Heloyse
A feira era um caos organizado, com barracas coloridas oferecendo de tudo um pouco. O cheiro doce de frutas frescas se misturava com os temperos exóticos que preenchiam o ar, enquanto risadas e conversas se entrelaçavam com o som das músicas ao vivo. Havia algo encantador naquelas ruas movimentadas, nas bancas de artesanato local, nos eletrodomésticos de última geração sendo exibidos e até nas crianças correndo entre os adultos, arrastando seus pais para as barracas de doces. A agitação das pessoas, a vibração do lugar, tudo parecia convidativo e acolhedor.
Enquanto eu olhava a nova máquina de café expresso, fascinada com as opções, Ashley estava em algum lugar ocupada com os experimentos culinários. Cada pedaço de comida que ela provava era uma pequena aventura, e ela se entregava a cada mordida como se fosse a última.
Eu ria da sua empolgação, em como ela se deslumbrava com as barracas de queijos artesanais e os doces de dar água na boca.
Após um tempo, meu telefone tocou. Era ela.
— Desculpa amiga, mas conheci um gatinho bem aqui perto das barracas de temperos. Acho que vou demorar um pouco.
— Ah, é?
— Sim. Ele pagando sua compra. Nossa... Se você visse o bumbum dele...
— Você é uma safada — eu disse, rindo. — E ele gostou de você?
— É claro! Eu sou irresistível! Até pediu meu número de telefone.
— E qual é o nome dele?
— Oh, meu Deus, ele está vindo. Até mais! — ela desligou.
O sorriso no meu rosto era inevitável. Ashley nunca mudava, e, mesmo com toda a sua vivacidade, sempre acabava se apaixonando pelos caras errados. Era difícil para ela encontrar algo sério. Ela atraía olhares, sem dúvida, mas a maioria dos homens se interessava pela sua aparência e não pela mulher profunda que ela realmente era. E isso a frustrava. Quando ela começava a se apaixonar, sempre revelava seu sonho de construir uma família, e, como sempre, eles se assustavam.
Meia hora depois, Ashley apareceu, com aquele sorriso travesso que a denunciava.
— Será que esse sorriso tem a ver com o gatinho da barraca de tempero?
— Acertou. Ai, eu ainda não acredito. Eu fiz uma loucura.
— O que você fez? — perguntei, com um receio na voz.
— Estávamos conversando sobre comidas que mais gostamos, e começamos a falar de bebidas. Quando paramos nas barracas de cervejas, começamos a experimentar algumas. Eu bebi um pouco desajeitada e ele passou o polegar nos meus lábios, depois colocou o dedo na boca.
— Isso soa como algo muito ousado.
— Certamente! Mas eu fui bem mais.
— Como?
— Eu disse: “Isso foi muito quente”. Ele deu um sorriso torto, com uma covinha, e eu... juro que tentei me comportar, mas foi em vão. Roubei um beijo dele.
— Você não fez isso, Ashley!
— Oh, você sabe que eu fiz! E, se quer saber, não me arrependo!
— Ashley, você é mais velha que eu, não é nenhuma adolescente. Não deveria se comportar assim.
— Me desculpe, mamãe, mas a minha mente de dezessete anos nunca irá embora — ela disse revirando os olhos.
— Eu acho...
— Lisy, eu sei que não sou mais uma mulher novinha, mas eu ainda tenho esse vigor da juventude em mim. Sei que às vezes exagero, mas é meu jeito. Eu preciso ter mais malícia e não cair no conto de fadas que me oferecem... Mas às vezes, quero me sentir uma menina conhecendo seu príncipe encantado. Eu estou envelhecendo e nunca conheci um.
Eu peguei sua mão e sorri.
— Eu te amo, sou doida. Um dia eu vou madrinha do seu casamento e vou ouvir seus filhos me chamarem de tia.
— Coitados, meu filhos não merecem esse tormento.
Eu ri e dei um beijo em sou rosto.
— Você pode ser doida, mas é minha melhor amiga.
— Eu sou a única que você já teve — ela revirou os olhos e sorriu.
— E depois que você o beijou, o que ele fez?
— O abusado retribuiu o beijo. E que beijo! Sabia que deveríamos vir a esta feira. Aquele anúncio caiu do céu.
— Bem, e onde está o moço?
— Ele já vem. Foi deixar as compras no carro dele. Enquanto isso, vamos tomar um sorvete?
Após pegarmos nossos sorvetes, nos sentamos em um banco um pouco afastado. Ela mandou mensagem para informar a ele onde estávamos.
— Olha, Lisy, lá vem ele.
Eu me virei e, no instante em que o vi, tudo ao meu redor ficou em câmera lenta. O choque foi tão grande que fiquei paralisada. Ele, com aquele sorriso encantador, com um olhar que parecia ser tão inocente. E, como se o destino estivesse rindo de mim, ele parecia tão surpreso quanto eu.
— Lisy?
— Johnson? O que faz aqui?
Ele me olhou com aquele ar de surpresa, o mesmo que eu provavelmente estava exibindo. Ele parou diante de mim, com uma expressão confusa, mas, ao mesmo tempo, um brilho nos olhos.
— Eu sempre venho a essas feiras. E você?
