Heloyse
Os meses na fazenda passaram devagar, mas trouxeram uma falsa paz. Desde que cheguei, deixei Ashley no comando da cafeteria e confiei em Diana, a gerente que ela escolheu. Elas cuidavam de tudo como se fosse delas, e isso me tranquilizava. O dinheiro para as contas da minha casa era depositado religiosamente. Margot, uma faxineira de confiança, fazia uma limpeza mensal. A casa estava intacta, mas minha vida emocional parecia um furacão constante.
Eu precisava de estabilidade, mas o caos morava dentro de mim. Cielo e Thom me ofereciam o amor de uma família que sempre faltou, e abandonar essa sensação de pertencimento era uma ideia que me dilacerava. Por outro lado, voltar significava enfrentar Michael e, talvez, descobrir que o que eu sentia, só estava anestesiado, que ainda o amava. Essa possibilidade me aterrorizava. Ao mesmo tempo, ficar significava encarar Will. E Will era um problema por si só.
“Eu posso esquecê-lo”, dizia a mim mesma. “Nós mal nos vemos.” Mas isso era uma mentira. Porque bastava um encontro casual para eu lembrar de tudo que ele fazia florescer em mim.
Foi no meio desses pensamentos que ouvi a voz dele, carregada de ironia e calor ao mesmo tempo:
— Você vai acabar caindo e quebrando alguns ossos.
Dei um pulo no galho da árvore onde estava e quase me desequilibrei. Eu tinha subido ali para devolver um filhote ao ninho, mas, francamente, nunca fui boa em aventuras arbóreas. Olhei para baixo e lá estava ele, chapéu surrado, mãos na cintura, observando-me como se eu fosse uma criança travessa.
— Não acha que está alto demais para alguém sem coordenação? — ele provocou.
Desci da árvore com o cuidado desastrado e me perguntei como ele e o cavalo tinham se aproximado sem que eu ouvisse.
William O’Connor tinha um magnetismo irritante. Com aquelas roupas gastas e aqueles olhos verdes, ele parecia feito para desconcentrar qualquer pessoa.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, tentando soar indiferente.
— Fui até a casa dos Ferrel e não tinha ninguém.
— Estão almoçando com os pais do Jeremy.
— E você? Por que não foi?
— Porque achei que minha presença seria desnecessária — respondi, ajeitando a blusa e limpando a sujeira das mãos.
Ele olhou ao redor, observando a casa e o pequeno jardim que eu fiz.
— Você têm trabalhado duro. Ficou tudo muito bonito.
— Obrigada — disse com firmeza. — Mas por que está aqui, William? Deseja algo em particular?
Ele ignorou minha tentativa de afastá-lo e continuou olhando para a árvore, depois para mim. Quando sorriu, senti meu estômago revirar.
— Se eu não tivesse chegado, você estaria no chão agora.
Revirei os olhos. Ele queria puxar assunto, mas suas palavras só conseguiam me irritar.
— Obrigada por salvar minha vida — respondi com sarcasmo, virando-me para ir embora.
Dentro de casa, servi-me de um copo de suco, tentando ignorar os passos que ele dava logo atrás. Encostei-me na pia e esperei que ele dissesse algo.
— Aquele dia... — ele começou.
— Eu tento esquecer aquele dia... todos os dias — cortei-o antes que terminasse.
Will respirou fundo, cruzou os braços e desviou o olhar para a janela.
— Me desculpe por aquilo. Eu nunca deveria ter tratado você daquela forma. Foi... imperdoável.
— Foi mesmo — murmurei.
Ele franziu o cenho, como se estivesse lutando contra algo interno.
— Calvin disse que você estava tentando me afastar. Do que ele estava falando? — perguntei.
— Não era sobre você. Era sobre mim. Você não entende…
— Então me faça entender, Will.
Ele abriu a boca para falar, mas mudou de assunto de forma brusca.
— Você e o Johnson estão saindo?
Suspirei.
— Primeiro, é visível que você é péssimo em mudar de assunto. Segundo, ele não é imbecil. É um cara bondoso, prestativo e respeitador. Muitos homens deveriam ser como ele.
Will arqueou a sobrancelha e deixou escapar um riso curto, carregado de deboche.
— Idiota?
Cerrei os olhos, cruzando os braços diante do peito, desafiadora.
— Homens! Homem de verdade que trata uma mulher com carinho e respeito. Você entende do que estou falando, não é, William?
A mudança em sua expressão foi instantânea. O deboche desapareceu, dando lugar a algo mais intenso e rígido. Seu maxilar se contraiu, e ele ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
Me virei de costas, fugindo do seu olhar.
— Você quer suco? — perguntei, tentando quebrar o silêncio sufocante e acalmar a tensão que agora preenchia a cozinha.
