Will
Eu estava imóvel na cama do hospital, encarando o teto branco, vazio, como se minha alma tivesse sido sugada para dentro daquela luz fria. O barulho distante de passos, vozes, máquinas apitando... nada fazia sentido. Tudo parecia longe, desconectado de mim.
Bebi demais.
O mundo girava, o carro derrapava, o vidro explodia. E agora eu estava aqui. Mas, de alguma forma, eu não sentia nada. Apenas um peso sufocante no peito, uma ausência que ia além da dor física.
Fechei os olhos e, em algum lugar entre o delírio e o cansaço, me vi na varanda da fazenda. O cheiro da terra úmida me envolvia, e o céu estava pesado, denso, anunciando uma tempestade. Eu estava sentado na poltrona de sempre, mas havia algo diferente. Era como se o tempo tivesse parado.
Então, eles apareceram.
Thom e Martin vinham em seus cavalos brancos, imponentes contra o horizonte. Thom puxava as rédeas de Sailor, com a tranquilidade de quem já sabia de tudo, e Martin… Martin estava como antes, antes daquele acidente, antes da doença.
Thom parou em frente a mim e inclinou-se sobre o cavalo, observando-me com aqueles olhos cheios de sabedoria.
— O que faz aqui sozinho, Will? — ele perguntou.
Eu passei a mão pelo rosto e soltei um suspiro longo.
— Esperando a Lisy voltar — murmurei, sentindo um nó se formar na garganta. — Mas, pelo jeito, ela não vai voltar.
Martin desmontou e caminhou até mim, firme, seguro, com a saúde que ele perdeu tão cedo.
Ele se sentou ao meu lado e olhou para o céu.
— Vai cair uma tempestade — disse.
No mesmo instante, notei os pássaros cortando o céu, voando apressados, buscando abrigo. Um deles pousou entre nós, tremendo levemente. Martin passou o dedo suavemente sobre sua cabeça.
— Pássaros são criaturas curiosas — ele continuou. — Quando a tempestade se aproxima, eles não ficam parados esperando. Eles levantam voo e procuram abrigo. Alguns estão tão cansados que podem morrer no trajeto. Muitas vezes a tempestade é tão forte, que os arrastam para longe, sem dar chance para que sobrevivam. E... Se estiverem feridos demais para voar, eles morrem.
Ele ergueu o dedo, e o pássaro pousado ali parecia escutá-lo. Martin sussurrou algo, e eu franzi a testa.
— O que você disse? — perguntei.
Ele virou o rosto para mim e sorriu.
— Eu o chamei pelo nome.
— E qual é o nome dele? — perguntei.
Martin se levantou, e o pássaro seguiu seu movimento, ainda pousado em sua mão. Então, ele olhou diretamente para mim e disse, com a voz carregada de significado:
— Will. Seu nome é Will. Agora voe. Procure abrigo. Não fique estacionado aqui, onde já não há mais nada. Siga em frente e procure o seu lar.
Eu abri a boca para responder, mas nada saiu. Parecia que tinha algo em minha garganta, sufocando minhas palavras.
Martin abriu os braços para mim, e eu me levantei, sentindo uma urgência desconhecida dentro do peito. Abracei-o com força, sentindo seu calor, sua presença real, como se fosse mesmo ele, como se estivesse mesmo ali.
— Mande nossas saudações para mamãe e Megan — ele sussurrou. — E diga a Heloyse que papai fala muito sobre ela.
Meus olhos queimavam, mas eu não conseguia falar. Apenas segurei aquele momento como se minha vida dependesse disso.
Quando nos soltamos, Martin subiu em seu cavalo. Thom, que olhava para o céu como se visse além do que qualquer um de nós poderia ver, voltou o olhar para mim e disse:
— Tempestades sempre acontecerão. Mas um abrigo firme e forte jamais será destruído.
Eles partiram. Em um rápido galope, atravessaram o pasto até desaparecerem na vastidão.