— Eu vim comprar uma máquina de café expresso e... bom, ver o que há de novo no comércio do café...
Ficamos em silêncio por um momento, e então eu olhei para Ashley. Ela estava com a boca aberta, os olhos fixos nele, e sua expressão era de pura surpresa.
— Você é o Johnson? Aquele Johnson?
— Depende de qual Johnson você está falando.
Para minha surpresa, Ashley se aproximou de Johnson e deu um soco em seu rosto. Eu gritei, colocando a mão na boca, sem acreditar no que acabava de ver. A cena parecia um pesadelo.
— Que merda foi essa? — ele perguntou, colocando a mão no nariz, onde o soco havia acertado.
— Seu imbecil! Se você não tivesse aberto o seu bocão para falar asneiras, o cowboy da minha amiga não tinha partido para a agressão, ela não teria perdido o bebê e agora, eles estariam juntos.
— Ashley, por favor...
— Espera, Lisy... Eu vou dar um chute nas bolas dele, até afinar a voz.
Johnson, agora em modo defesa, se afastou, colocando as mãos como um escudo, protegendo suas partes mais sensíveis. Eu segurei Ashley com força, pedindo que se acalmasse, enquanto algumas pessoas começaram a parar e olhar para nós.
— Ashley, por favor. Johnson já pediu perdão, e apesar de ele ter provocado Will, no fundo, ele não é ruim. Além do mais, a culpa também foi minha. Ele errou na provocação, Will não deveria ter partido para agressão, e eu... eu não deveria ter ido pelas costas do Will. Já expliquei mil vezes. Minha idiotice foi a causa do acidente. Todos temos uma parcela de culpa, mas nenhum de nós pode mudar o que aconteceu.
Ela se acalmou aos poucos e eu a soltei. Olhou para ele, depois se virou para mim. Sua expressão era uma mistura de raiva e confusão.
— Eu beijei um homem que é ou era apaixonado pela minha melhor amiga. Um homem que é um perfeito babaca. Não estou sabendo lidar com isso... Desculpe! — ela disse, tentando sorrir fracamente, antes de se afastar e encostar em meu carro que estava a poucos metros de distância.
Johnson se aproximou de mim, ainda com o olhar de culpa. Ele sabia o quanto a situação estava complicada.
— Eu me arrependo de tudo, Lisy. Ainda sinto vergonha pelo babaca que eu fui.
— Isso já passou. O que me preocupa agora é ela. É minha melhor amiga e não vou aceitar que a machuquem. — Eu o encarei. — Você está afim dela?
— Eu... não sei... Eu vou ficar na cidade até amanhã e tinha pensado em chamá-la para sair. Mas... — ele passou a mão no nariz e fez uma careta de dor — meu nariz corre perigo.
— E agora?
— Eu ainda quero sair com ela.
— Johnson, isso e estranho...
— Eu não sinto mais nada por você, Lisy, que não seja arrependimento por ter estragado o que vocês tinham.
Eu assenti um pouco preocupada com a situação.
— Eu sinto muito. Carrego esse remorso na alma. Por minha culpa, você e o O’Connor terminaram. Ele a amava muito.
“Amava”?
A palavra me pegou de surpresa. A tristeza me envolveu quando ele usou o passado para se referir a Will.
— Ele está bem?
— Não sei. Eu tinha ido à fazenda dele pedir perdão por tudo o que causei. Estava um alvoroço por lá. Um empregado disse que William tinha bebido demais e quebrado quase tudo dentro de casa. Depois, tentou dirigir a caminhonete e acabou batendo em uma árvore, na fazenda.
— Meu Deus! — coloquei a mão no peito, tentando controlar a respiração.
— O que houve depois?
— Ele foi levado ao hospital. Quase teve um coma alcoólico. Eu fui ao hospital, dias depois. Pedi perdão pelas coisas que eu disse sobre a infância dele, mas ele não disse nada. Sequer quis me olhar, nem sequer um olhar. Ficou lá, parado, olhando para o nada. Depois disso, nunca mais o vi. Teve o problema com a Nevasca, e fiquei sabendo que ele ajudou alguns fazendeiros. Também forneceu máquinas para tirar a neve que acumulava nas ruas. Além do mais durante esses dois anos, ele se afastou de todos. Dizem que ele faz o trabalho dele na fazenda, como se nada tivesse acontecido. Outros dizem que a intenção dele era sair com a caminhonete e se matar. Quem sabe? William não é mais o mesmo, pelo que me disseram.
Eu mordi meus lábios trêmulos e as lágrimas começaram a cair.
— Você ainda o ama?
— Falar dele me faz sofrer. Independentemente do que sinto, dói saber que ele esteve mal.
Ele concordou e depois olhou para onde Ashley estava.
— Posso conversar com Ashley? Claro, se não for estranho...
— Deve! Convide-a para sair, mas, Johnson, não a machuque.
Ele sorriu levemente e foi até ela. Eu, por outro lado, ainda estava tentando processar tudo o que acontecera.
Meses depois, eles continuaram mantendo contato. E meses depois, eu ainda andava no piloto automático, tentando entender que rumo minha vida tomaria a partir dali.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
