Heloyse
O entardecer trazia consigo uma brisa fria, carregada com o perfume das folhas úmidas e do chão de terra. O céu era um grande cobertor , espesso e pesado, como se escondesse algo iminente.
Eu atravessava o corredor quando ouvi um choro baixinho. O quarto de Julie estava mergulhado em penumbra, e o cheiro adocicado de leite se misturava a um odor mais forte.
— Michael, pega uma fralda, por favor.
Ele não demorou a trazer uma, e, enquanto eu a trocava, Julie me olhava com seus olhos grandes, sonolentos. Peguei-a no colo e lhe ofereci a mamadeira.
Observei seus traços delicados, os cílios longos e escuros, as bochechas coradas.
— Você parece o papai.
Ela afastou a mamadeira e bocejou. Os cachinhos grossos e escuros emolduravam seu rostinho como um quadro perfeito.
— Por isso é tão linda — Michael comentou, sorrindo.
Meu riso foi baixo. Coloquei-a no berço assim que pegou no sono e saí do quarto.
— Precisa de ajuda? — perguntei a Margot.
— Sim, pendure essas bexigas na parede — ela disse, me entregando algumas.
O quintal estava sendo preparado para a pequena comemoração. O vento frio balançava os galhos das árvores, fazendo com que as folhas farfalhassem como sussurros distantes.
Michael entrou para pegar uma ferramenta. A mesa do quintal estava com uma perna quebrada, e ele queria consertá-la.
— Alguém viu meu martelo?
— Se você, que mora aqui, não sabe, imagina eu, Michael — Margot revirou os olhos.
Nós dois rimos. Apontei para um banquinho onde a ferramenta repousava.
Assim que terminamos, fui conferir Julie e a encontrei sentadinha no berço, os olhinhos atentos e curiosos.
— Oh, minha menina, acordou? Vem cá.
Ela estendeu os bracinhos para mim. Seu cheiro era uma mistura de leite e algodão, tão familiar.
A campainha tocou.
Todos estavam ocupados, então fui atender.
A primeira coisa que vi foi o carro preto estacionado na entrada. A lataria refletia o brilho opaco do céu.
E então, meus olhos pousaram nele.
De costas para mim, as mãos nos bolsos da jaqueta preta, ele parecia uma sombra recortada no entardecer. Os cabelos loiros, tão vivos e brilhantes, eram uma lembrança materializada, um fantasma surgindo no crepúsculo.
Meu coração falhou um compasso.
O ar ficou denso, cada partícula parecendo vibrar ao nosso redor.
Ele virou-se devagar.
E ali estavam eles.
Os olhos.
Ainda tão ferozes, tão devastadoramente claros, que pareciam desafiadores até mesmo sob a luz difusa da tarde. O rosto sem nenhum traço de barba, os lábios esculpidos em uma linha que oscilava entre a indiferença e um segredo não revelado.
Ele estava mais magro, mas ainda exalava aquela força bruta, aquela presença que preenchia todo o espaço.
Ele era como uma tempestade prestes a romper os céus.
— William?
Seu nome saiu como um sussurro.
Ele deu um passo à frente, e o ar pareceu vibrar entre nós.
O magnetismo era o mesmo.
O cheiro amadeirado que eu conhecia tão bem invadiu meus sentidos, misturado ao frescor do vento. Por um instante, o tempo voltou. O passado e o presente se fundiram.
O toque das suas mãos. O calor do seu corpo.
O desejo que nunca havia sido extinto.
Ele piscou devagar, como um felino prestes a dar o bote.
— Como vai? — a voz rouca e carregada de significados.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu atrás de mim.
— Algum problema, Lisy?
Michael. Sua presença trouxe-me de volta.
Ele franziu o cenho ao ver Will, os olhos avaliando cada detalhe com atenção.
— É amigo seu?
Segurei Julie com mais firmeza e a entreguei a Michael.
— Vai com o papai.
Julie soltou um choramingo, estendendo os bracinhos para mim. Beijei sua mão gordinha e sussurrei uma promessa de que logo voltaria para ela.
Michael hesitou.
— Você vai ficar bem?
— Sim, vou.
Ele lançou um último olhar para Will, carregado de desconfiança, antes de entrar.
E então, apenas nós dois.
O vento sibilava entre as árvores.
O silêncio, carregado de tudo o que nunca foi dito, pairava sobre nós.
— Como soube que eu estava aqui? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
— Johnson me deu seu endereço. Fui até sua casa, mas uma moça disse que você estaria aqui.
— Johnson? Por que ele faria isso?
— Disse que era uma maneira de consertar as coisas.
O frio se intensificou. Ou talvez fosse apenas o choque do reencontro, a sensação de estar diante de algo inevitável.
Cruzei os braços, minha voz era calma, mas, dentro de mim, havia uma gritaria ensurdecedora.
Ele passou o polegar pelos lábios antes de colocar as mãos nos bolsos.
— Esse era o Michael?
Balancei a cabeça, confirmando.
Will desviou o olhar por um breve instante, depois voltou a me encarar. O verde dos seus olhos parecia ainda mais intenso sob o céu opaco do entardecer.
— Como você consegue estar com uma pessoa que dispensou você para ficar com outra?
O impacto da pergunta me atingiu como um golpe invisível, mas mantive minha postura.
— Você também me dispensou.
— Eu libertei você. Pensei estar fazendo o certo, te mantendo longe de mim. Ainda assim, nunca a troquei por outra.
Uma risada breve, sem humor, escapou dos meus lábios.
— Bom, a vida segue. E eu o perdoei.
Ele desviou o olhar novamente.
