Epílogo

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O sol pairava sobre a imensidão da terra, tingindo o céu de ouro e azul. O vento soprava suave, carregando consigo o aroma da grama fresca e o perfume distante das maçãs no pomar. Aquele pedaço de mundo era meu lar, e ali, entre a terra e o céu, eu era livre. Não apenas porque estava longe das sombras do passado, mas porque tinha encontrado o verdadeiro sentido da vida: o amor.
Lisy.
Uma vez, no seu leito de morte, Martin disse algo que hoje faz todo o sentindo: “Will... Haverá um dia que você encontrará alguém. E ela vai ser a cura para todos os seus machucados e nesse dia, meu amigo... você será livre”.
Ele estava certo. Eu era livre. 
Ela foi minha redenção, minha âncora e minha cura.
Foi ela quem me ensinou que o amor não precisa ser merecido, apenas vivido. E por Deus, como eu vivia cada instante ao seu lado.
— Você não vai almoçar? — Calvin perguntou, puxando as rédeas do cavalo ao meu lado.
— Vou daqui a pouco. Preciso voltar e levar a caminhonete para o celeiro.
— Tudo bem.
— Vai almoçar lá em casa? — perguntei.
— Você acha que eu devo? — ele riu.
— Com certeza. Lisy disse que hoje faria torta de maçã para a sobremesa.
— Então não posso negar o convite.
— Seria um grande erro — eu ri.
— Acho melhor eu ir tomar um banho. Estou com cheiro de parto de vaca.
Soltei uma risada, sabendo que meu cheiro também não estava dos melhores.
Antes de partir, deixei meu olhar se perder pelo horizonte.
Eu sentia falta de Wallace. Ele foi um pai para mim, mesmo quando eu não queria demonstrar afeto. E agora, eu entendia a importância de dizer às pessoas o quanto elas significam para nós.
— Pai! — chamei.
Calvin parou o cavalo e me olhou. Ele sempre tinha aquele brilho nos olhos quando eu o chamava assim.
— Hoje à noite tem fogueira. Leve a gaita.
— Levarei — ele sorriu. — Agora vou tomar o meu banho e já chego lá, para o almoço. Até daqui a pouco, filho.
Filho.
Eu respirei fundo, sentindo o ar puro preencher meus pulmões. Eu sabia o que era viver, e era algo bom.
O passado já não me acorrentava.
Depois de deixar a caminhonete no celeiro, sacudi a poeira das botas e segui para casa. Um cheiro delicioso me envolveu assim que entrei, aquecendo ainda mais meu peito.
E então, ouvi aquele som.
Um risinho pequeno, agudo e cheio de alegria.
— Quem é a princesa do papai?
Angelini levantou os bracinhos, e eu a peguei no colo, apertando-a contra meu peito e beijando sua bochecha macia. Ela riu, e seu sorriso era a coisa mais bonita que eu já tinha visto.
Coloquei-a no chão e peguei Davies nos braços.
— Aí está você, cowboy!
Ele se aninhou em mim, e eu fechei os olhos por um breve instante, gravando aquela sensação na alma.
E então, Lisy surgiu diante de mim.
Minha mulher. Meu coração. Meu lar.
Ela se aproximou e me beijou nos lábios com carinho, e eu soube, como soube desde o primeiro dia, que ela era minha perdição.
— Preparei costelas. Vem comer.
— Eu já vou. Só vou tomar um banho.
Angelini deu um gritinho animado, batendo as mãozinhas, e logo entendi o motivo.
Cielo e Eva entraram na sala, trazendo ainda mais luz para aquele lar. Elas estragavam meus filhos, e eu sabia disso, mas não me importava.
— Cielo veio almoçar conosco — Lisy disse.
— Então vou tomar banho o mais rápido possível, antes que todos fiquem com fome por minha causa. Deus me livre ver a mãe com fome — murmurei, baixo. — Ela não age com sanidade quando está com fome.
