Davies
— Por favor, papai! Por favor, não quebre!
Ele não me ouviu. Sempre me questionei o motivo dele nunca parar quando eu implorava.
— Eu quebro você no lugar. Você quer?
Eu neguei. Não queria apanhar. Além o mais, minhas costas estavam doendo e meu maxilar ainda estava vermelho.
Ele fedia. Era azedo e lembrava urina com suor. Eram assim que eu imagina ser o cheiro dos monstros.
O senhor Mitchell tinha cheiro de amaciante e café, um cheiro que trazia a sensação de proteção e conforto.
Ele havia deixado um embrulho escondido no cantinho da cerca. Eu sabia o que era. Eram pedaços de bolo que a sua esposa fazia. Naquele dia eu os dividi com a minha mãe e ela chorou enquanto comia. Na época, eu pensava que talvez não fosse o sabor que ela gostava, mas, de qualquer forma, ela comeu mais de um pedaço.
Lembro-me também de observar com desespero, o meu pai pegar meu carrinho turbo e pisar em cima dele.
— Odeio você! — eu pensei.
Deus, eu havia pensado em voz alta!
Meu pai olhou pra mim com os olhos bem abertos. O mostro tinha fogo saindo dos olhos e a boca aberta querendo me devorar. Tirou o cinto das suas calças e senti algo molhar as minhas pernas. Eu estava fazendo xixi e me odiei.
Quando o primeiro contato do cinto me atingiu, eu senti o chão debaixo dos meus joelhos.
— Me perdoa, papai — eu gritei, sentindo meu rosto e minhas calças molhadas. — Tá doendo. Para! Para! Para! — eu gritava o máximo que podia.
— Vai aprender a me respeitar.
— Não faz isso. Chega! — minha mãe gritou.
Ela se aproximou depressa, ainda mancando.
Ele continuou. Novamente, qual a dificuldade em ouvir uma súplica?
Minha mãe me envolveu nos seus braços e ficamos abraçados, chorando, como se fossemos uma bolha sonora. Eu ouvi todos os golpes que acertaram as costas dela. Eu sabia que doía. Ela chorava com a boca aberta, fazendo um barulho igual um animal machucado.
Minha boca tremia e comecei a vomitar. Agora minha mãe teria que limpar meu xixi e meu vômito. Eu me odiava.
“Me perdoa, mamãe.”
— Deus, eu não aguento mais — ela disse e aí, ele parou.
Eu vi por cima do ombro da minha mãe, que ele estava respirando rápido. Pegou um cigarro e acendeu. Depois, jogou o palito nas costas dela.
— Parabéns, Davies! Graças a você, sua mãe apanhou. Assim como eu, você também machuca — ele cuspiu. — Você é desprezível, Davies... Você causa dor.
Ouvi seus passos se afastando.
Minha mãe continuava abraçada comigo. Ela passou o polegar na minha boca, limpando o resto de vômito.
— Mamãe... eu... eu...
— Não fale, só continue abraçado comigo — deu uma longa respiração. — Eu vou dar um jeito, só não sei como. Preciso dar um jeito.
Ela se moveu e se sentou no chão. Eu sabia que ela estava com dor. O rosto da minha mãe dizia isso.
— Vamos embora, mamãe, por favor!
— Estou tentando, Davies. Mas para onde eu iria? Eu não tenho dinheiro.
— O senhor Mitchell pode ajudar.
— Não quero envolver outras pessoas nisso. Podem se prejudicar por nossa causa.
— Mas ele disse que quer ajudar.
— Depois conversamos sobre isso, querido — ela disse com um cansaço na voz. — Venha. Vou lhe dar um banho e limpar isso aqui.
“Não, você não está tentando”, eu pensei.
Ela gemeu quando se levantou e eu sabia que também seria assim comigo. Ela me ajudou e doeu quando a água caiu na minha pele.
Eu não quis comer. Quando minha mãe me colocou para dormir, eu estava extremamente cansado.
Naquele tempo, ninguém me disse que era cansativo ter oito anos de idade. Ninguém me disse que ser criança significava enfrentar monstros todos os dias.
VOCÊ ESTÁ LENDO
UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
