Heloyse
Quando acordei, a noite já havia se instalado. As sombras preenchiam o quarto, enquanto eu me levantava com o corpo pesado, quase arrastado. Caminhei até o banheiro, onde a luz fria iluminou uma versão de mim mesma que eu mal reconhecia. Olhos fundos, olhar vazio. Lavei o rosto, como se isso fosse capaz de limpar a sensação de estar presa no mesmo lugar, nas minhas antigas tristezas.
Desde que Michael saiu da minha vida, foi como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés. Eu caí, despedaçada, e permaneci no fundo por muito tempo. Dessa vez, porém, precisava ser diferente. Eu precisa reagir e não me permitir voltar aquele estado.
Cielo, havia insistido várias vezes: "Você precisa sair." Talvez ela estivesse certa.
Sem pensar muito, abri o armário e peguei a primeira roupa que vi. Uma calça jeans, uma camisa branca, e uma jaqueta qualquer. Calcei os sapatos e peguei as chaves da caminhonete. Na cidade, as ruas estavam vivas. O contraste entre a vida lá fora e o vazio dentro de mim era quase sufocante. Dirigi sem rumo, até estacionar em frente ao Duran’s Club, um bar que misturava música alta e drinks fortes.
Dentro, o barulho era quase ensurdecedor. O lugar estava lotado, mas eu me senti ainda mais sozinha. Sentei-me no balcão, buscando algo, talvez alívio, talvez distração. Quando o barman se aproximou, hesitei. Kamikaze ou Wild Turkey? Optei pelo uísque.
Enquanto eu virava o copo, um grupo de rapazes em uma mesa próxima chamou minha atenção. Um deles ergueu o copo para mim com um sorriso convidativo. Sorri de volta, de forma automática, e virei o resto da bebida. Não queria companhia. Logo, algumas garotas se juntaram a eles, e eu continuei no meu lugar, sozinha.
— Outra? — o barman perguntou, já segurando a garrafa.
— Sim. — Minha voz saiu baixa, quase um murmúrio.
Ele encheu o copo e, após um momento de hesitação, perguntou:
— As coisas não estão bem?
Dei um sorriso amargo, girando o copo na mão.
— Nunca estão. Pelo menos, não comigo.
Ele soltou uma risada breve, sem humor.
— Sei que parece clichê, mas encher a cara não vai resolver nada.
— Quem disse que estou tentando resolver? — retruquei, um pouco irritada.
— Só estou dizendo... Trabalho nisso há anos. Sei reconhecer o olhar, o padrão. Chegam sozinhas, pedem uísque, repetem a dose, olham para o nada e, antes que percebam, estão chorando e desabafando.
Revirei os olhos, balançando o copo vazio.
— Bom, garanto que não sou uma dessas pessoas. Agora, por favor, só faça o seu trabalho.
Mas meia hora depois, lá estava eu, com os olhos marejados, desabafando para o mesmo barman. Ele ouviu pacientemente enquanto eu despejava palavras que queimavam na garganta.
— Eles sempre vão embora — disse, a voz embargada. — Michael me fez acreditar que me amava. Fingiu por nove anos. E Will... Quando a gente se beija, é como se o mundo parasse, mas ele nunca fica. É como se eu fosse um erro na vida dele.
— Você deveria mostrar a ele o que estão perdendo.
— Como? Fazendo ciúmes?
Ele arqueou as sobrancelhas, rindo.
— Pode ser.
— E com quem? Com você?
— Definitivamente não. Tenho alergia a mulheres.
— Você é gay?
— Obvio — ele disse colocando a mão na cintura.
Ele sorriu, satisfeito por ter quebrado o peso do momento.
Mais tarde, Ralf se despediu, desejando-me boa sorte. Mas eu não estava pronta para ir embora. Pedi um daiquiri, uma mistura desastrosa com o uísque. O álcool começou a pesar, e, ao descer do banco, senti as pernas vacilarem. Estava tonta, mas não me importei.
Fui até a pista de dança, fechando os olhos enquanto deixava a música me guiar. Nunca fui boa nisso, mas movi o corpo como pude. Foi quando senti mãos na minha cintura. Ao abrir os olhos, vi Johnson, um rosto familiar em meio à multidão.
— Johnson? — Minha voz saiu surpresa, quase aliviada. Sem pensar, o abracei.
— Ei, o que você está fazendo aqui? — Ele sorriu, me soltando. — Com quem você veio?
— Com ninguém. Só precisava sair.
Ele assentiu, me observando por um instante antes de pegar minha mão e me levar ao bar.
— Dois cosmopolitans — pediu, antes de se voltar para mim. — Você está linda.
— Não seja exagerado. Eu só vesti o que estava à mão.
— E mesmo assim, acertou em cheio.
Eu ri, mas desviei o olhar.
— Thom e Cielo não aprovariam sua vinda aqui.
— Eles estão na casa do Jeremy. Achei que dormiriam por lá.
— E você? Veio por quê?
— Eu apenas queria colocar os pensamentos em ordem.
— Como se um bar fosse resolver alguma coisa.
— Quando se está bêbado, às vezes resolve — eu disse com sarcasmo.
Ele me olhou, sério, como se tentasse ler meus pensamentos.
— É por causa do O’Connor, não é?
Fechei os olhos, tentando ignorar a verdade naquelas palavras.
— Eu só quero que você fique bem, Lisy. Ele não merece você.
— Por que você se importa tanto?
Ele hesitou, então pegou minha mão, segurando-a com cuidado.
— Porque eu me apaixonei por você, desde o momento em que a vi.
— Johnson... Não.
