Heloyse
Já se havia passado um mês desde que cheguei a Clearwater. Entrei em contato com Ashley e Margot, mas nenhuma delas mencionou Michael. Não soube se o viram ou se tiveram notícias dele, e isso, de certo modo, era um alívio. Às vezes, até esquecia dele, mas quando me lembrava, um desconforto sutil me invadia.
Tive meus momentos difíceis. Em algumas ocasiões, ansiava por companhia; em outras, preferia a solidão. Houve dias em que me sentia feliz com os Ferrel, mas em outros, sucumbia ao desânimo. Não por causa de Michael, mas pelas mesmas inquietações que sempre me perseguiam, aquelas que me faziam me agarrar a ele como se fosse meu último refúgio. O medo da solidão me atormentava, mas era tão familiar que, apesar do receio, era a única coisa verdadeira em minha vida.
Criei um jardim nos fundos da pequena casinha de madeira. Plantei várias mudas de flores que Thom trouxe, e isso me ajudou a ocupar o tempo. Na varanda, coloquei uma rede, uma mesa, cadeiras e uma cadeira de balanço que eles não usavam. Amei o resultado; o espaço se tornou um refúgio acolhedor.
Até então, não havia ido à cidade, mas precisava fazer isso agora para comprar minhas pílulas, shampoos e outros itens de higiene pessoal. Pedi a Cielo que me acompanhasse.
Subimos na caminhonete vermelha que Thom deixou para meu uso e seguimos juntas. Passamos pela propriedade do senhor O'Connor. Ainda não o conhecia, mas o pasto em frente à minha casa era dele. A casa principal, visível pelas frestas do grande portão, era impressionante. Uma estrada ladeada por árvores imponentes e palmeiras levava à entrada da casa. Tudo ali era deslumbrante.
Na cidade, paramos no mercado e depois na farmácia. Ao sairmos, cruzamos com uma jovem de cabelos avermelhados que iam até os ombros e olhos incrivelmente verdes. Vestia um vestido marrom e uma bota delicada. Era mais alta que eu, magra de uma forma elegante e graciosa.
— Dona Cielo! Como a senhora está? — perguntou a moça, cumprimentando-a com um abraço.
— Eu estou bem, querida.
— E quem é sua amiga?
— Essa é Heloyse Sanders! Heloyse, essa é Patsy White!
— Oi! — foi a única coisa que consegui dizer.
— Você não é daqui, não é?
— Não.
Ela continuou me olhando com um sorriso falso no rosto e em seguida me perguntou:
— E então?
— E "então" o quê? — eu perguntei.
— De onde você é?
— Ah... Boston!
— Ok — ela demorou alguns segundos olhando para as minhas roupas e sorriu. — O papo está verdadeiramente agradável, mas tenho que ir. Preciso fazer minhas unhas. Foi bom te conhecer — o rosto dela dizia outra coisa — e até logo, dona Cielo.
— Até — disse Cielo revirando os olhos.
Andamos até chegar à caminhonete. Eu me virei para trás e sorri para ela.
— Ela é linda.
— E às vezes é insuportável. Se acha melhor que todos por aqui.
— Linda do jeito que é...
— Não diga besteira, Lisy. Isso dá a ela, o direito de se sentir superior às outras pessoas. Veja você... É linda também e sabe ser humilde.
— Eu, linda? Oh, por favor, não me faça rir, Katherine!
Ela colocou as mãos na cintura e em seguida, apontou para um grupo de rapazes.
— Você está tendo algum problema nos seus olhos? Não os vê ali? Não tiram os olhos de você desde que chegou. E no mercado, os homens estavam quase quebrando os pescoços para poderem olhá-la. Se você não enxerga sua beleza, vou pedir pra Thom trocar seu espelho por um maior.
Dei risada.
— Eles me olham porque não sou daqui, e se estão flertando comigo é porque sou novidade.
— Lisy, você é mais burrinha que Megan — disse enquanto entrava na caminhonete.
Eu dei risada, novamente.
Nem dez segundos se passaram e notei que faltava uma sacola com as coisas que comprei.
— Você esqueceu isso na farmácia.
Eu levei um susto quando notei alguém parado próximo à janela da caminhonete. O homem mantinha minha sacola entre os dedos, erguida. Um sorriso enfeitava o rosto. Aliás, um rosto muito bonito. Tinha os cabelos escuros, assim como os olhos. O cabelo tinha um corte militar e no rosto, não havia vestígios de pelos. A camisa com alguns botões abertos na parte de cima, estava dentro de uma calça jeans apertada que o deixava atraente.
— Como vai, Johnson?
— Muito bem! E você dona Cielo?
— Estou bem e obrigada por trazer as coisas da Lisy.
Ele se aproximou ainda sorrindo e estendeu a sacola para que eu pegasse.
— Me chamo Johnson!
— Prazer conhecê-lo. Sou Heloyse. Mas pode me chamar de Lisy.
Johnson ampliou mais ainda o sorriso e quando dei por mim, eu já estava sorrindo também.
— Com certeza eu chamarei. E quando quiser almoçar, será bem-vinda ao meu restaurante. É por conta da casa.
— Obrigada.
— Até qualquer hora. Foi um prazer conhecê-la. E mande um abraço para o Thom, dona Cielo.
— Farei isso. Tenha um bom dia, Johnson — respondeu Cielo.
Eu o observei se afastando e dei partida na caminhonete.
— Ele é bonito, não é?
— Acredita que não reparei? — Eu disse enquanto segurava o sorriso.
— Não me diga que você está querendo enganar essa pobre senhora?
Soltei uma risada alta e liguei o rádio.
No caminho para a fazenda Ferrel, uma enorme caminhonete preta passou levantando poeira e algumas pequenas pedras.
— Lá vai o Will. Sempre como uma tempestade. Ele todo é uma tempestade.
Eu olhei pelo espelho, porém, já não havia nenhum sinal da grande caminhonete.
— Esse senhor O'Connor, ou Will, como vocês chamam, é casado? Tem filhos?
— Acredite, não há mulher que o aguente. Muitas já tentaram, mas, a personalidade dele não deixa que alguém se aproxime. Ele não se relaciona com ninguém. O velho Will vai terminar sozinho.
"Velho? Então ele era velho?”
Cielo cumprimentou alguns senhores que passavam na estrada e logo, Will já não era mais o assunto.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomantizmTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
