Heloyse
Eu ainda mantinha os olhos fechados, mesmo já estando desperta. Quando finalmente os abri, vi no relógio de parede que já passava das oito e meia. Virei-me, procurando por ele.
— Will?
Seu nome escapou dos meus lábios assim que percebi que ele não estava ali.
Eu poderia me iludir, imaginar que ele estava na cozinha preparando nosso café da manhã, mas o silêncio absoluto da casa denunciava a verdade. Não. Ele não estava aqui.
Eu sabia que isso poderia acontecer.
Levantei-me, segui direto para o banheiro e tomei um banho. Esforcei-me para não me frustrar, repetindo para mim mesma, como um mantra, que não deveria me deixar abater.
Saí do banho e vesti um vestido leve, confortável. Depois, recolhi as roupas molhadas do chão e levei-as para lavar. Uma hora mais tarde, já havia tomado café e arrumado a casa.
Mas, por mais que tentasse, não conseguia enganar a mim mesma... Eu estava frustrada.
Não tinha como evitar o turbilhão de pensamentos sobre a noite anterior. Nem fingir que não doía o fato de ele sequer ter esperado que eu acordasse para deixar claro que, para ele, aquilo não passava de uma noite. Apenas sexo.
Eu, com minha tendência a fantasiar romances, achei que havia sido mais.
Cielo carregava restos de comida para as galinhas quando a avistei. Assim que me viu, parou e esperou que eu me aproximasse.
— Como vai, Lisy?
— Bem.
— Não estou convencida.
Coloquei as mãos na cintura e dei de ombros.
— Não aconteceu nada.
— Venha — disse ela, caminhando em direção ao galinheiro —, vou trocar a água das galinhas. Aproveita e me conta o que houve enquanto estivemos fora.
"Oh, Cielo... Você não vai querer saber. Não mesmo", pensei.
***
— Ele vai me ouvir!
— Esquece isso, Cielo.
— Esquecer? Você não é uma prostituta, muito menos uma dessas mulherzinhas que ele costuma pegar.
— Nós não temos nada.
— Tiveram ontem. Ele não pode simplesmente sair assim, sem dar uma satisfação, como se você fosse aquela mulher vulgar da loja do Josh, ou até mesmo a Patsy. Will vai me ouvir.
Eu não consegui evitar uma risada.
— Do que você está rindo?
— Eu não era nenhuma virgem iludida, Cielo. Muito menos fui enganada por um galanteador e agora preciso que alguém o force a se casar comigo. Isso realmente é engraçado.
Os ombros dela se sacudiram em uma risada silenciosa.
— Desculpe — disse ela, virando-se para mim com um sorriso no rosto, ainda segurando a colher de pau — Não me acostumo com toda essa modernidade. É claro que não vou obrigá-lo a se casar com você. Oh, meu Deus, isso seria estúpido. Mas foi uma tremenda falta de respeito o que ele fez. Na minha época, um homem levava uma mulher para a cama quando realmente tinha a intenção de estar com ela. E, mesmo que Will não queira nada com você, ele poderia ao menos ter esperado que você acordasse para conversar. Para deixar claro que era só aquilo e nada mais. No fundo, ele sabe que você está mais do que atraída por ele."
— Eu sabia que era apenas uma noite. Ele não fez nada do que eu não quisesse... Mas eu queria que ele tivesse ficado. Mesmo que fosse só para dizer que foi apenas sexo. Assim, eu não me sentiria tão mal.
— Eu acho que você deveria ir até ele e conversar.
— Não. Melhor não.
— Vocês são complicados. Na minha época, se sentíamos falta, íamos atrás. Se amávamos, dizíamos um ao outro. Se queríamos conversar, simplesmente conversávamos. Simples assim! Mas vocês... Minha nossa... Complicam demais!
— Eu pedi para que ele ficasse, mesmo que fosse só por uma noite. Não pedi compromisso, e ele também não ofereceu. Só estou assim porque queria que ele tivesse me esperado acordar. Ou que me acordasse, ao menos. Assim, eu o veria indo embora e seria mais fácil. Da forma como ele fez... Me fez sentir descartável.