O vento soprou mais forte, levantando fios soltos do meu cabelo, fazendo-os dançarem.
— Por que você veio?
Will me olhou por um longo tempo antes de responder. O silêncio entre nós parecia vibrar.
— Eu achei que seria o certo.
— O certo? — repeti, com um sorriso amargo. — Depois de dois anos, você soube o que era certo?
Ele balançou a cabeça levemente.
— Não depois de dois anos... Mas, durante esses dois anos, eu sabia o que era certo fazer. E eu fiz. Só não pude procurá-la.
— E o que impediu você?
Ele inspirou fundo, como se estivesse buscando coragem na própria respiração.
— Eu precisei fazer algo, por mim. Depois, pensei na sua reação. Sei que magoei seus sentimentos.
Seus olhos escureceram um pouco, carregados por uma dor que, talvez, só agora ele tivesse coragem de encarar.
— Eu estraguei a oportunidade que tive de ser feliz com você. Johnson me disse que você tem uma grande mágoa de mim. E eu não queria que você se sentisse assim.
Aquela confissão era como um espinho cravado fundo na pele, impossível de ignorar.
— Um pouco tarde para pensar nisso, não acha?
— Sim, eu sei.
O silêncio se alongou entre nós. Os galhos das árvores estalavam ao vento, como se a própria natureza testemunhasse aquele momento.
— Eu não vim aqui para tentar reatar algo que já não existe mais — sua voz veio baixa, carregada de um cansaço que eu não sabia se vinha do tempo ou do peso da culpa. — Eu só quero fechar esse círculo aberto entre nós.
Seus olhos me prenderam ali, e por um instante, eu odiei o fato de que ele ainda tinha esse poder sobre mim.
— Queria viver sem carregar esse remorso. Não quero passar o resto da vida sabendo que você sente essa mágoa por mim. Foi doloroso para nós dois. E, durante esses anos, ainda dói saber que fui covarde.
Sua voz falhou levemente.
— Eu queria o seu perdão, Heloyse. Sei que não o mereço, mas preciso. É o que a minha alma precisa para ficar em paz.
Aquela confissão fez algo dentro de mim ceder, mesmo que por um segundo.
Sentei-me no degrau próximo à porta e coloquei o rosto sobre minhas mãos.
O mesmo degrau onde, um dia, Michael sentou-se para contar o motivo de ter se afastado de mim.
E lá estava eu novamente.
Sufocada por sentimentos que lutei tanto para superar.
Pensei que já tivesse seguido em frente. Pensei que já tivesse enterrado essa dor. Mas, agora... eu não tinha mais certeza.
O vento soprou contra o meu rosto, frio e incômodo.
Levantei os olhos para Will.
— Eu perdoei Patsy quando ela pediu perdão. Perdoei Johnson, mesmo tendo motivos para não fazer isso. Perdoei Michael, mesmo depois do que ele fez.
Fiz uma pausa.
— Mas, você...? O que você fez?
O silêncio de Will foi quase tão forte quanto a dor que ele causou.
— Você só terminou o que tínhamos. Ninguém é obrigado a ficar com quem não quer.
Ele abaixou a cabeça.
O vento balançava os galhos das árvores, e as folhas dançavam pelo chão como testemunhas do que estávamos vivendo.
— Porém, eu não consigo evitar essa mágoa — continuei.
Meus olhos buscaram os dele, que, agora, me encaravam sem fuga.
— Talvez seja como você disse.
Minha voz veio mais baixa, mas carregada de algo que, até aquele momento, eu não sabia nomear.
— Eu acho que você foi um covarde.
Ele piscou devagar, como se já soubesse disso, mas ainda assim doesse ouvir.
— Você desistiu de nós. Ficou preso no seu passado e não se deu a oportunidade de ser feliz.
Soltei um riso sem humor.
— Então, olhando por esse lado, eu devo perdoá-lo por ser um covarde, não acha?
Ele não respondeu. Apenas me observou, permitindo que eu despejasse tudo o que, por tanto tempo, ficou preso dentro de mim.
— Perdoá-lo por me deixar voltar para Boston com o coração despedaçado, só porque você não conseguiu se livrar de lembranças ruins e viver as novas que poderíamos ter construído?
Minha voz oscilou no final.
— Eu tenho mágoa sim, Will.
O vento soprou forte.
— Eu poderia ter feito você feliz, se você tivesse deixado. Mas, você destruiu isso.
Houve um silêncio longo.
Will respirou fundo.
— Será que devo te perdoar?
Seus olhos, antes tão seguros, agora pareciam carregados de incerteza.
— Talvez não.
Ele deu os primeiros passos em direção ao carro.
Levantei-me e o segui.
— Vai desistir do meu perdão, Will?
Ele parou, mas não se virou.
— Talvez devêssemos conversar em outro momento. Não quero atrapalhar você. Além do mais, não posso pegar algo que você não quer me dar.
Meu peito se apertou.
— Foi assim que eu me senti quando você terminou tudo.
Dessa vez, ele se virou e me encarou.
Nenhuma palavra foi dita, mas algo no seu olhar parecia refletir o peso da minha dor.
Ele balançou a cabeça e abriu a porta do carro.
— Você está voltando para Clearwater?
— Não. Estou hospedado aqui.
Hesitei por um instante.
— Gostaria de conversar em outro local? Não podemos deixar isso para depois.
Ele franziu o cenho.
— Michael não se importará se você for comigo?
— Não.
Ele assentiu.
— Deixei meu celular no hotel e estou aguardando a ligação de um cliente. Se quiser, podemos ir até lá.
E eu fui.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomansaTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
