m o r t e

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Temos tudo e logo em seguida, nada.

Nada.

Foi ao que me resumi quando descobri que meu melhor e talvez, único amigo, estava condenado à morte.

E é tão engraçado olhar para trás e sentir que pressenti naquele momento em que cruzei o corredor com ele totalmente ensanguentado que estávamos definhando, não apenas ele, todos nós. Estávamos presos, fodidos e talvez condenados à morte também. Mas a minha e a do Pierre chegaria mais lentamente e se arrastaria dolorosamente e silenciosamente por nossas entranhas até que nos sufocasse por completo.

_E então, doutor: Yago já pode ir para casa? - perguntei sorrindo triste, mas otimista.

O médico pálido e de cabelos espetados olhou para nós, respirou fundo ao ajeitar seu óculos redondo no rosto e disse vagarosamente com aquele olhar cansado:

_Perdoe-me, srt. Jenner, mas as notícias que tenho sobre o estado do paciente não são nada boas.

Eu e Pierre nos entreolhamos assustados e antes que eu pudesse cogitar aquilo que o velho vestido de branco dissera, Pierre tomou a frente.

_Você pode por favor ser mais óbvio? O que de tão grave pode ter acontecido com o Yago? - sua voz era seca e seu olhar desesperado. Ele estava tão assustado... Eu nunca tinha o visto assim.

_Tudo bem, - o médico olhou na prancheta portátil de anotações e respirou fundo mais uma vez, exausto. - É meu dever ser delicado com minhas palavras e ser o mais cuidadoso possível para diagnosticar um paciente, mas o jovem entrou aqui em um estado alarmante e eu realmente, em meus vinte e sete anos de experiência médica, nunca presenciei uma força vital tão alta quanto a dele. O fato dele sobreviver àquela taquicardia sem ficar com nenhuma sequela pode ser considerado um verdadeiro milagre!

Eu sorri. Yago era forte. Muito forte.

_E qual o problema? Até aqui está tudo bem.

_Sim, doutor, qual o problema?

O médico ficou sério de uma súbita vez e em resposta eu também.

_Nós realizamos alguns procedimentos de emergência, e após seu estado ficar estável eu mesmo me encarreguei de pedir alguns exames cerebrais.

_Por que isso? - Pierre perguntou.

_Apesar do estado dele parecer estável havia algo que não estava me parecendo certo ali, porque Yago não teve apenas uma overdose ou um ataque cardíaco, ele teve um surto psicótico tão agressivo que por pouco sua cabeça não explodiu. Por isso os exames mais profundos, para saber o que de fato aconteceu com seu sistema neurológico.

_E o que o senhor descobriu? - perguntei afobada, minhas mãos soavam. Estávamos em sua sala. Pierre e eu sentados lado a lado e o médico a nossa frente, apenas uma mesa nos separava.

_Nos exames descobrimos que Yago tem um aneurisma cerebral.

E naquele instante eu percebi que já não sabia como respirar, tudo ficou meio turvo e eu silenciosamente me sufoquei.

_O quê?! - Pierre e eu indagamos juntos, ele em frustração e eu em desespero.

Coloquei uma mão envolta do meu pescoço afim de manter o grito de horror ali mesmo.

_Eu sei, é cruel e eu sinto muito. - o médico lamentou.

_Você só pode estar brincando com a gente. - Pierre riu amargo. - Yago não tem nada na cabeça, ok? Ele está bem e vai sair daqui melhor ainda porque ele é jovem e tem uma vida inteira pela frente...

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