Ele me olhou por longos segundos, com um semblante que misturava tristeza e resignação, antes de esboçar o sorriso mais sem graça que já vi. Sem dizer nada, segurou minha mão e me conduziu para a pista, onde a música pulsava como o coração de quem está tentando esquecer.
As luzes giravam em movimentos rápidos, cores vibrantes que mascaravam qualquer expressão de dor. Ninguém poderia ver meu rosto ou perceber o peso que eu carregava. A bebida começava a anestesiar meu corpo, deixando-me leve, quase flutuante, mas dentro de mim o turbilhão permanecia.
Johnson dançava ao meu lado, tentando me envolver em abraços suaves. Eu, no entanto, sempre encontrava uma maneira de me afastar, sem querer me prender àquela gentileza que parecia esmagadoramente sincera. Aos poucos, fui me perdendo na multidão, juntando-me a um grupo que dançava de forma desordenada, rindo alto e agitando copos de bebidas.
Lançava sorrisos que não passavam de máscaras, mas ninguém parecia notar. Todos estavam ocupados demais em suas próprias euforias etílicas. O único que permanecia firmemente sóbrio era Johnson, seus olhos nunca me perdendo de vista.
Apesar de estar bêbada, ainda havia uma lucidez dentro de mim. Não era isso que eu queria. Quando decidi reagir, não imaginava que significaria me perder dessa forma. Não planejava afogar meu vazio em álcool, mas, ali estava eu, exatamente assim.
Meus olhos buscaram Johnson em meio à multidão, e uma pergunta teimosa ecoou em minha mente: por que não ele? Ele era tão gentil, tão constante, tão seguro. Depois de Michael, por que meu coração escolheu Will? Por que não podia ser diferente?
Tomada por um impulso, segurei Johnson pelo braço e o puxei para perto do bar. Ele me seguiu sem hesitar, confuso, mas disposto. Eu não disse nada. Apenas olhei para ele, para a gentileza em seus olhos que parecia não merecer a confusão dos meus sentimentos.
Então, sem aviso, me inclinei e o beijei. Coloquei meus lábios nos dele, tentando encontrar naquele gesto uma resposta ou talvez um alívio para o caos que me consumia.
Johnson me envolveu com seus braços e retribuiu o beijo. Por um momento, ele sussurrou, com a voz embargada de preocupação:
— Você está bêbada, Lisy.
Mas eu não dei ouvidos. Voltei a colar meus lábios nos dele, buscando nele uma fuga, um refúgio momentâneo. O beijo era bom, quase como experimentar algo doce pela primeira vez e descobrir que gosta. Mas não tinha o mesmo sabor do beijo de Will. O de Will era como uma substância viciante, impossível de resistir.
Quando nossos lábios finalmente se separaram, Johnson me olhou com tanta paixão que senti um desconforto, uma pontada de culpa no peito. Ficamos abraçados por alguns segundos até que, entre as luzes frenéticas e o som pulsante, eu o vi.
Will estava a poucos metros de distância, encostado no balcão. Patsy estava ao lado dele, inclinada, falando algo ao seu ouvido. Eu continuei nos braços de Johnson, mas meus olhos estavam presos aos de Will. Nosso olhar se encontrou, travando uma conversa silenciosa, repleta de confrontos e ressentimentos.
Então, Johnson segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou novamente. Dessa vez, retribuí sem hesitar, tentando afogar no gesto o tumulto dentro de mim.
— Ainda não acredito — ele disse, com a voz rouca após encerrar o beijo. — Tenho medo de que isso esteja acontecendo só porque você bebeu. Mas quero acreditar que, amanhã, você ainda vai me querer.
— Johnson…
Minha voz hesitou. Não consegui terminar a frase, porque Will se levantou naquele instante, pegou na mão de Patsy e sussurrou algo próximo ao seu ouvido. Ela riu, e ele também.
Ele usava uma calça jeans preta, uma camisa desabotoada no colarinho e sapatos da mesma cor. O cabelo estava preso em um coque, e o cordão preto pendia em seu pescoço como uma assinatura de seu charme.
"Malditamente sexy", pensei, como se fosse uma verdade impossível de ser negada.
Will passou por nós sem sequer me olhar, enquanto Patsy sorria de forma diabólica, como se tivesse vencido algum jogo. Eles caminharam juntos até a pista de dança, e eu apertei a mão de Johnson, puxando-o na mesma direção.
Eu precisava mostrar que ele não me afetava.
"Que comecem os jogos" , murmurei para mim mesma.
Enquanto nossos parceiros estavam de costas um para o outro, nossos olhares permaneciam conectados. Era quase impossível ignorar a sensualidade de Will dançando. Ele se movia com uma precisão hipnotizante, dominando o espaço ao seu redor. Tudo parecia pequeno perto dele, como se a energia da sala orbitasse ao seu redor.
Patsy estava deslizando as mãos pelo abdome dele e rebolando de forma provocante. Senti um impulso irracional de afastá-la dali, de arrancá-lo daquelas mãos. Queria gritar, mas me contive, engolindo o ciúme que queimava em minha garganta.
Enquanto eu dançava, Johnson estava diante de mim, observando meu corpo se mover com um desejo nítido nos olhos. Eu envolvi os braços ao redor de seu pescoço e me permiti rebolar lentamente, deixando que a música me guiasse.
Mas, mesmo assim, meu olhar era para Will. Ele dançava com Patsy, com as mãos em sua cintura, e seus olhos, ardentes e desafiadores, estavam presos em mim. Era como um duelo silencioso, carregado de provocações e desejos reprimidos.
A música parecia falar por ele, por nós.
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UM PONTO DE PARTIDA
Lãng mạnTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
