Lisy
A chuva já havia cessado quando eu finalmente cheguei em casa. A porta rangia levemente enquanto eu a abria, como se reclamasse do meu retorno. A casa, que tantas vezes fora o refúgio dos meus sonhos e dos meus dias mais felizes e dolorosos, agora se apresentava estranha, desbotada, como se tivesse perdido a cor que outrora a iluminara.
Entrei na sala principal e, ao acender a luz, fui recebida por paredes que antes me abraçavam com conforto e hoje apenas refletiam uma solidão inescapável. Na cozinha, as marcas das fotografias que pendiam discretamente na geladeira, eram lembranças de momentos de alegria ao lado de Michael. Lembranças de algo que enterrei no passado.
As panelas e utensílios pareciam ecoar o vazio, juntamente com uma mesa onde ninguém tomaria café da manhã comigo.
Eu fechei os olhos, me recordando da fragrância de Will, o som suave de sua respiração quando dormíamos juntos, o brilho dos seus olhos quando me chamava de “raio de sol”. Mas quando os abri, tudo o que encontrei foi um silêncio sepulcral, como se a própria casa se recusasse a acolher minha dor.
Tudo tão estranho que fazia meu coração apertar.
Eu passei a mão trêmula pelo corrimão, sentindo o toque frio das memórias, enquanto lágrimas silenciosas se acumulavam em meus olhos.
Subi até o meu quarto, joguei-me na cama, mas os lençóis não me confortavam.
Lembro-me das últimas palavras dele, dos olhares trocados, do toque do nosso último abraço que se desvaneceu rapidamente.
A cada instante, o vazio parecia se expandir, engolindo a cada memória feliz, a cada momento de amor compartilhado. Eu sentia a casa – o lar que eu fiz parte há tanto tempo – transformando-se em um espaço sufocante e silencioso.
Enquanto os minutos se arrastavam, sentada frente à janela, ainda com a roupa que cheguei, observei a rua molhada e o céu cinzento, tentando encontrar sentido naquele caos interno. O som distante de carros e passos apressados não conseguiam preencher o vazio que se instalara dentro de mim. A solidão se tornou quase palpável, e a falta de Will era uma dor que latejava a cada batida do meu coração. Eu me perguntava se ele se lembraria de mim ou se, como tantas outras coisas, seria varrido pelo tempo e pelo esquecimento.
Naquele momento, a casa me parecia uma prisão dourada, um lugar que antes me protegia e agora me confinava em uma tristeza interminável.
Eu me lembrava das nossas conversas ao pé da lareira, dos risos que compartilhamos durante o café da manhã, e até dos momentos de silêncio, que agora pareciam ecoar o som dos meus suspiros solitários.
O que faria agora? Em meio às minhas dúvidas, a certeza mais dolorosa era que, independentemente de onde eu fosse, aquela parte de mim que pertencia a Will jamais se apagaria. Eu sabia que um dia teria que seguir em frente, mas, naquele instante, o futuro parecia um horizonte distante, inacessível, repleto de incertezas e prantos. Cada lágrima que caía era um lembrete de que, apesar de toda a minha força, eu ainda era vulnerável, humana, e amava com intensidade o que havia sido nosso.
Enquanto o relógio marcava as horas com uma indiferença cruel, eu me deixava afundar nessa saudade, nesse pesar que era tanto amor quanto dor. E no silêncio da minha própria solidão, perguntei-me se algum dia encontraria a paz, se conseguiria, de algum modo, aprender a viver sem aquele amor que, mesmo devastador, era a única verdade que eu conhecia.
E assim, com o coração apertado e os olhos marejados, me deixei levar pela inevitabilidade de seguir adiante, embora cada passo fosse um adeus, cada respiração, um suspiro de saudade.
E, na penumbra daquele lar que já não me pertencia, uma voz interna repetia, incessantemente:
“Eu vou superar… eu vou superar…”
Mas a verdade, tão crua e impiedosa, era que, enquanto o tempo passasse, o vazio deixado por Will continuaria a me assombrar, um eco permanente de um amor que se perdeu na imensidão da vida.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