— Não, Heloyse! Quero apenas que pare de sair com o Johnson.
Senti o sangue ferver nas veias. Com força, bati o copo na pia, o som ecoando alto. Me virei para ele, furiosa, sem me importar em conter a raiva na voz.
— Você não tem o direito de querer alguma coisa de mim, porque você não é nada meu!
Will se moveu tão rápido que mal tive tempo de reagir. Ele cruzou o espaço entre nós em segundos, e meu corpo recuou instintivamente até que minhas costas encontrassem a borda fria da pia. Sua presença era esmagadora, e antes que eu percebesse, estava cercada por seus braços.
O calor de seu corpo me envolveu, e, ao levantar os olhos para encará-lo, minha respiração vacilou. A proximidade era enlouquecedora, nossos rostos tão próximos que eu podia sentir a respiração quente dele contra minha pele. Os olhos verdes de Will estavam sombrios, mas havia algo mais ali, algo que fazia meu coração bater mais rápido.
— Eu me pergunto — ele começou, sua voz baixa e rouca, cheia de provocação — se ele sabe como tocar em você.
Minha garganta ficou seca, mas eu me forcei a responder, mesmo que fosse uma mentira.
— Talvez ele saiba.
Will inclinou a cabeça, o canto de sua boca se curvando em um sorriso irônico.
— E ele faz você se sentir satisfeita?
Meu coração parecia estar prestes a explodir no peito. Eu engoli em seco, desviando o olhar por um momento antes de responder, com a voz baixa:
— Sim.
Ele riu, mas o som não tinha humor. Era amargo, como se eu tivesse acabado de confirmar algo que ele já sabia ser mentira.
— Mentirosa. Se está tão satisfeita com ele, por que anseia tanto que eu te toque?
O ar pareceu desaparecer da cozinha. Meu corpo inteiro estava em alerta, e, mesmo lutando para soar firme, minha voz saiu fraca.
— Eu não desejo que me toque.
Ele inclinou a cabeça para mais perto, seus lábios quase roçando os meus.
— Seu corpo não diz isso. Seus lábios entreabertos, esperando que eu te beije, não dizem isso.
Minha mente gritava para que eu dissesse algo, qualquer coisa que o afastasse, mas as palavras simplesmente não vinham. Então, como sempre acontecia quando estávamos juntos, a razão cedeu lugar ao desejo.
— Então você terá que resolver isso — murmurei, incapaz de me conter.
O chapéu de Will caiu no chão, esquecido, enquanto ele eliminava o último centímetro entre nós. Seus lábios capturaram os meus em um beijo que me deixou sem ar. Não era apenas um beijo; era um furacão, uma colisão de tudo o que nunca foi dito entre nós.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Meus braços subiram, agarrando sua camisa, enquanto ele aprofundava o beijo. Suas mãos percorreram minha cintura, subindo lentamente pela minha pele, fazendo-me estremecer. Quando ele puxou minha blusa levemente, senti o toque quente de seus dedos, e um suspiro escapou involuntariamente dos meus lábios.
Eu estava completamente perdida nele. O mundo parecia desaparecer, deixando apenas o som das nossas respirações ofegantes e o ritmo acelerado dos nossos corações. Will me segurava como se quisesse gravar aquele momento na memória, como se soubesse que não haveria outro.
Quando ele finalmente se afastou, ambos estávamos ofegantes. Suas mãos ainda apoiaram-se na pia, me cercando. Nossos rostos estavam tão próximos que eu podia ver cada detalhe de seus olhos verdes, os sentimentos conflitantes, a luta interna que ele tentava esconder.
— Lisy, eu…
Sua voz falhou, como se ele não soubesse como continuar. Ele abaixou a cabeça por um momento, respirando fundo, antes de dar um passo para trás.
— Eu preciso ir.
Meu coração despencou com aquelas palavras. Ele estava fazendo isso de novo. Me puxava para perto apenas para me afastar.
— Eu o odeio, William. E me odeio mais ainda por sempre deixar que você faça isso comigo — soltei, a mágoa transbordando em cada palavra.
Ele parou, ainda de costas para mim, e sua resposta veio baixa, quase inaudível.
— Isso o quê, raio de sol?
Cruzei os braços, tentando manter a voz firme, mesmo que minha garganta apertasse.
— Me beijar como se tivéssemos algo e depois deixar bem claro que não há nada entre a gente.
Ele se virou lentamente, seus olhos cravando-se nos meus.
— E não há.
— Imbecil! — rebati, sem me conter. — Você não pode dizer essas coisas. Não quando me beija como se eu fosse algo que você deseja.
Will deu um passo na minha direção, seus olhos queimando.
— E você é.
— Então por que você mostra o contrário? — perguntei, minha voz tremendo.
