Capítulo Vinte e Quatro - Vazio

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William

Thom estava no meu escritório, parado à minha frente. O rosto vermelho e brilhando com gotas de suor que desciam pela pele, os punhos cerrados. Eu nunca o tinha visto tão furioso em todos esses anos.
— Sente-se! — eu disse.
— Não quero me sentar, hombre. Só quero que me explique o que aconteceu.
— Não sei do que está falando.
— Não se faça de tolo. Você sabe exatamente do que estou falando. Me diga por que a tratou daquele jeito e o que, diabos, está acontecendo entre vocês dois.
— Quem lhe contou isso?
— Coley me disse.
Franzi o cenho.
— Preciso controlar melhor a língua dele. Não o pago para fazer intrigas.
— Vai me responder ou não?
— Não há nada entre nós dois. E, para deixar claro, eu jamais levantaria a mão contra uma mulher.
— Eu sei disso. Mas não foi essa a minha pergunta. Quero saber por que agiu daquele jeito.
Eu esfreguei as mãos nos cabelos, frustrado, tentando encontrar uma resposta que fizesse sentido até para mim.
— Não sei. Só sei que me sinto irritado perto dela. A voz dela me irrita, o jeito que ela fala, o cabelo dela, a maneira como anda... tudo nela me deixa no limite.
Thom soltou um riso curto e sem humor.
— Sua irritação tem outro nome.
— Do que está falando?
— Estou dizendo que você não sabe lidar com o que sente. Está irritado porque ela abala toda essa barreira que você construiu em volta de si. Porque está apaixonado por ela e não consegue aceitar.
Aquilo era tão absurdo que não consegui conter o sarcasmo.
— De onde você tira essas coisas, Thom? Está lendo romances agora? Assistindo a novelas mexicanas? Nunca ouvi tanta besteira. Eu não estou apaixonado por ela. Eu posso ter as mulheres que eu quiser.
— E nenhuma delas esquenta sua cama nas noites solitárias — ele respondeu, seco. — Isso é triste, Will.
— Por quê? Eu gosto da minha vida assim. Além do mais, o que ela tem de tão especial para você achar que eu vou perder a cabeça por ela? É ridículo.
Thom me observou em silêncio por alguns segundos. Depois caminhou até a porta, colocou o chapéu com calma e, antes de sair, virou ligeiramente o rosto para que eu pudesse ouvir claramente.
— Sabe o que ela tem, Will? Ela tem vontade de viver. É a mesma vontade que eu via em Martin. Não destrua isso nela.
Quando ele saiu, fiquei ali, parado no meio da enorme sala. Apesar de estar cercado por empregados e pelo som constante das atividades da fazenda, o lugar parecia incrivelmente vazio. Ou talvez o vazio fosse eu.
Nos dias que se seguiram, Calvin mal falava comigo. Quando o fazia, era apenas por obrigação, trazendo informações da fazenda ou sobre os empregados. Mesmo assim, algo em sua postura estava diferente. Eva também estava distante. Não se preocupou em perguntar se eu havia comido, nem me recebeu com seu habitual bom dia caloroso.
Eu estava inquieto. Incomodado.
As palavras de minha mãe, "perder para dar valor", ecoaram na minha cabeça. Era o que ela dizia ao meu pai todas as vezes que ele me batia. Calvin e Eva não tinham nenhuma obrigação de cuidar de mim depois que Wallace me trouxe para cá, mas eles cuidaram.
Droga! Como era difícil admitir que eu estava sendo um idiota.
Caminhei até o estábulo e encontrei Calvin escovando o pelo de Diamante. Parei ao lado dele, deslizando a mão sobre o cavalo.
— Bill está interessado em um dos cavalos — comentei.
— Isso é bom — ele respondeu, sem olhar para mim.
— Gostaria que o levasse ao estábulo da área oeste para mostrar os quarto de milha.
— Claro, patrão.
"Patrão?" A palavra me incomodou. Ele não era meu empregado, não realmente.
— Depois, precisamos abastecer os armazéns. O caminhão deve chegar em uma hora. — Continuei.
— Hu-hum.
Suspirei, sabendo que precisava falar, mas não encontrava as palavras.
— Olha, você sabe que eu não sou bom com isso...
— Não entendo o que o patrão está querendo dizer.
— Não me chame assim — murmurei, irritado.
— Então me desculpe, William.
— Calvin, por favor, pare!
Ele finalmente parou e me encarou.
— Parar com o quê?
Soltei o ar, derrotado.
— Tudo bem... Eu fui um imbecil. Me perdoe.
Calvin voltou ao trabalho, escovando o cavalo em silêncio. Depois de alguns segundos, respondeu calmamente:
— Não precisa pedir perdão.
— Sim, eu preciso.
— Então está perdoado.
— Não vai me dar nenhum sermão?
Ele sorriu de lado, cansado.
— Você ouviria?
"Não", eu pensei. Fiquei em silêncio.
— Todos esses anos, eu tentei fazer você enxergar algo bom na sua vida, Will. Tentei mostrar o homem que você se tornou. E sinto que fracassei.
— Calvin...
— Pare e escute! — ele me interrompeu, firme. — Seu avô o amou muito. Antes de morrer, ele pediu que eu continuasse cuidando de você.  Mas não é por causa dessa promessa que eu faço isso. É porque, desde o dia em que vi você, um menino pequeno, olhando os bolos na vitrine da padaria, com fome, eu sabia que precisava fazer algo.
Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Eva e eu nunca tivemos filhos. Não por culpa dela, mas minha.  Eu me sentia um fracasso. Quando Wilson fez o que fez, eu soube que precisava fazer algo por você. Não porque você era um projeto, mas porque eu precisava ser útil. Porque você trouxe alegria para Eva. E porque, de alguma forma, você se tornou um filho para nós.
Suas palavras me atingiram como um soco, mas eu não conseguia responder. Apenas coloquei a mão em seu ombro, tentando encontrar as palavras que pareciam presas em algum lugar.
— Você não fracassou — consegui dizer, com dificuldade.
Calvin sorriu, mas era um sorriso triste. Então, eu tirei a mão de seu ombro e saí. Eu precisava respirar.

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