Pierre M.
Anos atrás...
Meu corpo treme. Não sei o que dói mais: a fome ou o frio. Não lembro a última refeição digna que tive na vida e também não lembro de nada que pareça melhor do que a morte.
Tenho uma sensação desagradável no estômago e embora faça um frio infernal a minha pele queima.
Fecho os olhos e respiro fundo. Meu coração está batendo devagar, quase parando, posso sentir. Ouço passos lá encima. Talvez ela venha até aqui. Está escuro. Eu não estou chorando, não mais. Sinto medo. Sinto fome. Sinto frio. Me encolho mais no canto da parede. Abraço meus joelhos e prendo a respiração.
A pouca luz atravessa as frestas do assoalho encima de mim. Estou preso no porão há horas e eu realmente não sei se quero sair daqui.
Encima de mim está a cozinha. O porão deveria ser na verdade uma despensa para guardar os alimentos, mas não temos comida em casa, não que eu saiba. Tudo o que mamãe compra é coisa de momento. Ela só compra comida quando já está sob efeito de drogas, porque sobriamente ela não o faria jamais.
Na verdade, eu não me recordo muito bem a última vez que a vi lúcida. Entretanto, sei que ela fica ainda mais agressiva em abstinência.
Eu tenho medo dela. Ela tem olhos fundos e uma pele envelhecida. Gosto de imaginar que ela é apenas uma bruxa má e que isso não passa de um conto de fadas, tal como a história de João e Maria. Eu ainda acredito em um final feliz.
Eis a minha esperança.
Ouço passos da escada, de repente a porta é aberta e um raio de luz brilha bem diante dos meus olhos. Coloco uma mão na frente do rosto e pisco algumas vezes desacostumado com aquela súbita claridade.
_Levanta, moleque!
Sua voz é rouca tal como a de uma velha de setenta anos. Dá para sentir o catarro preso na garganta e aquilo é tão nojento de se imaginar.
Abaixo o olhar e me apoio na parede para me pôr de pé. Meus ossos doem como o inferno, eu não tenho força em minhas próprias pernas.
_Mamãe - sussurro olhando para baixo -, eu estou com fome. - e então lentamente eu levanto o olhar para encarar a silhueta negra em contraste com a luz. É como uma sombra de memória, eu não enxergo nitidamente, é apenas um borrão magro e alto, algo que se assemelha a um galho seco de árvore. É assustador.
_Que porra é essa!? Você está olhando para mim! - ela berra como um suíno indo para o abate, então avança em minha direção e eu apenas fecho os olhos com força esperando ela terminar o que começou. Espero um soco, um pontapé, qualquer coisa, mas não vem. Quando eu abro meus olhos vejo apenas algo sendo jogado na altura dos meus pés. Olho para o chão confuso. Era uma mochila azul.
_O que é isto? - eu pergunto fraco com medo da resposta.
_São as suas coisas, imbecil. Você finalmente vai embora e eu ficarei livre de você. - ela ri e eu sinto o momento em que ela ascende um cigarro.
Engoli seco ainda encarando a bolsa aos meus pés.
_Para onde eu vou, mamãe? - minha voz agora é embargada por uma emoção profunda de desamparo e horror.
Eu já vivo o inferno, mas eu não conheço um lugar melhor do que aqui. Eu não tenho ninguém no mundo além dela e embora ela seja uma pessoa horrível, ainda assim é a única com quem posso contar. Eu não conheço o mundo lá fora e sequer sei ao certo se existe algum.
Se o amor que eu recebo da minha própria mãe já é esse, o que as outras pessoas reservam para mim?
Em segundos lágrimas começam a escorregar pelas minhas bochechas magras.
_Você vai morar com o Victor Montgomery. - responde como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
_Quem é? - olho de relance para seu rosto e ele parece dizer a verdade.
_Ora, bolas!, é o seu pai, Pierre. - mamãe bate as mãos na lateral de suas coxas e se curva um pouco em minha direção. - Olhe para mim!