— Eu ouvi isso, Will. Continue falando de mim pelas costas e pode esquecer o chili que ia preparar para você hoje à noite.
— Eu só estava brincando.
— Você e o Calvin se merecem — ela resmungou.
Cielo pegou Davies, enquanto Eva segurava Angelini no colo.
Lisy riu, e aquele som era a melhor melodia que eu poderia ouvir. Eu retribuí seu sorriso, sabendo que não havia nada no mundo que eu quisesse mais do que continuar olhando para ela, todos os dias, até o fim da minha vida.
Dois anos se passaram, e aquele desejo ardente entre nós jamais esfriou.
Minha esposa era uma mulher incrível. Mãe dedicada, patroa generosa, dona de uma cafeteria que administrava com carinho. Mas, acima de tudo, era minha.
E eu era dela.
— Sobe comigo? — perguntei, baixinho.
Ela assentiu, e subimos juntos, enquanto Cielo e Eva levavam os gêmeos para o playground que eu e Calvin construímos.
Eu estava feliz.
Eu tinha tudo o que nunca soube que precisava.
A luz suave iluminava o quarto, projetando sombras douradas sobre a pele dela. Deitada sobre os lençóis, sem roupa, Heloyse me olhava com aquele sorriso presunçoso que fazia meu coração acelerar e o ar fugir dos meus pulmões.
Subi lentamente na cama, pairando sobre ela, os olhos presos aos seus como se o resto do mundo não existisse.
— Eu nunca vou me cansar de você, raio de sol. Quanto mais eu tenho, mais eu quero.
Nossos lábios se encontraram, e o beijo foi lento, profundo, como uma promessa silenciosa. Cada toque, cada suspiro, reacendia a chama que queimava entre nós desde o primeiro dia. E eu sabia, sem sombra de dúvida, que esse fogo nunca se apagaria.
— Eu te amo tanto, Will. E amo mais ainda saber que você me deu uma família.
A envolvi nos braços, aninhando-a contra meu peito, sentindo seu cheiro, seu calor.
— Se temos uma família, foi porque um dia você apareceu na minha vida. Você me fez querer ter tudo isso.
Ela deslizou os dedos pela minha barba, traçando meus lábios com a ponta dos dedos, como se quisesse gravar cada detalhe em sua memória.
— Nunca irei me cansar do seu rosto.
— Eu sei — brinquei. — Minha beleza é fascinante.
Ela soltou uma risada alta, jogando a cabeça para trás.
— Oh, meu Deus... Como você é idiota!
— Ainda assim, sou um idiota que sempre será apaixonado por você.
— Isso é verdadeiramente bom, porque eu amo você.
— Eu também a amo, raio de sol. Sempre.
E então, mais uma vez, nos pertencemos. Porque era assim que deveria ser. Amar Heloyse não era uma escolha. Era uma necessidade, uma verdade absoluta.
Havia milhares de mulheres no mundo, mas eu só enxergava uma. A única curva que minhas mãos ansiavam tocar era a do seu corpo. O único rosto que eu queria ver ao envelhecer era o dela. Se o destino quisesse que eu partisse primeiro, então que fosse seu rosto a última coisa que meus olhos vissem.
Nosso amor não cabia em medidas humanas. Não conhecia limites. Era um amor que desafiava o tempo, que transcenderia os anos, as décadas, as vidas.
No dia do nosso casamento, ela disse que de nada valeria o mundo se não fosse para me amar. Mas eu discordava. Só valeria se ela fosse amada.
E ela era.
Amei-a no dia em que a vi. Amei-a no primeiro beijo. Amei-a no passado, na dor da saudade, nos dias que nos trouxeram até aqui. Amo-a agora, neste instante em que seu coração bate contra o meu.
E amarei todos os dias que virão.
A amarei para sempre.
E para sempre seria muito pouco para o tamanho do que eu sentia.


Fim


UM PONTO DE PARTIDAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora