Heloyse
— Alô!
— Oi, Lisy!
— Oi!
— Você já melhorou? Sei lá… já faz tanto tempo que você se trancou aí. Acho que está na hora de sair um pouco.
— Para quê? Isso não mudaria minha situação — respirei fundo e esperei que ela continuasse.
— Olha só, você não pode viver de passado. O Michael é seu passado agora. Você é nova, precisa viver a vida.
— Vinte e seis anos não é ser nova. É caminhar para a terceira idade. Quem vai querer uma idosa como eu?
— Se ter vinte e seis anos é ser idosa, então eu sou pré-histórica! Já estou com trinta e três e ainda sou uma solteirona. Mas até os mais velhos podem curtir a vida. Vamos beber a noite toda, apertar campainhas e sair correndo, pichar as paredes dos vizinhos…
— Ok… você sabe que isso é um péssimo conselho, não é? Coisa de adolescente com ficha criminal.
— Não, senhora! É um ótimo conselho. Eu sou boa nisso. Quem você acha que aconselha meus sobrinhos?
— Não ouso dizer — sorri.
— E então, vamos? Por favor!
— Está bem — respondi, sem ânimo. — Passa aqui às sete e meia, ok?
— Estarei aí, gata!
Ashley era linda, tanto fisicamente quanto humanamente. Tinha a pele escura, como chocolate amargo, daqueles que têm a cor e a textura tão perfeitas que não ficam muito tempo na vitrine. Resumindo: ela era irresistível. Magra, alta, olhos escuros, lábios cheios, cabelos curtos e cacheados. Chamava atenção por onde passava.
Eu, ao contrário, era morena, com um metro e sessenta de altura, olhos castanhos e sem o magnetismo natural de Ashley. Não me achava horrorosa, claro, mas também não via nada de especial na minha aparência. Nem na minha vida.
Ashley era diferente. Além de iluminar qualquer ambiente com sua presença, sempre me fazia rir e sempre conseguia me convencer a fazer o que eu não queria. E, mais uma vez, ela havia conseguido.
Mesmo sem ânimo, resolvi me vestir. Meu reflexo no espelho era um desastre: olheiras profundas, lábios ressecados, cabelos desgrenhados. Tomei um banho demorado. Durante o banho, as lembranças me inundaram mais uma vez. Minha vida parecia resumida a isso: ficar estacionada no tempo, revivendo momentos que já não existiam.
Desde a última vez que vi Michael, não abri a cafeteria de casa e a outra… vendi.
A casa estava um caos. A senhora que costumava fazer a faxina, eu dispensei. Não queria ninguém por perto. Mas, ao olhar para a bagunça ao meu redor, resolvi mudar de ideia. Ainda enrolada na toalha, liguei para Margot e pedi que viesse no dia seguinte.
Depois, fui escolher uma roupa. Peguei um jeans escuro que parecia maior do que antes. Será que eu tinha emagrecido tanto assim?
Vesti um moletom preto, um tênis tão velho que parecia cinza e prendi o cabelo num rabo de cavalo apertado, daqueles que fazem a testa brilhar como se um cachorro tivesse lambido os fios para trás. Passei um lápis de olho e pronto!
Ashley chegou exatamente às sete e meia.
— Meu Deus! Quem é você e o que fez com a minha amiga? Você a comeu?
— Engraçadinha! Sempre gostei de jeans e tênis.
— Tudo bem, mas pelo menos usava calças novas, um tênis decente… e esse moletom? Sério, parece que você roubou de um defunto.
— Eu nem queria sair — esfreguei os olhos, cansada. — Fiz o que pude. Se estiver com vergonha de mim, eu entendo.
— Não, Lisy! Eu não quis dizer isso, minha amiga. Vem cá, me dá um abraço. Me perdoa?
— Não precisa pedir perdão. Sou eu e esse humor horrível.
— Vai dar tudo certo. Você vai ver!
— Eu sei. Obrigada!
Eu era péssima em mentir.
***
Fomos a um bar.
O Little Dawson era um bar-balada bem movimentado às sextas-feiras. Um grupo de colegas do meu antigo trabalho se reuniu conosco. Alguns eram amigos de Michael.
O lugar estava lotado. Era impressionante como a vida deles seguia tranquilamente, enquanto a minha havia parado em algum ponto. Eu os observava e, quando me olhavam de volta, sorria e acenava levemente com a cabeça. Era o meu jeito de dizer: dane-se, eu estou bem. Mas, por dentro, eu era um vaso totalmente quebrado. Ninguém imaginava quantos cacos eu tentava juntar.
Cada gole de tequila descia rasgando minha garganta, mas nem mesmo o álcool me levava para outro lugar. Minha mente permanecia fixada nele.
Ashley dançava animada com um dos caras da nossa mesa. Aos poucos, todos foram para a pista, enquanto eu ficava ali, perdida nos meus pensamentos.
Perdi a conta de quantas doses tomei.
— Mais um copo… Outro copo… Só mais um… Eu disse que queria mais um… Eu quero outro… Esse é o último… Dane-se, Ashley, já sou grande…
Eu era a personificação do ridículo.
— Você quer dançar? — perguntou um rapaz ao se aproximar.
— Não sei dançar… — minha voz saiu arrastada.
— Vamos! Eu te ensino.
Virei o restante da bebida de uma vez e fui com ele.
— Prazer, meu nome é Jered. E o seu?
— Isso importa?
Ele riu, coçou a cabeça, um pouco sem jeito, e começamos a dançar.
Às vezes, eu me desequilibrava e ria da situação. Eu estava visivelmente bêbada, visivelmente ridícula. Alternava entre o bar, a bebida e a dança.
— Você está bem? — perguntou Jered, quando parei de me mover.
— Estou! Eu só… eu…
O ar começou a sumir. Aquele poço escuro e claustrofóbico me puxava de novo. Era uma queda lenta e dolorosa, sem fim.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomantizmTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
