Heloyse
Às sete horas da manhã, Calvin me levava até a entrada da casa de Will. O céu ainda exibia tons suaves de azul e lilás, resquícios do amanhecer que se dissipavam conforme o sol subia. A brisa matinal carregava o cheiro úmido da terra e do orvalho sobre a grama recém-cortada.
— Fico feliz que esteja aqui — disse Calvin, quebrando o silêncio confortável que nos acompanhava na caminhada.
Eu o olhei com curiosidade e ele sorriu, um sorriso sincero e acolhedor.
— Nunca agradeci por aquele dia — confessei.
— Não precisa — ele respondeu, dando de ombro. — E, como eu disse, fico feliz que tenha vindo. Na verdade, somos todos gratos.
Franzi o cenho, sem entender.
— Will está insuportável. Mais do que o habitual. Ninguém aguenta o humor dele.
— Mas eu não tenho nada a ver com isso... — tentei argumentar, mas Calvin riu, balançando a cabeça em negação.
— Ora, pare com isso. Vocês dois enganam a quem? — ele lançou-me um olhar perspicaz. — E se quer saber, minha esposa e eu estamos muito felizes por você ter se aproximado dele.
Antes que eu pudesse responder, ele simplesmente sorriu mais uma vez e seguiu seu caminho, deixando-me diante da porta imponente da casa.
Will me recebeu à entrada e, sem dizer muito, me guiou até a sala. A lareira apagada e o aroma suave do café misturavam-se ao perfume do pão recém-saído do forno. A mesa estava elegantemente arrumada, com toalhas brancas bordadas, louças delicadas e talheres de prata.
Ele olhou para mim com um meio sorriso.
— Espero não terminar minha manhã com o rosto encharcado de suco — brincou, referindo-se ao nosso último café da manhã juntos.
Ri, um pouco sem graça.
— Eu não queria que as coisas tivessem tomado aquele rumo...
Ele suspirou.
— Eu não devia ter tocado no assunto. Desculpa.
Balancei a cabeça.
— Não precisa pedir desculpas.
Dessa vez, foi ele quem sorriu.
— Vamos tomar café?
Will e Eva começaram a montar a meses, trazendo uma jarra de suco e uma garrafa térmica, além de uma cesta de pães variados, uma garrafa de leite, um bolo de chocolate úmido e macio, ovos mexidos com bacon crocante, torradas com geleia e panquecas douradas cobertas com mel.
O cheiro era simplesmente irresistível.
— Espero que goste, Lisy. Eu preparei tudo há pouco. Mas, se quiser outra coisa, posso fazer...
— Não precisa! — apressei-me em responder. — Está tudo maravilhoso. Muito obrigada!
Eva sorriu e passou as mãos no avental, um gesto inconsciente de quem sempre estava ocupada na cozinha.
— Não precisa agradecer. — Seu olhar era gentil. — Vou estar na cozinha. Se precisarem de algo, é só chamar.
— Obrigada.
Antes de se afastar, ela lançou um olhar firme para Will.
— E, desta vez, coma alguma coisa, William. Não vou perder meu tempo cozinhando se você não tocar na comida.
Ele suspirou, visivelmente sem paciência.
— Eu vou comer.
— Espero que sim, porque você nem tocou na comida que deixei para você ontem.
— Mas agora eu vou comer, não vou?
— Se não comer, nem vou cozinhar hoje. Se quiser morrer de fome, diga logo.
Will revirou os olhos.
— Eva... Eu só não comi ontem. Não é como se estivesse dias sem me alimentar. Além do mais, eu não sou uma criança, mulher!
Ela cruzou os braços.
— Tudo bem, então. Não vou mais me preocupar.
Então, ele se levantou, caminhou até ela e pegou sua mão.
— Prometo que vou comer, mãe — disse ele, num tom baixo e carinhoso. — Não fique brava comigo, está bem?
Fiquei imóvel.
Mãe?
Ela sorriu e, como se fosse um reflexo natural, passou a mão sobre os cabelos dele.
— Então vá comer. Vou fazer chili para você no almoço.
O rosto dela se iluminou com um sorriso antes de desaparecer pela porta da cozinha.
Quando Will voltou a se sentar, percebi que estava levemente embaraçado.
— "Mãe?" — perguntei, sem conseguir conter minha curiosidade.
Ele deu de ombros.
— Ela é como se fosse.