— O que eu posso dizer a você, querida?
— Podia mentir. Dizer que ele vai voltar e confessar que sente algo mais.
Cielo suspirou.
— Minha nossa... Você realmente se apaixonou por ele, não é?
— Sim. O que eu senti pelo Michael por nove anos, eu sinto em segundos quando Will me olha. Não se compara a nada do que já vivi.
E era verdade. Nunca senti nada assim antes.
***
À tarde, Thom veio arrumar o cano da minha pia. Enquanto ele trabalhava, preparei café e o servi.
— Hoje as coisas estão estranhas.
— Estranhas, como?
— Bem... Will está com um humor terrível. Exageradamente mal-humorado. Mais do que de costume. Ninguém nunca o viu desse jeito. Acredita que, de longe, eu o vi chutando a cerca? Pois é! E, além disso, vi que você também não está normal. A gente fala e você não ouve. Anda calada. E colocou alguma coisa no meu café... Só não foi açúcar.
Arregalei os olhos e levei a mão à boca quando notei o pote de sal na mesa.
— Oh, meu Deus! Me desculpa! Desculpa! Merda!
— Acho que não foi merda não — Thom disse, franzindo o cenho. — O gosto está bem salgado.
Eu ri do comentário e me sentei.
— Vai me dizer o que há com vocês dois?
— Não sei nada sobre o humor dele.
— Vamos, querida, não precisa mentir. Todos sabem que há algo entre vocês.
— "Todos" é muita gente, hein? — perguntei, rindo.
Mas Thom apenas arqueou uma sobrancelha, esperando que eu falasse algo.
— Não estou mentindo. Só acho que esse mau humor dele não tem nada a ver comigo.
— O quanto você está apaixonada?
— O quê?
— Responda à pergunta.
Eu respirei fundo e abaixei a cabeça.
— O suficiente para sofrer agora.
— Eu vejo. Mas, acredite, ele também está.
— Isso soa tão distante...
— Ainda assim, não significa que não seja verdade.
Ele olhou para o chão por um instante antes de continuar:
— Eu sinto uma profunda tristeza por Will.
— Por quê?
— O pobre coitado ficou preso na infância. Tudo o que aconteceu na vida dele faz com que pense que está condenado a repetir o passado. Ele dá passos cautelosos, sempre com medo de cometer alguma besteira.
— Como assim?
Thom suspirou e passou a mão no queixo.
— Deus do céu... Acho que falei demais.
— Eu queria que alguém me contasse o que houve com ele.
— Ele irá contar. Um dia.
— E até lá, o que eu faço?
Ele deu um meio sorriso.
— Bom... Você poderia começar me contando onde guarda o açúcar.
Thom jogou o café salgado pelo ralo da pia e se serviu de uma nova xícara. Desta vez, com açúcar.
Meia hora depois, o cano estava consertado.
Ao cair da noite, minha inquietação já era impossível de disfarçar. Meus pensamentos estavam dispersos, e minha mão trêmula provou isso ao quebrar dois copos enquanto secava a louça. Não conseguia me concentrar em nada.
Vesti um suéter e fui até a fazenda O'Connor.
A essa hora, a casa principal já estava silenciosa. Os empregados haviam ido embora, restando apenas Schulte, postado na guarita junto ao portão, onde assumia o turno noturno como porteiro.
— Boa noite, senhorita.
— Boa noite, Schulte. Seu patrão está?
— Sim, vou verificar se ele pode recebê-la.
— Obrigada.
Segundos depois, o portão se abriu.
Caminhei até a casa, sentindo o ar frio da noite colidir contra meu rosto.
A sala estava vazia, iluminada apenas pelo fogo brando da lareira. O calor reconfortante contrastava com o vazio do ambiente. Sentei-me no sofá, aguardando.
Não sei quanto tempo se passou até sentir aquele olhar sobre mim. Quando me virei, lá estava ele.