Eu olhei o céu que se estendia acima de mim como um imenso oceano revolto, pintado em tons de cinza profundo. As nuvens se amontoavam, densas e pesadas, carregadas de tempestade, como se o próprio céu estivesse prestes a desabar sobre a terra. O ar estava espesso, úmido, carregando consigo a eletricidade de um trovão que ainda não havia rugido.
Mas, ao longe, bem no horizonte, uma fenda se abria entre as nuvens escuras. Um vislumbre de luz dourada escapava por entre as sombras, derramando-se sobre a terra como um rio de esperança tímida. Os raios do sol escondido perfuravam a névoa, banhando os campos com um brilho suave e efêmero, como se o próprio céu quisesse lembrar ao mundo que, mesmo nas piores tempestades, ainda havia luz.
Eu acordei de súbito, sentindo meu peito subir e descer rapidamente. O quarto do hospital era sufocante. Havia cheiro de desinfetante e uma luz artificial que não tinha nada de acolhedora.
— Foi real — murmurei para mim mesmo, ainda sentindo o peso do abraço de Martin.
A porta se abriu.
Johnson entrou.
Nossos olhos se cruzaram por um instante. Ele parecia exausto, mas não tanto quanto eu. Eu me permiti olhar para ele por alguns segundos antes de desviar o olhar para um ponto qualquer na parede.
Eu estava cansado demais para brigar.
Johnson respirou fundo antes de falar:
— Eu vim pedir perdão.
Silêncio.
— Sei que talvez não signifique nada, mas… eu entendo se você não puder me perdoar.
Eu continuei imóvel, ouvindo, mas não realmente ouvindo.
— Sinto muito por tudo o que fiz, por tudo o que disse sobre sua infância. Você não merecia isso.
O som da voz dele chegava aos meus ouvidos, mas parecia vir de muito longe.
— Sinto muito por Lisy. Eu fui um idiota. Eu sei que ela amava você.
Meus dedos apertaram o lençol involuntariamente. Meu peito ardeu, mas eu não reagi. Não queria reagir. Johnson hesitou, a voz falhando antes de continuar.
— Eu sinto muito pela gravidez interrompida…
Ele respirou fundo, como se as palavras queimassem sua garganta.
— Não há um dia em que eu não me culpe.
Ele passou a mão no cabelo, os olhos baixos, como se estivesse tentando encontrar coragem para continuar.
— Eu me odeio por isso, Will. Eu me odeio mais do que você pode imaginar. Eu me sinto um lixo. E talvez seja isso mesmo que eu sou.
Fechei os olhos por um instante, mas não para me acalmar. Apenas porque não queria vê-lo ali.
Porque, no fundo, não fazia mais diferença.
Se eu pudesse, eu voaria...
Voar para longe daquele hospital, daquela dor que se arrastava comigo desde que me conheço por gente. Queria encontrar Heloyse e me abrigar nela, enquanto o mundo lá fora, desabava em água.
Mas Heloyse não estava aqui.
Ela não voltaria.
E sem ela, não havia abrigo algum.
— Eu sei que nada do que eu disser vai mudar as coisas — Johnson continuou, a voz embargada. — Sei que não há conserto para isso. Mas eu precisava vir aqui e dizer que eu sinto muito. Eu sinto muito pelo que fiz com você, pelo que fiz com ela.
Ele riu sem humor, balançando a cabeça, parecendo um homem à beira de um precipício.
— Eu passei a minha vida inteira competindo com você. E para quê? O que eu ganhei? Apenas remorsos.
Eu continuei em silêncio. Não porque não tivesse nada a dizer, mas porque não valia a pena.
Porque as palavras não traziam Heloyse de volta.
Não daria um futuro para aquela pequena vida que se foi.
Não traziam nada de volta.
Johnson suspirou e deu um passo para trás.
— Vou embora.
Ele hesitou, esperando por uma resposta que nunca viria.
— Mas tudo o que eu disse foi sincero. Eu sinto muito por todo o estrago que causei.
Finalmente, olhei para ele. Não havia raiva ali. Não havia perdão.
Apenas vazio.
Então voltei a encarar a parede.
Porque, no fim das contas, nada mais importava.
A única coisa que me fazia sentir vivo… já tinha ido embora.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