E, por um instante, sua máscara de homem forte e inabalável caiu, revelando um Will diferente, quase vulnerável. Mas foi apenas um segundo. Ele logo retomou a compostura e desviou o olhar.
— Experimente o bolo de chocolate. Você vai gostar.
Coloquei um pedaço na boca e, de fato, era delicioso.
— Está bom? — ele perguntou, observando-me atentamente.
Assenti, ainda mastigando.
— Uma delícia!
Will sorriu e, depois de alguns segundos, também se serviu.
Era estranho como estar ali, naquela casa, tomando café com ele, me fazia sentir... confortável. Como se pertencêssemos àquele momento. Eu nunca imaginei algo assim. Será que era essa a sensação de dividir uma refeição com alguém que você ama?
Com Michael, era diferente. Ele sempre saía cedo para trabalhar, e eu já estava na cafeteria, deixando tudo pronto antes de abrir. Não havia tempo. Não havia esses silêncios preenchidos por presenças, esses olhares trocados entre uma garfada e outra.
De repente, me peguei imaginando como seria criar uma criança naquela fazenda. Olhei para a porta e, na minha mente, visualizei um menininho de cabelos loiros entrando correndo na sala, rindo alto, suas mãozinhas agarrando as torradas e espalhando farelos pela mesa.
Meu Deus. Meus pais.
Uma onda de saudade me invadiu. Nossa casa, nossas manhãs repletas de risadas e comida farta. Minha mãe fazia os melhores doces. Meu pai tomava café enquanto lia o jornal. Marcus...
Marcus era tudo para mim.
E agora eu não tinha mais nada disso.
— Heloyse? — A voz de Will me chamou de volta.
— O que foi?
— Nada.
Ele franziu o cenho.
— Você vai me contar por que ficou tão distraída
— Não foi nada.
Ele me observou por mais um instante, mas não insistiu.
— Tudo bem, então. Termine seu café. Você mal tocou na comida.
— Will, precisamos conversar. Eu não...
— Agora não, Lisy. Depois conversamos. Eu sei o que você quer falar. Também pensei sobre tudo. Falamos sobre isso depois.
Suspirei, ansiosa e um pouco nervosa. Mas concordei.
Comi um pouco mais, até me sentir satisfeita.
— Nunca estive em uma casa assim. Ela é tão linda.
Ele sorriu.
— Quer conhecer o resto?
— Eu adoraria.
Will segurou minha mão e me guiou pela casa.
A cozinha era esplêndida, um verdadeiro convite ao aconchego. O ambiente era rústico, mas sofisticado ao mesmo tempo. Os móveis eram robustos, de madeira bem trabalhada, com detalhes talhados à mão que evidenciavam a riqueza dos anos e a qualidade do material. Panelas de cobre pendiam de ganchos no teto, refletindo a luz suave que entrava pelas grandes janelas com cortinas de renda. Sobre as prateleiras, descansavam potes de cerâmica e vidro, cheios de temperos, grãos e ervas secas, que enchiam o ar com um aroma acolhedor.
No centro da cozinha, uma senhora de idade cortava legumes com mãos experientes e cuidadosas. Ela tinha cabelos grisalhos presos em um coque e usava um vestido de algodão simples, coberto por um avental xadrez. Seus olhos se iluminaram quando olhou para nós, como se nos reconhecesse de algum lugar ou, talvez, como se tivesse um carinho especial por Will. Ao lado dela, Eva picava carne com movimentos precisos, concentrada no trabalho.
Em outra parte da cozinha, fileiras de garrafas continham óleos aromatizados, pimentas conservadas e ervas imersas em azeite dourado. A decoração remetia a uma cozinha de fazenda mexicana, com suas cores vibrantes e detalhes rústicos que, ao mesmo tempo, transbordavam charme e funcionalidade. O cheiro de alho e ervas frescas se misturava ao aroma do pão recém-saído do forno, criando uma atmosfera que aquecia o coração.
Will me guiou para fora da cozinha, passando por um corredor iluminado por lustres de ferro forjado. Em seguida, chegamos a uma ampla área de churrasco. Havia uma grande mesa rústica de madeira, cercada por cadeiras pesadas, como se estivessem sempre prontas para receber visitas. A churrasqueira era imponente, construída em tijolos de barro, com uma chaminé alta que desaparecia no telhado.
Do outro lado do pátio, um campo de futebol se estendia pelo gramado bem aparado. Mais adiante, uma piscina reluzia sob a luz do sol da manhã, cercada por espreguiçadeiras e guarda-sóis brancos. A água azul-turquesa refletia o céu limpo, e uma leve brisa fazia pequenas ondulações na superfície.