Eu não sei onde ela está tentando chegar com essa brincadeira tão cruel e eu também não sei como reagir diante disso. Ela nunca deixa eu olhar em seus olhos e ela nunca mencionou um pai nessa história.
Eu sou apenas uma criança, mal sei ao certo a minha idade, mas sei o que ela faz para sustentar seu vício e não é algo que eu goste de imaginar. Ela se prostitui e até onde eu sei filhos de prostitutas não têm pai.
_Olhe para mim, maldito Pierre! - ela rosna com o rosto bem diante do meu. Sinto seu hálito tóxico, isso me faz querer vomitar.
Eu respiro fundo antes de obedece-la, mas então o faço. E pela primeira vez em toda a minha vida eu olho nitidamente para a face daquela que me deu a luz. Não sei o que me assusta mais, o fato dela estar olhando fixamente em meus olhos ou o seu sorriso de lado.
Engulo a seco e com os olhos arregalados eu observo os traços do seu rosto moreno.
Está escuro, mas eu aprendi a ver além. Seus olhos castanhos são grandes e fundos, ela tem um nariz cumprido e fino, e lábios grossos melados por um batom vermelho. Ela parece ser bonita, mas as drogas tornaram sua aparência assustadora.
_Eu tenho um pai? - franzi as sobrancelhas. Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi em toda a minha vida. Eu sequer sei o significado de um pai.
_Sim, você tem. E você vai morar com ele agora. - sua voz é doce, mas maliciosa. Não consigo entender.
_Por quê?
_Porque ele comprou você de mim. - ela responde simplesmente e então eu paro no tempo.
Meu coração dói mais ainda e eu me pergunto se essa brincadeira estúpida vai acabar logo.
Eu não poderia ser simplesmente comprado por alguém. Isso não fazia o menor sentido.
_Por que ele faria isso? - a dor é muito mais nítida em meus olhos do que na minha voz.
Ela corrige a postura e coloca as mãos na cintura sorrindo radiante.
_Porque a esposa dele não pode ter filhos, então seu papai decidiu que seria melhor comprar de volta o bastardo que ele teve com a prostituta uns sete anos atrás ou seja, você. Não é uma notícia boa, querido? Você se livra de mim e eu me livro de você. Assim nós dois podemos ser felizes bem longe um do outro. - ela parece tão alegre, é como se tivesse ganhado na loteria e o pior é saber que o bilhete premiado sou eu.
Então de repente algo nasce dentro de mim: ódio.
Esse é o começo de tudo.
Eu sinto meu corpo inflamar. Meus olhos nunca estiveram tão fixos em algo como estão nos dela. E a raiva que eu sinto é mortal. Raiva dela, raiva dele, raiva de tudo e de todos.
Um ódio tão profundo que queima até o meu último fio de memória.
_Eu não sou algo a ser comprado. - eu digo a ela pausadamente e não choro mais.
E ela responde com o olhar mais duro do mundo:
_Não, você não é. Até porque, Pierre, você não tem valor algum. Você não é nada. Você nunca será amado de verdade. E o fato de estar indo morar com o papai e a nova mamãe não irá fazer com que você mude. Sabe por que, filho? Porque você é podre igual a mim. E eu juro pelos céus que um dia você irá concordar comigo, mas então será tarde demais, porque você já terá sido corrompido completamente por essa lama. E a cada tentativa falha de amar alguém, você se lembrará de mim e então fará o mesmo que sua querida mamãe fez com você num ciclo vicioso até o dia da sua maldita morte. Você é igual a mim, nunca se esqueça disso. - ela sorri satisfeita e então se curva em minha direção me olhando bem fixo nos olhos. Seus lábios pousam no meu pé do ouvido e ela sussurra por fim: - Te amo, meu filho. Adeus!
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FLY
RomansaHazel Jenner assinou a sua própria sentença de morte ao se apaixonar por Pierre. Ele era problemático. Tudo naquele homem brilhava e queimava. Hazel acreditou que poderia salvá-lo, mas cada passo que dava em sua direção, mais próxima ficava do fim...