Will me observava em silêncio. As mãos enfiadas nos bolsos da calça de moletom preta, os cabelos soltos e úmidos, a camiseta cinza um pouco larga caindo suavemente sobre o corpo. Os pés descalços davam a ele um ar de vulnerabilidade que eu nunca tinha visto antes.
Por um instante, fiquei presa na imagem dele, esquecida do tempo. Só despertei quando ouvi sua voz:
— Oi.
— Oi.
Ele caminhou até a lareira, agachando-se para ajeitar a lenha. O fogo crepitou em resposta.
— Eu precisava vir — confessei.
Ele assentiu, sem me encarar de imediato. Depois, se sentou sobre a mesa de centro, de frente para mim.
— Eu queria ter ficado — começou ele, hesitante —, mas não consegui.
— Por quê?
Will abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Passou a mão sobre os lábios, respirou fundo e então soltou o ar lentamente.
— Eu não sei ao certo — disse, afinal. — Apenas... não consegui. Saí e, quando cheguei aqui, precisei caminhar. Fui até o trabalho, mas estava tão irritado... Então, comecei a andar sem destino, explorando lugares da fazenda que nunca tinha visto antes. Talvez não faça sentido para você, mas eu precisava disso.
— Não, não faz — admiti, e ele soltou um pequeno riso. — Mas eu entendo sobre coisas que não fazem sentido.
Ele balançou a cabeça, concordando.
— Em um momento, fechei os olhos e voltei para minha adolescência. E percebi que nunca namorei quando era jovem. Por anos, eu menti para mim mesmo e psara todos ao meu redor, fingindo que eu esta tendo uma adolescência normal. Mas nunca foi assim.
Fiquei em silêncio, ouvindo cada palavra, e percebi que ele estava desabafando de um jeito que talvez nunca tivesse feito antes.
— De repente, me senti tão pequeno. Menor que um grão de poeira. Como se minha vida tivesse sido vazia até agora. Às vezes, sinto que sou uma parede. Oca, imóvel. Mantida de pé por linhas frágeis, prestes a se romper e me deixar desabar. Você entende?
Assenti, esperando que continuasse.
— Eu queria te ligar, como qualquer pessoa normal faria. Queria contar sobre meu dia, de um jeito que nunca fiz antes. Também queria ter amigos, sentar com eles, falar sobre você e sobre como foi te conhecer. Mas eu nunca os tive. — Ele abaixou a cabeça, a voz carregada de uma tristeza silenciosa que fez meu peito apertar. — Me pergunto o que preciso fazer para ter tudo isso. Porque você me faz querer tudo isso.
Meu coração se contraiu. A dor dele transbordava para mim, e mesmo que as lágrimas não escorressem, meus olhos ficaram marejados. Eu sabia o que era solidão. Sabia o que era olhar para os lados e não encontrar ninguém.
Will respirou fundo, como se tentasse se recompor.
— Nada faz sentido. Nem mesmo minha vida faz sentido. E eu não consigo evitar essa sensação... essa certeza de que sou tão insignificante.
— Não, Will. Você não é. Eu disse isso uma vez, mas eu estava errada.
Ele ergueu os olhos para mim, confuso.
— E como você sabe?
— Eu só sei — murmurei. — Você é muito mais do que pensa. Apenas não consegue enxergar.
Ele desviou o olhar, negando com a cabeça, e por um momento, o silêncio preencheu o espaço entre nós.
— Me desculpe, mas hoje eu não tenho disposição para conversar com ninguém.
Engoli minha frustração e apenas assenti, me levantando.
— Sinto muito, Heloyse — ele tocou meu braço suavemente. — Só estou no meu momento.
— Tudo bem...
— Por que não vem aqui amanhã de manhã? — sugeriu. — Eu estarei menos ranzinza.
Sorri, concordando.
— Ótimo! — disse ele, aliviado.
Will me acompanhou até a porta, mas não me beijou. Apenas desejou um "até mais" e fechou a porta atrás de si.
E, ali, na escuridão do lado de fora, senti uma pontada de dor em meu peito.
Naquela noite, ele havia evitado a minha presença.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomansTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