Ele levou a mão ao meu rosto, acariciando minha pele com tanta delicadeza que meu coração se partiu um pouco mais.
— Lisy…
A voz de Will saiu rouca, quase um sussurro. Era como se cada palavra fosse arrancada de dentro dele, e, por um instante, eu acreditei que ele finalmente fosse dizer algo que faria sentido.
— Eu não entendo por que você se afasta de mim — retruquei, minha voz embargada. — Will, nós…
Ele me interrompeu, balançando a cabeça, como se não quisesse ouvir o que eu estava prestes a dizer.
— Eu tenho que ir.
Meu coração apertou. Lá estava ele de novo, se afastando, fugindo como sempre fazia. Dei um passo em sua direção, a mágoa crescendo dentro de mim.
— Por quê? Por que você é assim? É tão insuportável ficar perto de mim?
Will parou, seu corpo tenso, e lentamente se virou para me encarar. Seus olhos estavam cravados nos meus, intensos, carregados de emoções que ele tentava esconder. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Pelo contrário — ele disse, sua voz tão baixa que mal pude ouvi-la. — É extremamente delicioso ficar perto de você.
Minha respiração vacilou com a intensidade de suas palavras, mas a confusão ainda fervilhava dentro de mim.
— Eu juro que não entendo você.
Ele abaixou os olhos por um momento, passando a mão pelos cabelos em um gesto frustrado, antes de me encarar novamente.
— Não tente. Não queira saber como eu sou.
Eu dei um passo hesitante para mais perto, incapaz de suportar a distância entre nós. Minha mão subiu devagar até pousar em seu peito. O calor que emanava dele era reconfortante, mas ao mesmo tempo me desarmava. Deslizei os dedos até o seu pescoço e toquei suavemente a barba por fazer, sentindo a aspereza sob a ponta dos dedos. Sem pensar, meus dedos roçaram seus lábios.
Will segurou minha mão antes que eu pudesse recuar e a levou aos lábios, depositando um beijo delicado ali. O gesto foi tão íntimo que meu peito pareceu se apertar. Então, como se não pudesse evitar, ele me puxou para mais perto, seus braços fortes me envolvendo.
Eu fechei os olhos e deixei que ele me segurasse. O cheiro dele me envolvia, um misto de terra, lenha e algo que era unicamente dele. Will abaixou a cabeça e beijou o topo da minha cabeça, permanecendo assim por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Eu não queria sair dali.
Era como estar na chuva e, de repente, encontrar abrigo.
— Eu jamais serei um cara bom pra você — ele disse finalmente, sua voz soando como um sopro contra os meus cabelos.
Minha cabeça se ergueu, e o encarei, confusa.
— Por que você acha isso?
Ele se afastou um pouco, mas ainda mantinha as mãos em minha cintura, como se relutasse em me soltar completamente.
— Porque é a verdade, Lisy. Imagine um cara como eu, tendo uma namorada, esposa, filhos... — Ele fez uma pausa, rindo amargamente. — Eu iria ferrar com tudo. É como uma maldição. Eu serei só mais um imbecil acabando com a vida de alguma mulher.
Balancei a cabeça, segurando seus braços com força.
— Isso não é verdade. Você não é assim, Will. Eu não entendo. Por que não me conta o que acontece com você? Talvez, se você se abrir…
Antes que eu pudesse terminar, ele se afastou completamente, erguendo as mãos como se quisesse manter distância.
— Não! — ele disse, a voz mais alta, cheia de um desespero que ele tentava esconder. — Eu não tenho nada pra contar. Apenas sei que eu jamais seria alguém bom pra você. Pra ninguém!
Minha garganta apertou, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se virou e caminhou até onde seu chapéu estava jogado no chão. Ele o pegou, colocou-o de volta na cabeça e, sem olhar para trás, saiu pela porta.
Eu fiquei parada, com o coração martelando no peito. Cada passo que ele dava para longe era como um golpe, mas mesmo assim, uma parte de mim esperava que ele parasse, que voltasse. Que me abraçasse.
Mas ele não voltou.
Quando percebi que ele havia desaparecido da minha vista, corri até a porta e a fechei com toda a força que me restava. As lágrimas, que eu segurava teimosamente, finalmente começaram a rolar.
Coloquei as mãos sobre a cabeça, tentando entender por que isso sempre acontecia comigo. Por que todos iam embora? Por que eu nunca era suficiente para ninguém ficar?
Meus joelhos cederam, e acabei no sofá. Encolhi-me ali, enquanto as lágrimas molhavam meu rosto em silêncio.
Eu estava exausta. Exausta de lutar contra sentimentos que pareciam nunca me levar a lugar algum. E, antes que percebesse, o cansaço venceu, e eu adormeci, com a dor e a solidão me embalando como uma velha conhecida.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
