Heloyse
Ficamos ali, parados, nossos peitos subindo e descendo enquanto tentávamos recuperar o fôlego.
Segundos depois, ele se retirou de dentro de mim e, sem dizer nada, puxou meu corpo para junto do dele. Ficamos abraçados por um bom tempo, respirando o silêncio que preenchia o quarto.
Precisávamos daquele momento.
Sentíamos falta de gestos como aquele.
— Eu nunca conseguiria deixar de te amar — murmurei contra sua pele quente.
Ele suspirou profundamente e então perguntou:
— Só não entendo por que diabos voltou com o Michael, se ainda me ama.
Meus olhos se abriram devagar.
— Como?
Will se afastou ligeiramente, me fitando com seriedade.
— Por que está com ele? Eu não duvido do que sente por mim, mas ainda assim, queria entender. O que te fez voltar pra ele?
— Will...
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
Ele se sentou na beira da cama, ainda nu, colocando as pernas para fora enquanto passava a mão pelos cabelos, jogando-os para trás.
Franzi o cenho, me inclinando um pouco na direção dele.
— De onde você tirou essa ideia? — perguntei, afastando uma mecha de cabelo do rosto e colocando-a atrás da orelha.
Havia confusão em seu olhar.
— Eu fui até sua casa, e uma moça disse que te encontraria em outro lugar. Me passou um endereço, e quando cheguei lá, te vi com uma criança no colo.
Minha boca entreabriu em surpresa, mas ele continuou:
— Depois, o imbecil do Michael apareceu... — Ele se calou por um instante, inspirando fundo, antes de continuar: — E então você disse "vai com o papai". A menina chorou ao sair do seu colo e ele parecia claramente incomodado com a minha presença. Eu não entendo.
Eu sorri, me sentando na cama e ajeitando o vestido sobre meu corpo, cruzando-o na frente, já que os botões haviam sido arrancados.
— A moça que você viu era Ashley. Ela foi até minha casa buscar algumas toalhas de mesa. Hoje é o aniversário da Julie, filha do Michael. Eu estava ajudando nos preparativos. Além do mais, Julie é como uma sobrinha pra mim. Alice, a esposa dele, tinha saído para comprar as velas que havia esquecido.
Will se levantou e caminhou até a janela, passando a mão pelos cabelos, ainda de costas para mim.
Me aproximei devagar, até vê-lo sorrindo.
Ele se virou para mim e, ainda sorrindo, segurou meu rosto e selou nossos lábios em um beijo demorado.
— Você não imagina o alívio que estou sentindo. Eu pensei que você tinha formado uma família com ele. Droga! Eu estava começando a me sentir mal por ter transado com você.
Eu ri da sua expressão de alívio.
— Seria impossível outro homem me tocar, quando meu corpo e alma pertencem a você.
Ele me abraçou ainda nu e murmurou:
— Vocês são estranhos.
— Por quê, cowboy?
Ele ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça de lado.
— Ele é seu ex e você se dá bem com a esposa dele? Além disso, ainda cuida da filha deles?
— Sim, é estranho. Mas não é incomum — respondi, sorrindo. — Eu aprendi a respeitar Michael como um amigo. E aprendi a amar Alice. Nos tornamos amigas.
— Como surgiu essa amizade?
— Alice estava grávida de Julie. Um dia, ela tropeçou e caiu da escada. Eu estava passando de carro quando a vi saindo de casa, com dificuldade para andar, segurando a barriga e gritando por socorro.
Os olhos de Will brilharam com um misto de surpresa e admiração.
— Você a socorreu, não foi?
— Sim. Não tinha ninguém em casa. Michael estava trabalhando e o Erick tinha saído com alguns amigos. Eu estava assustada, Will. Ela poderia perder o bebê, e eu faria o que fosse preciso para que isso não acontecesse.
Ele me puxou para seus braços, me envolvendo em um abraço quente e seguro.
— Estou orgulhoso de você, Lisy — murmurou contra meu cabelo. — Imagino que tenham um grande carinho por você.
— E eu por eles. Eu posso ver o quanto se amam. Sempre se amaram apesar dos anos afastados. Michael e eu, não nascemos para ter uma vida juntos, porque eu sei que a vida destinou isso a mim e você. Um amor que os anos não conseguem apagar.
Will tocou meu rosto carinhosamente.
— Meu raio de sol.
Eu sorri, alegre diante daquele apelido que eu tanto amava.
Após uns segundos, Will perguntou:
— Ele sabe?
— Sim. Ele ouviu enquanto eu contava sobre nós e minha gravidez para Alice.
Will assentiu, como se tudo fizesse sentido agora.
— Isso explica a forma como ele me olhou. Mas não que isso importe.
— Ele não pode te julgar. Além do mais, a vida é minha. E só o que me importa é estar com você.
Meu vestido rasgado se abriu, revelando o topo dos meus seios.
Os olhos de Will escureceram, e num movimento rápido, ele me puxou de volta para seus braços. Nossos lábios se encontraram, famintos, e minutos depois, estávamos de volta à cama.
No carro, nossas mãos estavam unidas sobre minha coxa enquanto conversávamos sobre a fazenda. O ambiente era leve e tranquilo.
Há muito tempo eu não me sentia assim.
Antes de sairmos, ele havia passado em uma loja e comprado outro vestido para mim. Era quase da mesma cor do que eu usava antes, mas sem botões e muito mais elegante.
Will estacionou o carro em frente à casa de Michael e desceu, abrindo a porta para mim.
— Por que você não fica? — perguntei, observando-o de baixo.
Ele desviou o olhar para a casa, e então vi Michael parado na porta, nos observando.
— Melhor não.
Assenti.
— Tudo bem, então.
Will segurou minha mão e a levou até seus lábios, deixando um beijo suave sobre meus dedos.
— Eu queria te ver amanhã. Posso ir até sua casa?
Sorri.
— Claro.
Ele me lançou um último olhar antes de entrar no carro e partir.
Michael segurava Julie nos braços, e assim que a pequena me viu, abriu um sorriso radiante.
— É ele, não é? — Michael perguntou, sem rodeios.
Eu me virei para encará-lo.
— Quem?
— Só responde, Lisy.
Soltei o ar lentamente.
— Você sabe que é.
Michael cerrou a mandíbula.
— Como pode ficar com esse cara depois de tudo?
Revirei os olhos.
— Ele não fez nada.
— Não tem como pensar diferente! Esse idiota agrediu você e...
Endureci a expressão, interrompendo-o:
— Se você continuar, eu vou embora da sua casa e não volto mais. Não quero que você o julgue. Will nunca me agrediu. Foi um acidente. Um acidente que não machucou apenas a mim, mas a ele também. Ele sofreu, Michael, assim como eu.
Michael ficou em silêncio por um momento. Então, respirou fundo, ajeitou Julie no colo e deu as costas.
— Nós vamos cantar parabéns.
E sem dizer mais nada, entrou em casa.
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UM PONTO DE PARTIDA
RomanceTragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de um escape, ela se lança ao desconhecido-não para se encontrar, mas para esquecer, nem que seja por um instante. Sua jornada a leva a terras v...