— Você dá festas aqui? — perguntei, encantada com o espaço.
Will sorriu de leve, seu olhar perdido em memórias.
— Quando eu era adolescente, meu avô costumava dar festas. Ele era um homem solitário no dia a dia, mas tinha muitos amigos, tanto da cidade quanto de fazendas vizinhas e até de lugares mais distantes. Eles vinham visitar e ele fazia questão de preparar um belo churrasco. Para ele, comida era sinônimo de união, e ninguém era tratado como empregado ou patrão nessas ocasiões. Todos se sentavam à mesma mesa, bebiam e riam juntos, como uma grande família.
Eu o escutava atentamente enquanto ele continuava.
— Thom sempre vinha, assim como Cielo, que ajudava na cozinha junto com as outras mulheres. Martin e eu costumávamos nadar no rio enquanto Megan, que era bem mais nova, corria atrás de nós, tentando nos encontrar antes que aprontássemos alguma coisa. Um amigo do meu avô tinha duas filhas que vinham sempre. Martin e eu adorávamos provocá-las.
Ele sorriu nostálgico antes de acrescentar:
— Às vezes, Martin sumia com uma delas.
Levantei uma sobrancelha, intrigada.
— E quando ele sumia, você ficava fazendo o quê com a outra?
Will deu de ombros.
— Nada. Ela era apenas uma conhecida. Apenas isso. Assim como a irmã, gostava do Martin também.
Fiz uma expressão teatral de surpresa e levei a mão ao peito.
— As duas gostavam dele? Meu Deus, ninguém queria você? Não pode ser! Você devia ser um adolescente cheio de espinhas, usando roupas esquisitas e com aparelho nos dentes, não é?
Ele me lançou um olhar de canto, sorrindo divertido.
— Martin sempre foi muito carismático. Ele fazia amizade com qualquer um e sabia como arrancar risadas. Eu, ao contrário, nunca fui extrovertido. Sempre preferi ficar na minha. Depois que meu avô morreu, nunca mais fiz churrascos ou chamei os amigos dele. Eles não eram meus amigos, apenas conhecidos. A única amizade verdadeira que eu mantive foi com Martin.
A seriedade voltou ao seu rosto enquanto continuava:
— Às vezes, alguns deles ligam perguntando por Calvin ou Eva. Querem saber se estou bem, mas eu não sinto necessidade de vê-los. As únicas pessoas com quem mantenho laços de verdade são os Ferrel. O resto são apenas figuras do passado.
O silêncio que se seguiu pesou no ar.
— Por que você se afasta? — perguntei, tentando entender sua relutância em manter conexões.
Ele ignorou a pergunta e apenas se virou, caminhando na frente.
— Vamos. Ainda quero te mostrar o resto.
Acompanhei seus passos e entramos na casa novamente. O interior era impressionante. O chão de madeira brilhava tanto que quase refletia nossa imagem. As paredes eram decoradas com quadros de paisagens e fotografias antigas, algumas em preto e branco, retratando pessoas que, provavelmente, pertenciam à história daquela casa.
Os quartos eram espaçosos e elegantemente decorados. As cortinas rendadas combinavam com os forros de cama, dando um toque delicado e refinado. As mobílias eram antigas, mas extremamente bem cuidadas, ostentando um luxo clássico. Cada peça parecia contar uma história.
O quarto de Will era o mais impressionante. A cama de dossel, imponente, ocupava grande parte do espaço, envolta por cortinas leves. Os janelões eram cobertos por pesadas cortinas de tecido nobre, conferindo um ar sofisticado. A lareira ao canto tornava o ambiente acolhedor, e o grande tapete vinho dava um toque de calor e requinte. A única coisa que destoava da decoração clássica era a televisão moderna, instalada em um painel de madeira.
Ele se virou para mim, encostando-se à grande cômoda de madeira escura. Seus olhos percorreram meu rosto antes de deslizarem lentamente pelo meu corpo. O ar entre nós pareceu se aquecer.
— Gostou? — Sua voz saiu rouca, baixa, como se já soubesse a resposta.
— É incrível. Eu não esperava algo assim... tão elegante. — Sorri, caminhando devagar até o centro do quarto.
Will deu um passo à frente, e eu senti a energia entre nós mudar. Ele levantou a mão, tocando suavemente uma mecha do meu cabelo, enroscando-a entre os dedos antes de soltá-la.
