Heloyse
Mais um mês se foi.
Eu acordava sempre depois do almoço. Distraía-me com filmes, músicas... À noite, sempre me sentava no fundo da casa, em minha cadeira de balanço. Cobria minhas pernas com uma manta e saboreava meu café. Tudo tão solitário. Tudo tão distante de mim.
Em algumas vezes, havia lágrimas, outras, apenas frustração. Eu fui entendo que o amor nada mais era como várias doses de bebida. A gente ia se embriagando com o prazer que ele nos dava. No outro dia, tudo se resumia em dor de cabeça.
As noites tornaram-se demasiadamente longas e os dias, intermináveis. E como eram dolorosas as lembranças que eu tinha dele. O som da sua risada ecoava na minha cabeça, junto com a lembrança nítida do seu toque. Tudo isso atormentavam minhas noites. Eu tinha medo de estar amando-o mais do que antes.
Precisava sair dali. Precisava me afastar de tudo que me fazia lembrar dele e me fazia querer estar com ele. Eu definitivamente estava em pedaços.
O Natal chegou e eu nem saí de casa. Me recusei a aceitar a visita de Ashley e alguns amigos. Não houve árvores, enfeites e nem presentes. Não houve companhias calorosas e nem vozes. Só o silêncio da minha casa e a tristeza que me acolhia de forma dura e fria.
E então, se passaram cinco meses desde que ele me deixou. Malditos meses! Malditas horas!
Às vezes, eu me distraía olhando a chuva lá fora.
Interessante essa coisa da chuva. O azul do céu se dissolve em cinza, as nuvens pesam, e você corre, tentando escapar das gotas frias que ameaçam tocar sua pele. Às vezes, encontra abrigo. Outras vezes, não há escapatória. E então, os primeiros pingos são os mais cruéis, gelados, cortantes, quase como agulhas perfurando a pele. O corpo se encolhe, tentando resistir, mas logo percebe: é inútil. Depois de um tempo, já não há diferença entre seco e molhado. A chuva deixa de ser uma agressão e se torna apenas parte do caminho. O único jeito é seguir em frente, passo a passo, até encontrar um abrigo.
A vida é assim. Quando tudo parece estar no lugar, quando a zona de conforto se encaixa perfeitamente ao redor de nós, a decepção chega sem aviso, como nuvens carregadas que escurecem o dia. Ela esfria os ossos, nos faz estremecer, e instintivamente tentamos fugir. Mas, por mais que tentemos, às vezes nos molhamos. E os primeiros dias, semanas ou até meses são os mais difíceis. A dor é implacável, como o vento cortante que sopra durante uma tempestade. No começo, resistimos. Depois, nos rendemos ao inevitável. E então, aos poucos, a alma se acostuma com o peso das gotas. A tempestade ainda existe, mas a urgência do desespero dá lugar à resignação. Não há mais lamento. Apenas a necessidade de seguir em frente. Porque, em algum momento, um abrigo há de surgir.
Mas eu ainda estou na chuva. Ainda sinto o frio atravessando minha pele, ainda vejo o céu escuro sem promessa de clareza. Os primeiros dias e meses se arrastaram, e tudo continua doendo. Meu abrigo, se existe, ainda não foi encontrado. Caminho sob essa tempestade, sem saber quando ou se ela finalmente passará.
04h55 AM.
Quando ele estava comigo, eu dormia bem.
Sentei-me à beira da cama. O corpo dolorido devido a essa maratona de dormir tarde, acordar tarde e permanecer deitada no sofá. Isso estava acabando comigo. Me apoiei na janela do meu quarto. Não havia uma alma viva lá fora. Alguns minutos depois, desci as escadas e fui à cozinha tomar um copo d'água. Nossas fotos ainda estavam na porta da geladeira. Eu ainda não tive coragem de tirá-las, como Margot sugeriu.
Como eu conseguiria tirá-las dali, sem nem tirá-lo do meu coração, eu conseguia? Como dizer "eu te amei", se eu ainda o amava? Como dizer "te esqueci", se minha mente se recusava?
Eu calcei meus chinelos, coloquei meu casaco com touca por cima da camisola, peguei um molho de chaves da minha gaveta e saí de casa.
O frio tomou conta da madrugada junto com o leve chuvisco que caía. Era um frio tenebroso, onde cada lufada de ar se parecia com navalhas cortando minha pele.
Eu sei que era absurdo o que eu estava fazendo, mas, minha mente não me obedecia.
Eu parei em frente à casa dele, do outro lado da rua, atrás de um carro velho estacionado. Meu coração se aqueceu só por estar ali. Era a casa da pessoa que tinha meu coração em suas mãos. Fiquei ali, observando não sei por quanto tempo. Eu achava que estando ali, eu estava perto dele. Eu poderia senti-lo.
Será que até a coincidência brincava com meu coração?
A janela do seu quarto abriu e eu o vi. Meu coração ficou acelerado e por um instante pensei que eu teria um ataque.
Por que será que ele não estava dormindo? Ele sempre dormiu bem.
Eu me agachei atrás do carro e dei um jeito de continuar observando-o. Michael se debruçou no batente da janela e por duas vezes, eu o vi passar a mão no queixo. Ele sempre fazia isso quando estava nervoso ou preocupado com algo. Permaneceu lá por alguns minutos, de cabeça baixa.
Em algum lugar um gato miou, chamando a atenção dele. Ele olhou em direção ao fim da rua e depois, direcionou o olhar para o carro estacionado, onde eu me escondia.
Ficou olhando na direção em que eu estava por um tempo. Eu pude sentir a rapidez do meu coração descompassado.
Ele não estava me vendo. Não era possível. Mas de certa forma, eu achei que ele ainda se sentia puxado a mim. Eu queria que ele ainda sentisse algo. Queria acreditar nisso.
Depois de alguns minutos, Alice apareceu atrás dele, o abraçando. Ele a olhou e depois, voltou o olhar para onde eu estava. Para o carro. Depois de alguns segundos, Michael fechou a janela e o vazio retornou brutalmente para dentro de mim. Voltei para casa, entrei em meu quarto e esperei.
Esperei e esperei, até que eu desapareci em um mundo sem sonhos.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
