William
— Quando você se lembra de algo relacionado ao seu pai, seja um gesto, uma palavra ou uma situação específica e sente aquele medo ou estresse se instalando, seu sistema nervoso reage automaticamente. Ele entende que você está em perigo e envia sinais para o seu corpo. A corrente sanguínea é inundada com hormônios estimulantes, como a adrenalina, e isso provoca reações físicas: tremores, suor excessivo, pupilas dilatadas, aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial…
Enquanto ele falava, eu olhei para minhas mãos. Pensando bem, havia momentos em que el jáas tremiam menos.
— Eu percebi que isso está diminuindo — comentei. — Quando você me chama de Davies, ou quando falamos sobre o meu pai, por exemplo, minhas mãos não tremem tanto como antes.
Malerman sorriu, satisfeito.
— Você está avançando muito bem. Mas quero que continue com os ansiolíticos por enquanto. E lembre-se: os exercícios de respiração profunda são tão importantes quanto a medicação. Não quero que se torne dependente de remédios.
Eu assenti, mas continuei encarando minhas mãos.
— Agora, quero que me diga… O que sentia quando seu pai batia na sua mãe?
Inspirei fundo. As palavras pareciam travadas, um nó se formando na minha garganta. Ainda era difícil falar sobre isso.
— No seu tempo, Davies.
Malerman sempre me deixava confortável. Levantei-me e fui até a janela, puxando um pouco da cortina. O movimento da rua parecia distante, mas fixei meu olhar ali. Era mais fácil falar quando eu não precisava encarar ninguém.
— Eu só tinha oito anos — comecei, a voz saindo mais baixa do que eu esperava. — Naquela época, eu não sabia o que eram aquelas sensações… O desejo de matá-lo, mesmo quando eu sentia que o amava.
Deixei escapar um riso seco.
— Profano, não é? Fazer uma criança sentir esse tipo de coisa?
Malerman não respondeu, mas balançou a cabeça em concordância. Ele queria que eu continuasse.
— Ele causava isso em mim.
Houve um breve silêncio antes de sua voz preencher a sala novamente.
— Então você está reconhecendo que não era sua culpa sentir aquilo?
Eu fechei os olhos por um instante e deixei que o ar saísse devagar dos pulmões.
— Sim.
— Isso é um grande avanço, Davies. Muito bom. Continue.
Apertei meus dedos na borda da cortina antes de soltar, tentando aliviar a tensão.
— Hoje eu sei o nome do que sentia. Ódio. Raiva. Rancor...
— E anos depois, quando teve a oportunidade de se vingar, o que o fez mudar de ideia?
— Não sei ao certo — admiti, olhando para ele rapidamente antes de voltar a fitar a rua. — Talvez tenha sido piedade. Em algum momento, no meu subconsciente, eu senti pena dele.
— Por que acha que se sentiu assim?
Meus ombros caíram um pouco.
— Porque ele já tinha perdido tudo.
— Tudo?
Assenti.
— Começou a me bater depois que caiu do telhado. Antes disso, ele era um bom pai. Depois que foi pedir dinheiro para o próprio pai, voltou um homem diferente. Começou a beber… E então tudo desmoronou.
Malerman permaneceu atento enquanto eu falava.
— Ele também foi espancado a vida inteira — continuei. — Uma vez, chegou bêbado e começou a desabafar. Disse que apanhava só por olhar para o pai. Que, algumas vezes, sujou as calças depois de uma surra.
Eu franzi o cenho ao lembrar da cena.
— Lembro-me dele apontando para o antebraço e mostrando uma cicatriz de queimadura. O pai dele o marcou com uma vela acesa, só porque ele mencionou a mãe.
— E, mesmo assim, você acredita que ele poderia ter feito diferente?
Eu olhei diretamente para Malerman dessa vez.
— Sim.
Ele balançou a cabeça lentamente, como se quisesse que eu mesmo completasse a linha de raciocínio.
— O fato de ter sofrido não o obrigava a repetir o ciclo — concluí.
— Então você acredita que...
— Que eu posso ser diferente. Que eu sou diferente. Que todas aqueles agressões foram enterradas com meu pai e eu nunca as ressuscitei, porque eu sou diferente. Coisas ruins acontecem a todo o momento, mesmo quando não queremos. Mas, eu jamais vou causá-las de forma intencional.
Ele balançou sua cabeça e deu um singelo sorriso. Arrumou os óculos no rosto e cruzou os dedos na altura do seu peito.
— Continue sobre o dia em que quis matá-lo.
Engoli em seco.
— Ele poderia ter sido diferente, mas escolheu ser como eles. Meu avô, meu bisavô... Ele poderia ter rompido esse padrão, mas não quis — apertei os olhos —, ele poderia ter sido diferente, mas, escolheu ser como eles. Ele não teve amor por parte do avô, do pai, da mãe que o abandonou. Não sei se minha mãe ainda o amava e ele sabia que tinha perdido o meu amor por ele. Perdeu a dignidade, o respeito das pessoas e perdeu até a vontade de viver. Matá-lo seria algo vantajoso para alguém que já não queria viver. Então, eu tive pena dele, por um instante.
— Por um instante? Depois já não era mais isso?
— Depois eu pensei que seria melhor deixá-lo se afogar na própria desgraça. Ele merecia aquilo. — Suspirei pesadamente.
— Matá-lo teria sido um favor. E você não queria dar isso a ele, não é?
Malerman inclinou-se para frente para ouvir minha resposta.
— Naquele instante, percebi que ele já estava morto por dentro. E isso era punição suficiente. Ele merecia isso.
Malerman ficou em silêncio por alguns instantes antes de perguntar:
— E quando ouviu o tiro… O que sentiu?
A lembrança atingiu meu peito como um soco. O barulho ecoou na minha mente, me fazendo apertar as mãos em punhos.
— Eu…
Soltei o ar devagar, mas ele tremia ao sair.
— Eu... — soltei uma grande quantidade de ar — eu me lembrei de que em algum momento, eu já o amei. Que em algum momento, ele já foi o meu herói. Em algum momento antes dos meus oito anos de idade.
Olhei para minhas mãos frias começando a tremer.
— Respire fundo, Davies — Malerman disse, com calma. — Já passou. É apenas uma lembrança.
Apertei os dedos com mais força. Então, uma lágrima escorreu silenciosa, caindo no chão. Virei o rosto para que ele não visse.
— As lágrimas são uma reação causada durante emoções como alegria, tristeza, risos ou até bocejos. Elas são responsáveis por lubrificar os olhos quando há necessidade. Por exemplo, quando há um cisco. Essa lubrificação é necessária para expelir este pequeno incomodo. Mas, há casos como o seu, em que ela lubrifica seus sentimentos, expelindo para fora, algumas dores. Chorar, também é um grande espetáculo.
Eu enxuguei meus olhos e permaneci calado, olhando pela janela.
— Como acha que estou? — eu disse por fim.
— Penso que já esteja pronto. Se não estiver, meu sofá sempre terá um lugar para você. Mais umas duas ou três sessões e ficaremos satisfeitos.
Ele sorriu e retirou a carteira de cigarros do bolso.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