— Eu gosto daqui. É o único lugar onde posso simplesmente... respirar.
Eu entendi. Aquele não era apenas um quarto; era um refúgio, um pedaço do mundo onde ele podia ser apenas Will, sem as responsabilidades da fazenda, sem as expectativas que todos pareciam ter sobre ele.
Sem pensar, toquei seu braço, deslizando meus dedos levemente sobre a manga da camisa que ele usava.
— Obrigada por me mostrar tudo isso — murmurei.
Ele me encarou por um momento e, sem dizer nada, ergueu a mão para tocar meu rosto. Seu polegar roçou minha bochecha com delicadeza, e minha respiração falhou quando ele se inclinou um pouco mais.
— Você me deixa louco, raio de sol...
Meu coração disparou ao ouvir aquelas palavras sussurradas contra minha pele. Will deslizou a mão para minha nuca, puxando-me suavemente para mais perto. Senti o calor do seu corpo, seu cheiro amadeirado misturado ao leve aroma de couro.
Quando seus lábios tocaram os meus, foi com uma doçura inesperada. Um beijo lento, explorador, como se ele quisesse memorizar cada detalhe daquele momento. Eu correspondi, minhas mãos deslizando até seu peito, sentindo os músculos sob a camisa.
Ele aprofundou o beijo, e um suspiro escapou dos meus lábios quando suas mãos percorreram minhas costas, trazendo-me ainda mais para perto. Naquele instante, éramos apenas nós dois, envoltos pelo calor da lareira, pelo perfume amadeirado do quarto e pelo desejo silencioso que pairava no ar.
Will interrompeu o beijo, encostando sua testa na minha.
— Eu deveria parar... — ele disse, com um sorriso hesitante.
Eu respirei fundo, sentindo a eletricidade entre nós.
— E por que você deveria?
Ele riu baixinho, passando os dedos pelos meus cabelos antes de me puxar para mais um beijo.
E, naquele momento, eu soube que não queria que ele parasse, infelizmente, ele parou.
— O que eu quero fazer com você, Heloyse, não pode ser feito agora, na luz do dia, com outras pessoas transitando pela casa.
Eu olhei para o chão, um calor subindo pelo meu rosto, mas não consegui disfarçar o sorriso em meu rosto.
— Vamos? — perguntou sorrindo.
Eu concordei.
Seguimos para o escritório, que também refletia sua personalidade reservada. Tudo era feito de madeira escura e polida, desde a mesa robusta até as estantes repletas de livros. Um janelão coberto por cortinas filtrava a luz natural, suavizando o ambiente. No centro, um grande sofá de couro escuro, ladeado por duas poltronas, completava o espaço.
Descemos as escadas e seguimos por um longo corredor até que Will abriu uma porta, nos levando a um pátio interno encantador.
O chão era revestido de pedras antigas, e no centro havia um chafariz de mármore, onde um cisne esculpido despejava um fio constante de água. Plantas trepadeiras subiam pelas paredes de pedra, criando um efeito mágico. O cheiro úmido das folhas misturava-se ao perfume suave das flores que cresciam em vasos estrategicamente espalhados pelo espaço.
Perto dali, sob uma cobertura, havia uma pilha de lenha empilhada com perfeição, ao lado de um machado encostado contra a parede.
— Eu gosto da comida preparada no fogão a lenha. E com as tempestades que temos, prefiro acender a lareira nessas ocasiões. Apesar das lareiras elétricas e aquecedores, prefiro o modo tradicional. Gosto do calor da madeira queimando. Dá um ar aconchegante, você não acha?
Eu sorri, observando o ambiente.
— Sim, acho. Seu quarto e este pátio são os lugares mais bonitos da casa. Tudo aqui é encantador, Will.
Ele assentiu, olhando ao redor.
— A primeira vez que vim aqui, pensei que era o lugar mais bonito do mundo. Todo esse pasto, o rio, os animais... Parecia um sonho. Por isso quis mostrar para você. Talvez pudesse sentir o mesmo que senti.
— Você nem sempre morou aqui na fazenda?
— Não — ele respondeu, seu tom mais contido.
Will segurou minha mão e me guiou de volta à sala, indicando o sofá para que eu me sentasse.
— Onde você morava antes? — perguntei.
Ele passou as mãos pelos cabelos e respirou fundo, como se estivesse se preparando para uma confissão difícil.
Will recostou-se no sofá, os olhos distantes, como se revivesse cada memória antes de falar.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
