Davies
O assistente social ajustou os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz, folheando o arquivo com movimentos meticulosos, quase mecânicos. Ao lado dele, a psicóloga que me acompanhava desde os oito anos observava com atenção, o rosto sério, mas familiar. Por todos esses anos, nunca respondi às suas perguntas. Não era por medo, mas por uma antipatia natural a quem se intrometia onde não era chamado.
Seis anos haviam passado sem que ninguém sequer cogitasse me adotar. O sistema parecia ter esquecido de mim, e eu tinha aceitado isso. Por isso, graças ao juiz, ex patrão de Eva, eu permanecia na casa dos Mitchell, ao invés de um orfanato. No entanto, eles não puderam me adotar oficialmente, pois a renda de ambos não era considerada adequada. Logo, a condição é que eu ficaria com eles, até alguém me adotar.
Eles eram a única família que eu tinha. Mas agora, lá estava eu, sentado diante de um homem desconhecido, alguém que, por algum motivo incompreensível, havia decidido me adotar.
Eu sentia as mãos suadas, a camisa grudando levemente às costas, um incômodo que ia muito além do físico. Meus olhos fugiam de todos os presentes, mas, de vez em quando, pousavam em Eva e Calvin. Eva, com os olhos marejados, tinha a cabeça apoiada no ombro do marido. Quando percebeu meu olhar, tentou sorrir. Foi um sorriso fraco, como se ela quisesse me tranquilizar, mas mal conseguisse enganar a si mesma.
— Meu nome é Wallace. É um prazer conhecê-lo — o homem disse, estendendo a mão na minha direção.
Olhei para a mão dele. Grande, firme, acostumada ao trabalho. Mas não me movi. Depois de alguns segundos, ele recolheu a mão, sem mostrar qualquer sinal de ofensa, e se sentou na cadeira à minha frente.
— Sei que deve estar assustado — ele começou, a voz grave, mas tranquila. — Prometo que não farei nenhum mal a você. Quero que confie em mim.
Não respondi. Continuei passando as mãos no jeans, tentando secar o suor. Meus olhos buscaram novamente Eva, e dessa vez ela apertou levemente o braço de Calvin, que permaneceu imóvel, o rosto sério e protetor. Eles haviam concordado em estar ali comigo, mas isso não tornava a situação mais fácil.
Enquanto o assistente social e a psicóloga continuavam discutindo algo em vozes baixas, minha mente vagava. O ar na sala parecia pesado, sufocante, e um tremor leve percorreu minhas mãos, semelhante ao que eu sentia quando Wilson, entrava em casa.
Finalmente, a conversa chegou ao fim, e eles nos deixaram a sós.
Wallace se levantou. Era um homem alto, a pele negra e marcada pelo tempo, o paletó impecavelmente ajustado. O chapéu que ele usava ao chegar estava apoiado na cadeira. Seus cabelos curtos e brancos brilhavam sob a luz da sala.
Ele caminhou lentamente até a janela, as mãos cruzadas atrás das costas. Por um momento, ficou ali, imóvel, antes de puxar levemente a cortina para olhar o lado de fora.
— Você gosta de cavalos? — ele perguntou, sem tirar os olhos da paisagem.
Não respondi.
— Tenho muitos cavalos e bois — continuou, agora virando a cabeça para me encarar. — Já ouviu falar na fazenda O’Connor?
Eu apenas o observei, sem entender onde ele queria chegar.
— É uma das maiores e mais antigas fazendas da região. Temos até animais silvestres. Agora, você é um dos homens mais ricos do Texas.
— Não estou interessado no seu dinheiro — falei, com a voz baixa, mas firme.
Ele sorriu, um sorriso pequeno e tranquilo.
— Eu sei disso. Mas, querendo ou não, você é. Quando eu morrer, será tudo seu.
Eu desviei o olhar, desconfortável. Ele se aproximou, sentando-se novamente na cadeira em frente à minha.
— Quero que aceite o conforto que posso lhe oferecer. Quero ensinar tudo o que sei sobre a fazenda, sobre a vida. Você terá aulas em casa e, se precisar de algo, qualquer coisa, basta pedir.
Hesitei, mas as palavras saíram antes que eu pudesse contê-las.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa — ele confirmou.
— Quero Calvin e Eva comigo.
— Eles irão, sem dúvida — ele respondeu, sem hesitar. — Sei que são importantes para você.
Ele percebeu o movimento nervoso das minhas mãos, enxugando o suor no jeans, e suspirou, se inclinando um pouco para frente.
— Eu também já perdi pessoas importantes. Todas elas. Hoje, sou um homem sozinho. Há momentos em que a solidão é insuportável. Existe uma grande diferença entre escolher estar sozinho e se sentir sozinho, mesmo cercado por pessoas.
Ele fez uma pausa e, pela segunda vez, estendeu a mão para mim. Hesitei, mas, dessa vez, a apertei. Sua mão era quente e firme, e, por um momento, senti algo parecido com segurança.
— Não posso chamá-lo de... pai. Eu não gosto dessa palavra. Sinto muito.
— Não se preocupe com isso — ele disse, sorrindo levemente. — Que tal avô? Já fui pai, mas nunca tive netos. Se quiser ser meu neto, não me oporei.
Pisquei algumas vezes, absorvendo suas palavras. Ele esperou, pacientemente.
— Como prefere que eu o chame? William ou Davies?
— William. Pode me chamar de William. Nunca de Davies.
— Certo, William. Agora vá para casa. Semana que vem, sua vida será diferente.
Balancei a cabeça, ainda incrédulo. Parte de mim não acreditava no que ele dizia. Outra parte, embora pequena, queria acreditar.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomansaTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
