas, e logo eu, que não era muito escandalosa, comecei a rir também.

A garota cuja os olhos estavam queimando de raiva, saiu batendo os pés até o banheiro feminino do outro lado. Eu poderia imaginar toda a sua vergonha e frustração, mas sinceramente, eu não me importava.

— Parece que os garotos estão se divertindo, não é? — Victor surgiu logo atrás, e me entregou um drink de morango. Eu sorri, agradecida, e observei ele suspirar. — Não queria que Pierre estivesse tão distante. Sabe, fazemos de tudo por ele. Acho que ele deveria sentir no mínimo gratidão.

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